Reações ao chumbo do mecanismo de solidariedade: «Pode ser que lhes aconteça como ao Boavista»
Após a Assembleia Geral da Liga, que chumbou a distribuição do mecanismo de solidariedade da UEFA pelos da Liga 2, foram quatro os clubes a falar aos jornalistas, concordando que a decisão que dali saiu «envergonha» o futebol português.
Em causa estava a distribuição dos dinheiros provenientes da UEFA pelos clubes da Liga 2 — os regulamentos da entidade que gere o futebol europeu preveem, desde 2024, que isso só pode acontecer com aprovação de 75 por cento dos clubes dos escalões principais. Da votação, saíram doze votos a favor e seis contra, o que não se tornou suficiente para revalidar o mecanismo.
Pedro Lima, diretor-geral do Vitória de Guimarães, lamentou o desfecho da AG, «numa altura em que o país está a sofrer um conjunto de catástrofes naturais que afeta todos clubes presentes».
«Todo o futebol nacional acaba por estar condicionado desde a sua base pela catástrofe que o país está a sofrer. O Vitória SC vem reforçar o que já tinha assumido em comunicado dia 29, de que distribuirá a sua quota parte aos clubes da II Liga», expressou.
«Fratura no futebol português»
O presidente do Marítimo, Carlos André Gomes, falou a seguir, criticando o facto de se terem mudado as regras do jogo... a meio do jogo: «É um dia negro para o futebol português (…) É importante referir que em dezembro de 2024, quando os clubes da I Liga decidiram a distribuição das verbas do mecanismo de solidariedade para a II Liga, fizeram uma votação para três anos. A meio do jogo, alguém decide mudar as regras e obriga a Liga a fazer uma nova votação para ver se a verba é distribuída ou não para os clubes da II Liga. (...) Hoje tivemos uma fratura no futebol português.»
O dirigente deixou ainda uma garantia: «Enquanto eu for presidente do Marítimo, aquilo que posso vos dizer é: no dia em que o Marítimo estiver na I Liga, que não sei quando é que isso acontecerá, primará sempre pela solidariedade daqueles que estão na II Liga.»
Estrela da Amadora oferece-se para ajudar clubes da II Liga
Paulo Lopo, presidente do Estrela da Amadora, criticou os «novos ricos», que entraram no futebol português, e, num tom de ironia, aconselhou-os a ter cuidado para que não lhes aconteça como o Boavista: «Os clubes da II Liga têm muitas dificuldades. Lutamos para ser solidários, mas, infelizmente, acho que a solidariedade acabou. Acabou porque houve um grupo de clubes que são os 'novos ricos', que têm investidores estrangeiros, que chegam aqui com milhões e milhões, como outros que, ao fim de dois ou três anos, se chatearam, foram embora e deixaram a Boavista da forma que está. Pode ser que a eles lhes aconteça o mesmo e da próxima vez pensem melhor sobre aquilo que é a realidade do futebol português, que foi sempre solidário.»
Mas os «clubes não têm culpa, são os presidentes que têm tiques de grandeza», corrigiu mais à frente, afirmando ainda que «a grandeza não se mede pelo dinheiro, mede-se nos balneários, dentro de campo, nesses pequenos pormenores, porque o futebol não é só investir em jogadores de futebol e vender muito.»
«Seis dos nossos colegas mudaram o voto de há um ano, sem que nada fizesse prever que isso pudesse acontecer. E acho que isso é lamentável, porque efetivamente, fora os cinco clubes grandes [referindo-se a FC Porto, Sporting, Benfica, SC Braga e Vitória SC], todos os outros são mais ou menos da mesma dimensão e todos podem estar numa altura na I Liga e noutra na II Liga», advertiu.
«Todos os clubes que votaram a favor, se se quiserem juntar para oferecer a verba aos clubes da II Liga, nós estamos disponíveis», apelou Paulo Lopo, à semelhança do que tinha também dito Pedro Lima.
«Pelo que o país está a passar...». As críticas de Leiria
Por fim, falou o presidente da UD Leiria, que começou por «agradecer a toda a gente que tem apoiado a gente de Leiria e do centro», referindo-se às tempestades que têm atingido a região. No entanto, esta sexta-feira, Nélio Lucas afirma não ter sentido a mesma solidariedade no futebol português: «Estamos neste momento à mercê da solidariedade de todos. E é muito triste e mesmo vergonhoso não ter havido um eco solidário de todos aqui. Eu esperava o voto unânime de solidariedade, por aquilo que o país está a passar.»
«O que se passou aqui hoje foi uma vergonha. Indescritível... Ao não termos aprovado aqui o mecanismo, é uma quebra total no eco solidário que o país encontra neste momento», sublinhou o dirigente, falando como «máximo representante desportivo de uma equipa que representa toda a região centro completamente fustigada pelas sucessivas tempestades e que está num estado de calamidade sem precedentes no nosso país».
«Devem-se envergonhar todos aqueles que votaram contra, porque efetivamente não representam aquilo que a nossa sociedade tem de melhor, que é esse nosso espírito português. A eles, efetivamente tenho-lhes a dizer que não orgulham nada o futebol português. Tomaram esta decisão a bem do seu próprio interesse contra o interesse maior que era o futebol», concluiu.