Rúben Dias em conferência de imprensa (MIGUEL NUNES)
Rúben Dias em conferência de imprensa (MIGUEL NUNES)

Setas apontadas a CR7, os teóricos do jogo, medo, blindagem, praia e… Real Madrid: tudo o que disse Rúben Dias

Rúben Dias deu a cara pela Seleção Nacional na base de apoio na Florida. Em conferência de imprensa, o defesa-central não fugiu a nenhum tema quente: o ruído em torno de Cristiano Ronaldo, a gestão física após falhar a estreia com a RD Congo, a noite de estreia dos jovens Tomás Araújo e Renato Veiga e, claro, a polémica em torno das três horas passadas pelos jogadores na praia.

— Já está totalmente recuperado do problema físico que o impediu de defrontar o Congo?

— Estou a sentir-me muito bem e estou pronto.

— Após o jogo, as setas estiveram quase todas apontadas ao Cristiano e não à equipa. Como é que sentiram isso dentro do grupo?

— Bem, primeiro de tudo, as setas não estão apontadas a apenas um jogador. Como é óbvio, o Cris é um grande foco de atenção, mas todos estamos em causa num momento destes. Acima de tudo, nada fora da normalidade está a acontecer. Tem sido assim sempre que aqui estive e acredito que continuará a ser no futuro. Como tal, nada de novo.

— Há duas narrativas muito presentes nesta altura, vindas muitas vezes até de antigos jogadores. Uma narrativa é de crítica ao Cristiano; outra é de crítica à equipa que o rodeia. Há uma terceira via?

— Sinceramente, do que vi a nível dos jogadores, não vi muita coisa. Mas do que vi, não vi nada do que diz. Obviamente há muita especulação e, quando os resultados não são os mais positivos, é normal que essa especulação triplique. Mas isso em nada belisca a nossa confiança e a noção daquilo que sabemos que conseguimos fazer. Este tipo de competição nunca se quer que seja perfeita e, quanto mais cheia de dificuldades, melhor. É uma competição que só se ganha se a equipa tiver a capacidade de ir crescendo jogo após jogo. Como tal, não espero cenários perfeitos que impliquem as pessoas a deitarem-nos foguetes. O mais importante é ter os pés bem assentes no chão.

— Parece que há duas fações: quem está com o Cristiano e quem está com o resto da equipa, dando a entender que as duas partes não estão unidas. Como é que foram recebidas estas críticas e este extremismo depois do jogo com o Congo?

— Sinceramente, é-me completamente indiferente toda a especulação que se faça à volta desse tema porque, para mim para todos nós, isso nem sequer é um tema. Estamos todos juntos em busca de um sonho e temos noção de que as dificuldades existem e é nelas que vamos ver de que realmente somos feitos. Como tal, abraçamos isso como uma oportunidade de criar algo positivo. A minha mente não viaja para aí, não presto atenção quando isso aparece — e obviamente aparece à nossa frente através das redes sociais ou notícias. Acredito sinceramente que nenhum de nós dá importância, por isso nem sequer deve ser um assunto sobre o qual eu tenha de falar.

— Viu o jogo com o Congo a partir do banco e esteve várias vezes a falar com os seus companheiros de equipa durante as pausas. O que é preciso corrigir para o próximo jogo?

— Há tantos teóricos à volta do jogo a analisar e a chegar a conclusões perfeitas sobre o que correu mal e bem, que acho que as pessoas já se aperceberam do que não correu tão bem. Começámos o jogo muito bem, chegámos ao golo e sentiu-se uma energia positiva. A partir desse momento acabámos por relaxar e perder a disciplina no nosso posicionamento, o que nos tornou menos eficientes. Deixámos de meter o medo que precisamos de meter e o jogo entrou numa dinâmica estranha. Temos jogadores excecionais, que fazem a diferença com muito pouco espaço e tempo, por isso é essencial que estejam nas posições certas para criar dano. Em algum momento, se calhar por ser o primeiro jogo, pela emoção e por termos marcado muito cedo, perdemos um bocado essa disciplina. Temos consciência disso e só vejo coisas positivas daqui para a frente.

— Como é que o balneário se blinda perante tantas críticas da opinião pública? Críticas ao Cristiano Ronaldo, críticas a quem não lhe passa a bola e à exibição frente ao Congo...

— Pensava que me ias perguntar sobre a praia [risos]. Tal como disse antes, não é tema para nós. É insignificante, é ruído. Faz parte da competição, faz parte de jogar nesta situação e de estar rodeado pelos jogadores com quem estamos, mas não deixa de ser apenas ruído. Não é importante para nós.

— O selecionador disse, no final da primeira partida com o Congo, que era preciso fazer autocrítica. Pergunto-lhe se o grupo já fez essa autocrítica para melhorar no segundo jogo?

— Sim. Vai ao encontro do que acabei de dizer em relação à consciência do que aconteceu no jogo e do que nos fez ser menos perigosos. Está aí a conclusão dessa reflexão.

— Vou fazê-lo recuar um bocadinho no tempo. Um dos seus treinadores na formação do Estrela da Amadora disse uma vez sobre a criança Rúben Dias: «Ele nunca está a ver o jogo, ele não pagou o bilhete para ver o jogo; ele está lá para organizar, para ajudar, para amassar». Perante esta ideia, como é que foi para si ficar no banco neste primeiro jogo, o que sentiu e o que se via a fazer?

— Acabei por tomar a decisão que tinha de ser tomada na altura. Confesso que, no momento, me custou bastante, mas foi a decisão certa, não tenho dúvidas. Custou, porque obviamente quero sempre ajudar ao máximo a minha equipa e o nosso país a ser feliz nesta ocasião tão especial. Não foi fácil, mas espero poder ajudar o mais que puder daqui para a frente.

— Falou com o Tomás Araújo e o Renato Veiga antes do jogo? Que mensagem lhes passou, uma vez que foram os dois escolhidos para jogar na defesa-central?

— Por consequência de estarmos em estágio e partilharmos um objetivo comum, a comunicação acontece naturalmente, não apenas porque eles iam jogar, mas desde o princípio do estágio. Temos uma relação na qual os quatro defesas têm a missão de transmitir o máximo de confiança a todos os que estão à nossa frente. Não me focaria em nada específico que tenha dito antes do jogo, a não ser para serem eles próprios e não terem timidez nenhuma em fazer e dizer tudo o que tivessem de dizer. Mesmo que tivessem de dizer uma palavra mais dura a um companheiro que já tenha estatuto e muitos anos de seleção, que não tivessem vergonha de o fazer…

— Gostava de lhe perguntar sobre o arranque da seleção no jogo. Tivemos um início muito bom, 15 minutos de muita intensidade e futebol ofensivo, marcámos e depois acabámos por tirar o pé do acelerador, baixando as linhas e a intensidade. Isto acontece porquê? São ordens da equipa técnica ou são vocês que tentam, conscientemente, conservar a componente física?

— Já respondi a isso anteriormente. Tem a ver principalmente com o posicionamento, que é um pequeno detalhe que faz toda a diferença. Sendo o primeiro jogo da competição, marcámos cedo num jogo que sabíamos que ia ser muito difícil. Talvez isto tenha provocado um sentimento de abusar o controlo da posse de bola, sem sermos tão eficazes como procuramos ser. Há coisas no jogo que acontecem e são difíceis de explicar na altura e o momento de cada lance provoca reações nem sempre fáceis de controlar. Perdemos o momento de criar perigo e de os fazer sentirem-se ameaçados, pelo que o jogo entrou num clima estranho.

— Deixe-me pegar na questão da praia. Pelas minhas contas, em 96 horas os jogadores da seleção estiveram cerca de 3 horas publicamente na praia. Porque é que acha que surgiram tantas críticas em redor deste tema que, perante estes números, não devia ser um verdadeiro assunto, mas tomou esta dimensão?

— Nunca devia ter sido um tema e grande parte da culpa é vossa, por falta de informação das pessoas que leem e veem o que vocês partilham. É vosso dever informar as pessoas da maneira correta e não simplesmente criar um texto apetecível para cliques, provocando uma dinâmica de má energia que não existe. É perfeitamente normal o que nós fizemos; aliás, acho benéfico. Feito da maneira certa e nos tempos certos, só há benefícios a retirar. Tiro o meu chapéu ao mister, que não teve receio nenhum de o fazer mesmo sabendo que vocês iam reagir assim…

— Que sentimentos teve do lado de fora, sendo um líder tão vocal em campo e um jogador muito interventivo?

— Se há coisa que não nos faltou foi nervo. Foi simplesmente uma questão de respeitarmos as posições. Fora isso, não foi fácil estar de fora. É sempre o meu maior prazer estar lá dentro a ajudar, mas confio perfeitamente nos meus colegas e sei que todos têm capacidade para ajudar a performance de todos em campo.

— Falou há pouco que, quando a adversidade chega cedo, é bom para percebermos que estamos num Mundial, mas numa competição tão curta há muito pouca margem de erro. Os jogadores estão conscientes de que não há mais margem para falhar nesta fase de grupos?

— Sim.

— A seleção de Portugal jogou no passado contra o México, que se qualificou para este Mundial. Gostaríamos de saber a sua opinião sobre o nível que apresenta esta seleção e se a colocaria em algum ranking nesta competição.

— Em algum ranking? Bom, é uma equipa perigosa e com muita qualidade, mas não estou focado nisso agora porque temos os nossos jogos pela frente.

— Que hipóteses tem de seguir os passos do seu companheiro Bernardo Silva no Real Madrid?

— Portugal.

— Apesar de todas as críticas e de todo o ambiente que circula, muitos creem que são candidatos a ganhar este título. Depois de ter visto todas as equipas no primeiro jogo, vocês continuam a sentir-se candidatos a ganhar o Campeonato do Mundo?

— Esse é um sentimento que temos, mas mais adiante veremos se isso é uma realidade. Sabemos a qualidade e a capacidade que temos em casa, mas temos de transformar isso em performance no campo e chegar a um ponto em que sentimos que estamos a usar o nosso potencial máximo. Temos trabalho a fazer e muito a melhorar para chegar a esse ponto. Se sinto que podemos lá chegar? Sem dúvida.

— Ficaram surpreendidos pelo rendimento e resultado do jogo contra o Congo e o que devem melhorar para Portugal ser definitivamente um candidato?

— A análise que fizemos do jogo mostra que precisamos de respeitar as posições, porque no momento em que o fizermos, seremos muito perigosos. O caminho é crescer a cada jogo e continuar a melhorar.

— As primeiras perguntas foram muito focadas no Cristiano Ronaldo, o que é natural por ser um jogador de enorme dimensão. Acha positivo que o foco mude muito para um jogador, tirando o peso dos outros, ou acha mau por trazer uma repercussão negativa e um ambiente de maior pressão numa competição que já é emocionante por si só?

— Não acho nem positivo nem negativo. Cada um de nós, incluindo obviamente o Cristiano, está habituado a lidar com a pressão mediática do clube, da seleção, em contextos mundiais e europeus. Ou seja, nada de novo está a acontecer. Mesmo dentro de um momento um bocadinho mais frustrante, todos estamos em zonas de conforto em relação a saber lidar com a situação. Só vejo isso como uma boa oportunidade. Nunca vi um momento difícil como uma muralha que não podemos ultrapassar, mas sim como uma pedra sobre a qual podemos subir para ficar mais altos. Portanto, é simplesmente uma oportunidade de nos tornarmos melhores e mais fortes.

— Sente que esta é a seleção mais qualificada para poder levar Portugal a uma final do Campeonato do Mundo?

— Respondo da mesma maneira que respondi ao teu colega. Acho que é uma resposta que se vai dando com a competição. Não vale a pena acreditar numa coisa se não a sentires em campo. O verdadeiro sentimento de acreditar vem de ultrapassar as pequenas dificuldades que vão surgindo. Nós temos noção de quem somos e de todos os jogadores que temos, mas precisamos de encontrar a melhor maneira de todos funcionarem eficientemente para atingirmos o nível de performance em que sentimos: «Venham, porque vai ser difícil para vocês», tem de ser o mote. Não interessa apenas aquilo em que acreditamos; o que me interessa é melhorar a cada jogo e a cada treino, construindo esse sentimento dentro de nós. No momento em que o conseguirmos, poderemos erguer bem alta a confiança e remar contra seja o que for.

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