Técnico espanhol, atualmente no Levski Sofia, da Bulgária, recordou as três passagens por Portugal, ao serviço de Belenenses, Vitória de Setúbal e Marítimo

«Quando vi o sorteio e calhou o SC Braga, fiquei contente»

Julio Velázquez, treinador do Levski Sofia, recordou com «carinho» as três passagens em Portugal ao serviço do Belenenses, Vitória de Setúbal e Marítimo, lembrando também a eliminatória com os bracarenses na Europa no início da temporada

Julio Velázquez regressou a Portugal no início desta temporada (no final de julho) para defrontar o SC Braga ao serviço do Levski Sofia na fase de qualificação para a UEFA Europa League e, depois de um nulo na Bulgária, só foi derrotado no prolongamento, com um golo de bicicleta de Fran Navarro aos 104 minutos (0-1). Apesar do desfecho, o técnico espanhol gostou de ter voltado a competir em solo português e só teve coisas positivas para contar sobre tudo o que aconteceu no nosso país, elogiando também a qualidade do profissional luso.

- Relativamente às competições europeias, acredito que considere que teve um pouco de azar no sorteio. Passou o Hapoel, foi derrotado pelo SC Braga na Europa, depois passou o Sabah e perdeu com o AZ Alkmaar na Conference.

- Sim, o sorteio foi difícil. Se tivéssemos eliminado o Hapoel, que já tinha um orçamento muito superior ao nosso, jogaríamos contra o SC Braga. Se perdêssemos, iríamos para a Conference League contra o AEK Atenas, outra equipa com um orçamento muito elevado. Era tudo muito difícil, mas estivemos muito perto. Contra o SC Braga, em casa e fora, jogámos muito bem e podíamos perfeitamente ter passado a eliminatória. Tivemos uma oportunidade clara no final do jogo. A diferença de orçamento é grande, mas os jogadores demonstraram uma enorme vontade, identidade e coragem. A equipa não só competiu bem, como tentou sempre ganhar, desde o primeiro minuto. Para mim, isso é fundamental: ter personalidade, identidade e uma mentalidade forte. Não é só ganhar todos os dias, é saber competir, refletir sobre vitórias e derrotas. Isso é a verdadeira mentalidade vencedora e é por isso que sinto tanto orgulho dos meus jogadores.

- E como foi regressar a Portugal, mesmo que apenas por um ou dois dias?

- Sim, adoro Portugal. A minha mulher também adora o país. Tivemos três experiências muito boas a nível futebolístico, sempre com dificuldades. No Belenenses apanhámos a equipa em dificuldades e, graças a Deus, correu bem. No Vitória de Setúbal foi semelhante. No Marítimo apanhámos a equipa na última posição e conseguimos a manutenção. Ficámos sempre com a ideia de que Portugal é um país extraordinário, maravilhoso. Para mim, desde a minha primeira experiência, há cerca de dez épocas, o país evoluiu muito a nível do futebol. Entrou muito investimento estrangeiro, os orçamentos das equipas cresceram, as estruturas melhoraram bastante. Portugal tem profissionais de enorme valor: treinadores, diretores, presidentes, diretores desportivos, diretores-gerais, jornalistas que entendem de futebol e adeptos que vivem intensamente o futebol. É um país maravilhoso e isso tem ainda mais valor por não ser um país grande. A quantidade de jogadores e de profissionais do futebol que Portugal exporta é impressionante. As camadas jovens estão sempre a produzir talento. Fomos muito felizes em Lisboa, em Setúbal e na Madeira. Foram experiências muito positivas a nível profissional e pessoal. Voltar a Portugal é sempre especial. Já lá voltei muitas vezes com a família, mas voltar para competir é sempre muito bonito. Quando vi o sorteio e calhou o SC Braga, fiquei contente, porque sempre que se vai a Portugal sente-se carinho.

- Em Portugal, todas as equipas que treinou estavam em situações difíceis. Isso marcou o seu percurso?

- Sim, absolutamente. Foram contextos difíceis, mas foi uma escolha minha aceitar esses desafios. Tive outras oportunidades, outros convites, mas decidi assumir essas equipas em dificuldades. Das três experiências, aquela onde mais consegui implementar a nossa ideia e o nosso modelo de jogo foi no Belenenses, na época 2015/16. Depois, no Vitória de Setúbal, a memória é muito bonita. Conheci pessoas extraordinárias e fizemos jogos muito interessantes, mas foi durante o período da pandemia, algo que ficará sempre marcado. Na Madeira, numa ilha absolutamente maravilhosa, a pandemia ainda não estava totalmente resolvida. Foi uma situação de muita luta, porque apanhámos a equipa na última posição e não havia muito tempo para atingir o objetivo. Graças a Deus conseguimos a manutenção, mas foram sempre contextos de muita exigência, de resolver problemas constantes, de assumir equipas em dificuldade. Mas tudo isso faz parte do percurso, dá experiências, fortalece-nos como treinadores e como pessoas. São experiências que levamos para a vida toda e que nos ajudam, como dizias, a resolver outro tipo de problemas no futuro, com mais experiência em todos os sentidos.

- Está em aberto um regresso a Portugal ou já não considera essa possibilidade?

- Neste momento estou no Levski Sofia e estou muito feliz aqui. Sou extremamente grato ao proprietário, ao presidente, à direção e aos adeptos. Renovámos contrato, mais ou menos em outubro, algo pelo qual estou muito agradecido. Com o futebol, ao longo dos anos, aprende-se que o futebol é o dia a dia, sempre o dia a dia. Tanto quando se ganha como quando se perde, é pensar no presente e em como ser melhor amanhã. Se ganhas, não te podes acomodar e tens de tentar melhorar. Se perdes, tens de manter uma mentalidade positiva e saber que no dia seguinte o sol volta a nascer. É preciso evoluir continuamente. Nunca se sabe o que a vida nos reserva no futuro. Portugal é um país que adoro e no futebol nunca se pode dizer nunca. Não gosto de pensar no médio ou longo prazo, gosto de pensar no curto prazo. Neste momento sou muito feliz aqui, com os jogadores, com a equipa técnica, com os trabalhadores e com os adeptos, que nos acarinharam muito desde o início. Renovámos contrato, as coisas estão a ser bem feitas e isso, com o passar das épocas, é o principal objetivo: desfrutar, ser feliz no dia a dia. Agora estou 100% focado aqui.

- Está atento ao futebol português e procura contratar jogadores daqui? Tem um português no plantel, Aldair Neves, e outros que passaram em Portugal, como Rildo, emprestado pelo Santa Clara.

- Sim, acompanho muito. Vejo muitos jogos da Liga portuguesa, com certeza. Estou sempre atento, como já disse noutras ocasiões. Com o passar do tempo, não gosto da ideia de que seja o treinador a contratar jogadores. Acredito muito na sinergia entre a direção desportiva, o treinador e a equipa técnica. É fundamental haver comunicação permanente, respeito mútuo e uma ideia clara do modelo de jogo. Os perfis devem ser definidos em conjunto, mas os nomes, na minha opinião, devem partir do clube. Depois, o treinador e a equipa técnica avaliam as opções e escolhem aquelas que melhor se enquadram. O mais importante é haver uma sinergia forte entre todas as partes. Cada um tem o seu papel e as suas competências, e só com trabalho coletivo se consegue fazer um bom trabalho.