Julio Velázquez, treinador do Levski Sofia e ex-Belenenses, fala dos grandes jogadores que treinou na sua carreira, incluindo do médio na Udinese

Julio Velázquez: «Estrear-me na Serie A, ainda muito jovem, fica para toda a vida...»

Espanhol tornou-se um dos treinadores mais jovens de sempre a orientar um clube no principal escalão italiano e recorda de bom grado essa experiência, onde defrontou grandes clubes, mas que terminou demasiado cedo

Julio Velázquez, antigo treinador de Belenenses, Vitória de Setúbal e Marítimo, começou a sua carreira de treinador muito jovem, ao serviço do Villarreal B na LaLiga2, e tornou-se também um dos mais jovens técnicos de sempre a orientar um clube num dos cinco melhores campeonatos europeus: a Udinese na Serie A. O técnico espanhol abordou essa experiência como positiva, apesar de breve, e lembrou também uma situação curiosa com o campeão do mundo Rodrigo de Paul.

- Ao longo da carreira trabalhou com muitos jogadores de grande nível. Qual foi o melhor que já treinou?

- Tive a sorte de treinar muitos bons jogadores em diferentes momentos das suas carreiras. Um caso muito especial foi o Rodrigo De Paul, que mais tarde se tornou campeão do mundo com a Argentina. Treinei-o na Udinese numa fase difícil, porque ele queria sair e o clube estava perto de o vender. Falei muitas vezes com o presidente para que ele ficasse, acreditava muito nele. Foi uma época dura, mas eu dizia-lhe sempre que tinha a certeza de que ia chegar à seleção argentina. No final, conseguiu, e um dia apareceu no meu gabinete com a camisola da seleção. São momentos muito bonitos. Também pude treinar Marcos Senna, campeão europeu com Espanha, Gerard Moreno, Bruno Soriano, jogadores de altíssimo nível. Outro jogador que me marcou muito foi Borja Valero. Treinei-o apenas duas semanas numa pré-época, mas a forma como fazia jogar a equipa era absolutamente maravilhosa. Lembro-me também do Dani Ceballos, quando estava no Betis. Não tinha jogado muito na época anterior, vinha dos júniores, mas precisávamos de um médio e ele agarrou a oportunidade desde o primeiro dia, sempre com humildade e profissionalismo. Mais tarde foi para o Real Madrid. São jogadores que ficam sempre na memória, não só pela qualidade, mas pela relação que se cria com eles.

- Começou a sua carreira muito jovem. A sua primeira experiência como treinador principal foi no Villarreal. De que forma começar tão cedo o ajudou a chegar a este patamar?

- Fui treinador principal desde muito novo, praticamente desde os 17 anos, já ligado ao futebol profissional. A primeira experiência numa liga profissional foi no Villarreal B, na segunda liga espanhola. Desde pequeno tive sempre essa mentalidade, aliando os estudos e a formação académica com o objetivo de chegar ao futebol profissional. Graças a Deus aconteceu e depois nunca parámos, fomos acumulando experiências. Desde a primeira experiência fora, que foi em Portugal na época 2015/16, gostei muito de trabalhar em diferentes contextos e países. Isso dá-nos riqueza como pessoas e como profissionais: aprender novas línguas, conviver com culturas diferentes, trabalhar com direções diferentes e com plantéis de várias nacionalidades. Sempre fui ambicioso, mas os anos dão-nos equilíbrio, calma e capacidade de análise. O mais importante é focarmo-nos no curto prazo, porque o médio e longo prazo acabam por ser consequência do que fazemos no presente. Ser feliz no presente, trabalhar muito, ser exigente e ambicioso, mas sempre com equilíbrio.

- Teve uma passagem por Itália, na Udinese, onde enfrentou clubes como Milan, Nápoles e Juventus. Como foi essa experiência?

- Foi há bastante tempo, já passaram oito épocas. Foi uma experiência muito boa, de grande aprendizagem. Enfrentar equipas com essa história é sempre muito bonito. Lembro-me sempre do meu jogo de estreia no estádio do Parma, isso fica para toda a vida. Estrear-me na Serie A sendo ainda muito jovem são experiências que nos tornam melhores pessoas e melhores treinadores. O importante não é apenas acumular experiência, mas refletir sobre o que fazemos bem e sobre o que fazemos mal. Todos, na nossa profissão, fazemos coisas boas e coisas menos boas. É preciso ter a mentalidade de melhorar, evoluir, corrigir erros, ser um melhor profissional e uma melhor pessoa. Essa é a minha mentalidade: dar continuidade ao que se faz bem e melhorar aquilo em que sentimos que errámos. Nunca achar que fazemos tudo bem, porque isso, para mim, é das piores coisas na vida. É preciso ser autocrítico, mas ao mesmo tempo positivo, e ter sempre uma mentalidade de evolução permanente.

- Quais são os seus objetivos pessoais e também coletivos do clube para o futuro, e também que campeonato é que gostaria ainda de experimentar na sua carreira?

- Pronto, a nível pessoal, como dizia antes ao longo da entrevista, com o passar dos anos e dessas experiências, uma pessoa aprende que o mais importante é ser feliz no dia a dia, desfrutar da família, da profissão, do futebol e não olhar muito para o médio e longo prazo. Por isso, ser feliz, ser feliz a nível pessoal, ter saúde, que isso é o mais importante, e o resto vem depois. No futebol, ainda me considero novo, mas acumulei muitas experiências. Poder continuar a dedicar‑me ao que adoro, ao que gosto... neste momento sinto‑me muito feliz no clube onde estou e não peço muito mais. Olho para a vida dia a dia. Dia a dia, porque as experiências pessoais e profissionais ensinam‑te isto, pelo menos a mim, na minha experiência, que muitas vezes, na minha vida, olhei demasiado para o médio e longo prazo e isso leva‑te por vezes a precipitações, a fazer as coisas ou a escolher de forma precipitada o que pode não ser o certo, por pensar ou refletir em excesso no médio e longo prazo. Acredito muito mais em ter esse ponto de tranquilidade, de calma, na vontade permanente de melhorar no dia a dia, e o que vier será consequência de um trabalho bem feito, do equilíbrio pessoal e profissional, de ser feliz, sempre com muita paixão, muita energia, muita ambição, tentando sempre melhorar, evoluir, claro, mas não olho para 'gostaria mais deste campeonato, gostaria mais daquele outro', objetivos assim não. O objetivo é ser feliz, poder continuar a trabalhar no que trabalho, que para mim não é um trabalho, é a minha paixão, e considero‑me um privilegiado. Depois, é desfrutar do que se tem e, neste momento, o que tenho é poder ser treinador do Levski Sofia, onde me sinto realizado, onde estou a gostar muito desse processo, e a vida no futuro, o que tiver de acontecer, acontecerá. Mas o mais importante é focar‑se 100% no presente e tentar fazer as coisas com responsabilidade, com profissionalismo e bem feitas.​

- E o objetivo coletivo?

- O objetivo coletivo para esta época é tentar ser, continuar a ser, uma equipa com identidade, uma equipa reconhecível, uma equipa que tenha clara a ideia e o modelo de jogo, e uma ideia de equipa que tente ir sempre para o relvado para ganhar. A partir daí, algumas vezes consegue‑se alcançar a vitória, outras vezes não, mas sempre com essa vontade, com uma mentalidade ganhadora. E, na vitória, não parar, não se conformar. Refletir sobre porque é que se ganhou e tentar melhorar para voltar a ganhar. E, na derrota, não se ir abaixo, ser positivo, mas refletir sobre porque é que se perdeu e fazer as coisas que é preciso fazer de outra maneira para tentar ganhar, sempre com uma mentalidade positiva, mas também muito exigente connosco mesmos e com todas as pessoas, tentando nunca parar, tentando melhorar, evoluir. Aquilo que se conseguir no final da época, se se atingir este objetivo ou outro, será a consequência do trabalho bem feito durante o processo. Por isso, não olho também para o que vai acontecer em maio, em junho. Olho para o dia a dia, porque, se o dia a dia não tiver qualidade, é impossível ganhar coisas.