«Ninguém nos pode tirar a ilusão»: Velázquez procura quebrar a hegemonia de 14 anos do Ludogorets
Julio Velázquez, antigo treinador de Belenenses, Vitória de Setúbal e Marítimo, chegou ao Levski Sofia em janeiro de 2025 e, um ano depois, está no primeiro lugar do campeonato búlgaro. O técnico espanhol procura acabar com a hegemonia de 14 anos do Ludogorets e, apesar de quebrado um registo de 17 anos no clube, ainda há muito trabalho a fazer na segunda metade da temporada. Na Bulgária, cumpre-se a paragem de inverno e o primeiro jogo oficial de 2026 até pode dar o primeiro título na carreira do jovem treinador de 44 anos.
- Já passou um ano desde a sua chegada ao futebol búlgaro. Como surgiu essa possibilidade, depois de muitos anos a trabalhar sobretudo em Espanha e em Portugal?
- Chegámos na época passada, no início de janeiro. Foi um convite que analisámos bem, refletimos muito sobre a possibilidade. A equipa estava numa situação difícil, em quarto ou quinto lugar, muito longe da primeira posição, ocupada pelo Ludogorets. Mas gostámos muito da conversa que tivemos com o Presidente, com o proprietário, com o diretor, da história do clube e da história dos adeptos desta equipa. Rapidamente acreditámos que o plantel tinha bases e qualidade suficientes para implementar a nossa ideia de jogo, o nosso modelo. Chegámos e foi tudo um pouco mais fácil, porque tivemos três semanas para fazer o estágio de preparação [de inverno]. O primeiro jogo foi contra o Ludogorets, ganhámos em casa e isso ajuda sempre a que tudo flua melhor. Desde o início tivemos bons resultados. Em termos de jogo, fomos crescendo ao longo da época e terminámos essa fase muito bem. Terminámos a época em segundo lugar, algo que não acontecia há nove anos, e conseguimos o apuramento para a Liga Europa.
- Por isso, tudo correu extraordinariamente bem. Nesta época jogámos as eliminatórias da Liga Europa e depois da Conference League. Foi muito positivo para a história do clube e para o crescimento que tivemos. Chegámos ao último jogo, o oitavo, muito perto de entrar na fase de grupos. É verdade que no último jogo não estivemos bem, mas o percurso global foi muito positivo. Jogámos também contra o SC Braga e estivemos perto de seguir em frente. Fizemos um percurso bonito na Europa. No campeonato, desde o início, tudo tem corrido muito bem. Sabíamos da dificuldade, porque a diferença de investimento em relação ao Ludogorets e ao CSKA Sofia é muito grande. Os jogadores entraram desde o início numa dinâmica muito boa, conciliando competições europeias e o campeonato, com muitas mudanças de um jogo para o outro, todos a sentirem-se importantes. Só posso sentir muito orgulho deles, porque estão a fazer um trabalho fantástico. Neste momento lideramos o campeonato, continuamos na Taça e vamos disputar a final da Supertaça a 3 de fevereiro contra o Ludogorets. Chegámos à pausa de inverno na primeira posição, algo que não acontecia há 17 temporadas. Até agora, a nível futebolístico, tudo tem corrido imensamente bem. A nível pessoal também estou muito feliz, porque tenho a minha família comigo e estão bem adaptados. É mais um passo na carreira e mais experiências acumuladas. Quando as coisas correm bem, é motivo de orgulho e felicidade.
- Qual foi o maior desafio a nível pessoal e profissional nesta mudança para a Bulgária? E como é o dia a dia no clube?
- Há muitas nacionalidades diferentes. Temos muitos brasileiros, claro, búlgaros, mas jogadores de várias nacionalidades. No dia a dia comunicamos sobretudo em inglês e português, como já fiz em outros contextos. Do meu ponto de vista, isso é muito positivo para evoluir a nível futebolístico e pessoal. No geral, está a ser tudo muito positivo. Sempre que se chega a um país novo é preciso demonstrar valor para conquistar a confiança das pessoas. Isso acontece em qualquer país e é um processo que tem sempre alguma dificuldade. Os resultados ajudam a aumentar a confiança e a acreditar mais rapidamente na ideia de jogo, no modelo e na equipa técnica. Felizmente, desde o início tudo correu muito bem. Temos uma relação muito boa com os jogadores, com a direção e com os adeptos, que nos apoiam de forma incondicional. A história e a paixão dos adeptos deste clube são muito interessantes e têm sido uma experiência muito positiva. Mas o futebol é dia a dia, sempre dia a dia.
- Qual foi o maior choque cultural ao chegar à Bulgária? Algo que não esperava?
- Culturalmente, o facto de ainda se poder fumar em alguns locais, como restaurantes. Isso causa algum choque no início, porque em Espanha, Portugal ou Países Baixos já não se vive essa realidade. No início estranha-se, mas depois acaba por se normalizar e faz parte do processo.
- O Levski Sofia é um clube com bastante história na Bulgária, com 55 troféus oficiais, foi 26 vezes campeão. Esse foi também um aspeto aliciante para aceitar o desafio e como lida com a pressão de 'ganhar, ganhar e ganhar' que não acontecia nos outros clubes pelos quais passou?
- Sim, mas não sinto a pressão de 'ganhar, ganhar, ganhar', porque este clube não vence o campeonato há 16 épocas. Essa pressão está mais do lado do Ludogorets. Treino há 29 anos, desde crianças de sete anos, em diferentes países e ligas. Sinto muito orgulho por poder dedicar-me à minha paixão. No futebol profissional, muitas vezes treinei equipas em dificuldades, com o objetivo de manutenção, ou já durante a época em último ou penúltimo lugar. Um dos fatores que me atraiu foi precisamente poder lutar mais por ganhar jogos do que apenas por evitar derrotas. Isso é um grande aliciante para mim. Depois de tantas épocas a lutar pela permanência, também é bom poder competir por objetivos mais ambiciosos. Aqui encontrámos uma equipa com dificuldades, longe do primeiro lugar, que não terminava em segundo há nove épocas e que não vence o campeonato há 16. Mas é um clube com enorme história e uma massa adepta impressionante. Isso permite criar uma sinergia muito bonita e implementar uma ideia de jogo clara. A equipa tem evoluído muito, joga de forma proativa, positiva, procurando constantemente a baliza adversária, jogando no meio-campo ofensivo, pressionando alto para recuperar rapidamente a bola e voltar a atacar. É assim que eu vejo o futebol. Já implementei esta ideia no Belenenses, no Vitória de Setúbal e noutros contextos, embora nem sempre seja possível devido às dificuldades. Aqui conseguimos fazê-lo desde o início e isso é motivo de orgulho. Fomos de menos a mais e isso é algo que dá orgulho. A equipa cresceu, consolidou a ideia e sente-se confortável a jogar dessa forma.
- Terminou o ano no topo da liga com mais 7 pontos do que o Ludogorets. Esperava um início tão positivo?
- Sinceramente, no início não foi fácil, porque jogar quinta-feira, domingo, quinta-feira, domingo, de forma consecutiva, é muito exigente. Há momentos em que as coisas correm bem e outros em que não. Desde o início da época tomámos uma decisão clara: apostar em todo o plantel. Jogava um onze à quinta-feira e ao domingo podia ser um onze diferente, com oito ou nove alterações. Caso contrário, seria impossível manter o ritmo e a dinâmica competitiva. Isso fez com que todos os jogadores se sentissem parte do processo e permitiu-nos fazer um percurso muito bonito nas competições europeias. Claro que gostaríamos de ter chegado à fase de grupos, mas também temos consciência da dificuldade. Ainda assim, o percurso foi muito positivo. No campeonato também conseguimos manter a dinâmica. Antes do início da pré-época havia dúvidas se seríamos capazes de atingir os objetivos com um volume tão grande de jogos. Sinto muito orgulho do plantel, dos jogadores e de toda a equipa técnica, porque graças a eles conseguimos estar onde estamos hoje, sabendo das dificuldades que isso implica no futebol profissional.
- Em segundo lugar está o Ludogorets, que é campeão há 14 vezes consecutivas! Ainda há muito trabalho a fazer, mas sente que esta é a grande oportunidade de quebrar esta hegemonia? A última vez que o Levski Sofia foi campeão foi em 2009.
- Sendo totalmente sincero, é muito difícil. O orçamento deles é provavelmente seis ou sete vezes superior ao nosso. O CSKA Sofia também tem um orçamento muito elevado neste momento. Temos de ser conscientes de que já jogámos mais de metade da época, mas ainda falta muito, porque depois da fase regular há o play-off. Agora vem o mercado de inverno, o CSKA Sofia já se reforçou muito bem, investiu bastante, e o Ludogorets também já começou a investir. Vamos ver como ficam as equipas depois do mercado. Eu acredito muito nos jogadores que temos. Os níveis de confiança são altos, a ideia de jogo é muito clara. Vai ser muito difícil, mas temos de viver isto dia a dia, jogo a jogo, e ver até onde somos capazes de chegar. O normal é que seja difícil, porque em 16 épocas este clube ganhou apenas uma Taça, enquanto o Ludogorets ganhou 14 campeonatos e outros títulos, mas ninguém nos pode tirar aquilo que já fizemos. Temos de continuar a trabalhar, a acreditar e a manter esta atmosfera positiva no balneário, no dia a dia, tentando sempre melhorar e evoluir, porque é sempre possível evoluir.
- Estreou-se precisamente com o Ludogorets e venceu. Nos outros três jogos com eles empatou, portanto, está imbatível com o campeão. Como recorda esse momento?
- A estreia eu vou recordar para toda a vida. Dois dias antes de a conquistar, infelizmente faleceu um dos melhores amigos da minha vida, que era como um irmão para mim. Isso ficará marcado para sempre. Tenho a certeza de que ele nos ajudou a ganhar esse primeiro jogo. É algo que ficará comigo para sempre. A partir daí, todos os jogos contra o Ludogorets foram muito competitivos. O último, em casa, era normal termos ganho. Tivemos um livre no último minuto que o guarda-redes defendeu por muito pouco. Fizemos um grande jogo, sobretudo na primeira parte. Sinto muito orgulho porque a equipa tem identidade. Uma identidade positiva, de tentar ganhar sempre, jogando em casa, fora ou na Europa, mesmo contra equipas com um orçamento muito superior ao nosso. O SC Braga é um exemplo claro disso. Jogámos da mesma forma em casa e fora, contra todas as equipas que enfrentámos. Contra o AZ Alkmaar, por exemplo, estivemos muito perto. Pelo percurso nos oito jogos, merecíamos ter entrado na fase de grupos. Mas ficamos com a aprendizagem, com a experiência e com o lado positivo. Gosto de ter esta mentalidade positiva, sempre com a ideia de evoluir e melhorar continuamente.
- Ainda estão na Taça e há a Supertaça em fevereiro contra o Ludogorets. Quão especial seria conquistar o seu primeiro título como treinador?
- Não será nada fácil, mas ninguém nos pode tirar a ilusão. Em 16 anos o clube ganhou apenas um título. A ambição está intacta. Não temos nada a perder e vamos tentar fazer tudo para ganhar. Seria algo incrível, maravilhoso, mas isso constrói-se com trabalho, humildade e disponibilidade. Ainda falta muito. Não sei como viveríamos isso, mas ganhar é sempre bonito, e ganhar um título é ainda mais especial. Com o passar dos anos e das experiências, não gosto de gastar muita energia no médio prazo. O nosso foco agora é o curto prazo: o dia a dia, o estágio na Turquia, evoluir como equipa e individualmente, ser sólidos dentro e fora de campo, manter a positividade, a alegria e a paixão. Quando chega cada jogo, como temos feito até agora, mostrar quem somos e tentar sempre ganhar.