Preparem-se que o futuro está a chegar
Ofutebol vai-se afirmando como um dos negócios mais lucrativos do século XXI. Serão, aliás, muito raros os setores da vida económica mundial, em que seja possível um retorno tão generoso de investimentos avultados. Tal como acontece, naturalmente, nas leis da oferta e da procura, houve, recentemente, um ponto fulcral de crescimento do valor do futebol: o Mundial do Catar. De repente, um pequeno país que não chega a 3 milhões de habitantes, sendo que apenas um pouco mais de dez por cento são cidadãos cataris, chamou a atenção do mundo e ofereceu uma imagem bem mais simpática de um Estado que era, sobretudo, conhecido pela fabulosa riqueza das suas fontes naturais de petróleo e de gás e pelo preocupante défice na área dos direitos humanos.
Muito antes de se aventurar na organização de um Campeonato do Mundo de futebol, para o qual investiu um valor estratosférico, que seduziu irresistivelmente a FIFA, o Estado do Catar tinha tido a experiência da compra do PSG, colocando na presidência um bom amigo e leal da família real, Nasser Al-Khelaifi. Em dez anos de presidência, Al-Khelaifi investiu cerca de mil e trezentos milhões de dólares no clube parisiense, um clube sem grande história desportiva e, sobretudo, sem uma grande sustentação de adeptos. A experiência foi considerada como muito interessante pelo Estado do Catar. Não tanto, obviamente, pelas conquistas desportivas que tiveram, uma limitada expressão interna no futebol francês, mas pelos ganhos de influência, de imagem, de abertura da economia do país para outras áreas de negócio.
Cerimónia de abertura do Mundial do Catar
O Mundial tornou-se, pois, um objetivo essencial do Catar e, com ele, o pequeno país suscitou uma crise de ciúme da Arábia Saudita que não tardou em responder com investimentos vultuosos no futebol do país, uma política súbita e determinada, da qual beneficiou, como se sabe, Cristiano Ronaldo e, agora, Benzema.
Trata-se de uma corrida que ainda agora começou. Como se sabe, existe uma proposta firme de compra do Manchester United por uma empresa catari e, admite-se que, muito em breve, alguns dos melhores clubes de futebol do mundo, principalmente da Premier League, passem de mão, despertando, ainda, maior interesse nos grandes colossos financeiros que encontrarão, no futebol, uma nova forma, ainda por cima legal, de investir com um retorno garantido, desde que não prescindam de uma gestão competente.
Seria impensável que os responsáveis dos principais clubes portugueses, a começar pelos chamados grandes clubes, estivessem tão fora da realidade do que se passa no mundo que não entendessem que este é um fenómeno que não pode deixar de chegar à ponta mais ocidental da Europa, onde um pouco numeroso, mas aventureiro povo faz do futebol o seu principal alimento espiritual.
A tradição, bem o sei, ainda é o que era, mas não por muito mais tempo. Os clubes portugueses, em especial pela sua capacidade de produzir bons jogadores em número assinalável, em breve serão tentados pelo investimento estrangeiro. Já aconteceu no Benfica com o americano John Textor, que acabou por comprar o Lyon e o Botafogo, mas que apareceu na Luz num momento particularmente sensível e, por isso, foi, apenas, um americano na hora e no lugar errado. Mas outros irão aparecer no lugar e na hora certa. Talvez no Sporting, que, na situação aflitiva em que vive, não vê como possa não perder o comboio dos melhores. Talvez no Benfica, o clube obviamente mais tentador. Talvez no Porto, numa era pós Pinto da Costa. Mas que o futuro está a chegar, disso não temos dúvidas.
DENTRO DA ÁREA – A ARBITRAGEM EM MUDANÇAS
A arbitragem do futebol português está em mudança estrutural. Como sempre acontece, formam-se comissões e estuda-se o problema. Não vejo grande mal no procedimento, mas também não consigo deixar de ter uma sensação de dúvida sobre a competência e a celeridade das decisões. Se um local para o aeroporto de Lisboa leva mais de vinte anos a estudar, um nova estrutura para uma arbitragem independente não leva menos de cinco. Sobretudo se vingar uma visão de interesse particular na continuidade de postos e de lugares.
FORA DA ÁREA – PORTUGAL INTEIRO REZA PELO PAPA
O Papa tem 86 anos e foi operado. Parece que tudo correu bem. O Homem, além de simpático, intelectualmente saudável e credível, é rijo. No entanto, há sombras que se projetam nas Jornadas Mundiais da Juventude. Dizem que se o Papa não puder vir, não há Jornadas. É quanto basta para o país inteiro, crente e não crente, reze pela saúde do Papa. Porque Sua Santidade, vir, ou não vir, não é apenas um aborrecimento para milhões de jovens, mas um inconveniente de muitos milhões de euros que já estavam a ser contados como certos.