Passou por Portugal e foi contratado por Mourinho: «Não sabe perder»
Aos 33 anos, e após uma carreira de 16 anos marcada por títulos, uma transferência de sonho para o Chelsea e um calvário de lesões, Marco van Ginkel anunciou o fim da sua carreira como futebolista profissional. O antigo médio internacional neerlandês, que representou o Boavista na segunda metade da temporada transata, confessou ter temido pelo futuro.
A decisão de pendurar as chuteiras foi anunciada na semana passada, mas já estava a ser ponderada há algum tempo. O último jogo oficial do centrocampista foi a 17 de maio de 2025, ao serviço das panteras, contra o Arouca. «Para mim, já se arrastava há algum tempo», revelou o ex-jogador em entrevista à ESPN. «Quis esperar pelo período de inverno, mas já não havia muito interesse.»
Depois de no verão ter recusado uma proposta da Indonésia, a decisão final foi tomada em fevereiro. «Foi uma sensação estranha. De certa forma, especial: dediquei-me ao futebol desde tenra idade», afirmou, admitindo que a adaptação à nova vida ainda é um desafio. «Sinto falta de estar em campo, do dia a dia com o grupo. A vida em função do fim de semana. Agora tenho de encontrar o meu caminho, fazendo outras coisas de que gosto.»
A carreira de Van Ginkel, que começou no Vitesse, foi pautada por momentos altos, como a estreia profissional, a chamada à seleção dos Países Baixos e os dois campeonatos conquistados ao serviço do PSV. «Dessas memórias nunca me esquecerei», garante.
A mudança para Inglaterra
O seu talento levou-o a uma transferência milionária para o Chelsea, onde foi treinado por José Mourinho, em 2013/14. «É um homem especial, muito fanático. Direto. Não sabe perder. Mas também conseguia estar muito calmo entre os jogadores e, de vez em quando, podia passar-se», recordou Van Ginkel, que em Londres partilhou o balneário com estrelas como Kevin De Bruyne, Mohamed Salah, Romelu Lukaku, Frank Lampard e Didier Drogba. De todos, foi John Terry quem mais o marcou: «Ele era o verdadeiro líder. O Lampard é treinador agora, o Terry não. Teria esperado o contrário.»
Contudo, o infortúnio bateu à porta logo após a sua chegada a Inglaterra, com uma rotura do ligamento cruzado anterior. «Essa foi uma linha vermelha na minha carreira. Foi difícil, mas molda-nos», admitiu. O que se seguiu foi um longo período de provação. Após empréstimos ao Milan e Stoke City, regressou aos Países Baixos para representar o PSV, ainda com contrato com o Chelsea.
Em 2018, descobriu-se que tinha jogado durante um longo período sem o ligamento cruzado anterior. A cirurgia de reconstrução, em julho desse ano foi complicada por uma infeção grave e rara no joelho, que o obrigou a novas intervenções cirúrgicas e o manteve afastado dos relvados por 957 dias, entre junho de 2018 e janeiro de 2021.
«Houve momentos em que estive mesmo no fundo. Tento nunca o mostrar e seguir sempre em frente, mas tive momentos em que pensei: o futebol não vai acontecer mais para mim.»
Ainda assim, mesmo sem o ligamento, viveu um dos momentos mais especiais da carreira, ao conquistar o título pelo PSV na última jornada. «São esses os momentos para os quais olhamos agora e pensamos: isto foi muito especial. Gostaria de ter vivido mais alguns.»
Em 2023, regressou ao Vitesse, o seu clube de formação, mas já não era o mesmo. «Já não era o jogador de antigamente. Aquele joelho sofreu bastante. Em velocidade máxima, faltam-te dois ou três quilómetros por hora», explicou, antes da derradeira aventura em Portugal, ao serviço do Boavista, onde encerrou a carreira. A sensação de potencial por cumprir permanece. «A minha ascensão foi muito rápida. Do Vitesse para o topo absoluto. Chegares ao topo é uma coisa, manteres-te lá é outra. Adaptei-me rapidamente a esse nível. Fisicamente, já estava muito avançado», concluiu.
Marco van Ginkel, ao refletir sobre a sua carreira, expressou um sentimento de injustiça, embora se sinta em paz com o seu percurso de 16 anos, durante o qual conquistou vários troféus: «Mentalmente, também não havia muitos que estivessem ao meu nível»
Questionado sobre o que poderia ter sido, Van Ginkel admite que a dúvida persistirá. «Nunca saberemos», respondeu. «Gostaria de o ter feito mais uma vez. Parece injusto, mas tive uma carreira de dezasseis anos e ganhei muitos prémios. Ficará sempre a remoer algures, mas estou em paz com isso.»
Quanto ao futuro, os seus planos permanecem em aberto, mas o futebol continua a ser uma forte possibilidade. «Acho que posso ser valioso dentro de uma organização de futebol. A possibilidade de acompanhar um clube está nos meus planos. Talvez ainda venham a ouvir falar sobre isso», concluiu.
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