Mundial
Mundial
Os anjos de Palm Beach que resgatam toneladas de comida para alimentar as ruas
PALM BEACH GARDENS — O desporto tem o poder inegável de paralisar nações, mas há realidades que não se compadecem com o calendário da FIFA ou com as táticas de Roberto Martínez. A poucos quilómetros do hotel onde Cristiano Ronaldo e companhia descansam, a vida real reclama o seu espaço nas ruas do condado de Palm Beach. Foi aí que a equipa de reportagem d’A BOLA se deparou com um fenómeno comovente de solidariedade pura.
Trata-se de uma rede comunitária, movida pela fé e pelo altruísmo, que diariamente faz algo semelhante ao que o projeto ReFood tanto celebrizou em Portugal: resgatar comida perfeitamente consumível que os estabelecimentos comerciais iam deitar fora e distribuí-la a quem mais precisa. E não só.
A operação logística assemelha-se a uma engrenagem de alta precisão, mas o combustível aqui é estritamente humano. A organização dá pelo nome de Palm Beach Harvest e a sua carrinha tornou-se um símbolo de esperança para milhares de cidadãos da região.
O processo repete-se sete dias por semana, sem falhas nem tréguas. Logo pela manhã, as equipas de voluntários fazem-se à estrada para recolher os excedentes de uma vasta rede com mais de 300 doadores locais.
Na lista encontram-se desde cadeias de comida rápida como a Chick-fil-A ou postos de conveniência como a Wawa, até gigantes da restauração e supermercados como o Olive Garden, Red Lobster, Trader Joe's ou Whole Foods Market.
«Para nós, não importa se as pessoas são pobres ou não, nós não fazemos essa distinção. O que importa é que a comida não vá parar ao lixo», explicava-nos um dos voluntários, enquanto descarregava caixas pesadas repletas de bananas, pão e vegetais frescos.
O desperdício alimentar, num país moldado pelo consumo XL, ganha contornos dramáticos se não existirem estes travões comunitários. E a carrinha serve como elo de ligação entre a abundância descartada e a carência silenciosa, abastecendo não só bairros desfavorecidos, mas também campos de férias infantis, igrejas e várias organizações de apoio social.
A grande obreira deste milagre diário é Deborah Morgan, a CEO da Palm Beach Harvest, carinhosamente apontada pelas suas voluntárias como a alma e o coração de toda a estrutura. Com camisolas cor de laranja onde se lê orgulhosamente o lema «Friends Feeding Friends» (Amigos a Alimentar Amigos), estas mulheres trabalham arduamente sob o sol escaldante da Flórida com uma alegria contagiante, dançando e sorrindo a cada caixa que preenchem.
«Nós trabalhamos muito todos os dias, mas fazêmo-lo com muito amor. É um prazer enorme poder ajudar a nossa comunidade», partilhou uma das dedicadas voluntárias, de sorriso rasgado e olhar brilhante, à nossa câmara.
Quando lhes dissemos que vínhamos de Portugal para cobrir o Mundial e que este conceito de resgatar comida também existia no nosso País, a reação foi uma explosão de entusiasmo e aplausos. A ideia de que a solidariedade não tem fronteiras e de que o modelo se replica além-Atlântico encheu de orgulho estas operárias do bem.
No império do espetáculo e do dinheiro, onde o futebol arrasta milhões em publicidade, são estes anjos na terra que marcam os golos mais decisivos. Portugal procura a glória desportiva nos relvados norte-americanos, mas nas ruas de Palm Beach, a vitória da dignidade humana já está garantida graças a esta carrinha da esperança.