Mundial
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Exemplo Ronaldo, pai conselheiro e faca nos dentes: tudo o que disse Francisco Conceição
Francisco Conceição, extremo da Seleção Nacional, falou aos jornalistas em conferência de Imprensa, na antevéspera do jogo com o Uzbequistão, da 2.ª jornada do Grupo K do Mundial.
— Contra a RD Congo vimos muitos passes para trás e até temos o top 3 dos jogadores com mais passes feitos para trás. Portugal faz 783 passes para trás. Gostava de perguntar-lhe, sendo o Francisco um jogador que gosta de receber a bola, de espalhar as brasas como é habitual, se esta estratégia da seleção se prejudica o futebol ofensivo da Seleção e o seu futebol, e se concorda com essa estratégia.
— Sim, acho que essa não era a estratégia que nós tínhamos preparada para este jogo. Acho que o nosso futebol é sempre muito ofensivo, aliás, acho que temos jogadores para fazer esse tipo de futebol. Acho que não executámos bem o plano que tínhamos para o jogo e cabe-nos a nós saber que a forma que jogámos não foi a melhor, já sabemos o que é que errámos e vamos tentar corrigir isso para o próximo jogo.
— O presidente de um clube que já representaste, André Villas-Boas, falou da Seleção, elogiou alguns aspectos, mas também a deixou algumas críticas e a dizer que se calhar é preciso repensar ir menos à praia. Como vê o presidente do FC Porto a deixar palavras destas durante uma grande competição?
— Não tenho que comentar as palavras do presidente do FC Porto. Lá está, é a opinião dele, não me cabe a mim comentar isso.
— Sentem que, depois do jogo que tiveram, do empate e em função das críticas que foram recebendo, que esta equipa está neste momento sem qualquer margem de erro?
— Sim, claro. Acho que num Mundial o erro tem de ser mínimo. Não conseguimos ganhar o primeiro jogo. Acho que estamos com a faca nos dentes porque temos de ganhar este segundo jogo obrigatoriamente, também para fazer jus àquilo que é a nossa qualidade. Temos qualidade para ganhar o próximo jogo, vamos tentar demonstrar isso dentro de campo, melhorar o que temos a melhorar que não correu tão bem no primeiro jogo e, se estivermos todos com a atitude que tivemos no primeiro jogo e melhorarmos a qualidade, acho que conseguimos ganhar.
— O Uzbequistão não teve um único toque dentro da área adversária na primeira parte na primeira jornada do Mundial. Mas é uma equipa que defende muito baixo, muito coesa, e Portugal aparece muito bem na área, mas tem dificuldade em criar mais situações. É uma situação que têm trabalhado agora nos treinos?
— Sim, sem dúvida. Isso é um dos aspetos que temos vindo a trabalhar: a chegada à área, criar oportunidades de golo que não conseguimos como normalmente costumamos fazer neste primeiro jogo. E o Usbequistão é uma equipa que, com uma linha de cinco, com um treinador italiano que eu também conheço, acho que fazem da parte defensiva o seu elo mais forte. E a nós cabe-nos criar oportunidades, chegar à área, rematar à baliza, tentar fazer o máximo possível para desestabilizar aquilo que é a defesa do Usbequistão.
— Qual a tua leitura ideal deste Mundial tanto no plano pessoal como coletivo?
— Coletivamente é chegarmos o mais longe possível. Temos qualidade para isso, mas temos que demonstrá-lo dentro de campo. Não adianta pensar mais à frente se não conseguirmos ganhar estes jogos da fase de grupos. Individualmente, sou sempre mais um para ajudar. Quer jogue 10 minutos, quer jogue 90, estou aqui para ajudar a Seleção ao máximo possível. Estou a realizar um sonho que é representar o meu país na maior competição do mundo e por isso podem esperar de mim o máximo, quer seja em 10 minutos ou em 90.
— No último jogo com a RD Congo, entrou para a história o Francisco e o seu pai, a primeira dupla portuguesa, pai e filho, a jogar em Mundiais. O Mundial em que participou o seu pai foi em 2002, mas ainda não tinha nascido. Que memórias é que o seu pai conta desse Mundial? Também era por isso que acalentava um sonho tão grande em estar numa fase final de um Mundial?
— Sim, acho que esse Mundial, acho que não correu assim tão bem, foram eliminados na fase de grupos [risos]. Mas claro que é sempre um orgulho para mim saber que o meu pai conseguiu jogar um Mundial e agora, passado 24 anos, estou aqui também eu. Sem dúvida que é um orgulho, mas espero que a história seja diferente. Contou que eles na altura também iam com muita ambição, com muita... tinham uma geração muito boa também e o objetivo também era esse de chegar o mais longe possível e que, lá está, um pequeno erro num Mundial pode deitar tudo a perder e é isso que nós não queremos fazer.
— Muito se tem falado sobre Cristiano Ronaldo, sobre a influência do capitão nesta Seleção. Sendo o Francisco Conceição considerado um dos maiores desequilibradores, o «espalha-brasas», como diz o selecionador, vocês em campo sentem uma tentação constante de procurar sempre o Cristiano Ronaldo para marcar e resolver, mesmo que isso em alguns momentos possa não ser a melhor opção?
— Não, Cristiano tem a sua qualidade de fazer golos, não há ninguém como ele nesse capítulo. E nós não temos essa obrigação, essa necessidade de lhe passar a bola. Eu, por exemplo, falo por mim, passo a bola para quem acho que naquele momento está mais bem desmarcado. Não é que tenha tempo para pensar qual é a cara do colega que está ao meu lado. Não, acho que fazemos tudo por instinto, fazemos tudo... são milésimos de segundo, não há tempo para isso. O Cristiano está aqui para ajudar como qualquer outro jogador da Seleção.
— Os jogadores reconhecem que a equipa não esteve bem no jogo com a RD Congo. Por outro lado, são todos jogadores de elite, habituados à pressão das grandes competições. Mas normalmente também demonstram que as críticas lhes estão a fazer algum incómodo. Não seria mais normal que desfrutassem bem de estar neste Campeonato do Mundo e ser um pouco anormal essa tensão que muitas vezes aqui fazem transparecer, que até podem ser reais, mas que transparecem aqui na sala de imprensa?
— Como deve imaginar, acho que, não correndo bem, somos os primeiros a sentir isso mesmo. Acho que não há ninguém pior do que nós quando as coisas não correm bem. Acho que é mais isso, porque sentimos na pele que o nosso trabalho não foi feito da melhor forma. Mas a pressão, como disse, acho que está presente. Acho que todos nós estamos habituados à pressão, jogamos todos em grandes clubes e a pressão vai sempre existir. Estamos habituados a isso, sabemos que não correndo bem vai sempre haver mais pressão, mais críticas. Cabe-nos a nós a melhor forma de dar resposta no próximo jogo, mostrar qualidade, ganhar e seguir o nosso caminho.
— A expressão do «espalha-brasas» ficou para muito tempo. Como encara isso, gosta da expressão? És muitas vezes utilizado quase como arma secreta da Seleção. Entras muitas vezes para desbloquear os jogos, por exemplo a Liga das Nações é um bom exemplo. Gostas desse papel, sentes-te bem nesse papel?
— É assim, depende do que se quer dizer com «espalha-brasas». Eu prefiro ser conhecido e quero ser conhecido como Francisco Conceição. Porque «espalha-brasas» depende, mas se calhar se estiver a falar que é um jogador para entrar nos últimos 10 ou 15 minutos, acho que não é bem assim, porque jogo na Juventus, jogo na liga italiana, tenho sido titular indiscutível na minha equipa. E acho que esse papel depende da forma como queremos enquadrar ou definir esse papel. Eu estou aqui, como disse, quer jogue 10 ou 90 minutos, para dar o máximo pela Seleção e mostrar que sou mais um para ajudar a seleção a atingir os objetivos.
— Volto ao seu pai, porque foi colega de Fabio Cannavaro. E foi uma grande figura da Juventus também a determinada altura, o seu clube atual. Queria saber se o seu pai lhe disse alguma coisa sobre a forma de ser de estratégia que possa ajudar para este jogo do Fabio Cannavaro e já agora se regularmente fala com o seu pai, se é um bom conselheiro.
— Sim, o meu pai é o meu maior conselheiro. Acho que não há ninguém melhor com quem eu possa falar sobre futebol e ajuda-me muito naquilo que é o futebol, mas principalmente naquilo que é a minha vida pessoal. Em relação ao mister Fabio Cannavaro, não falámos. Sei que foi um grande jogador, uma lenda. E sei mais ou menos qual é que vai ser a estratégia do Uzbequistão, conheço bem os treinadores italianos. Sei que a estratégia vai ser adiar o nosso primeiro golo ao máximo, com uma linha de cinco, muito coesos, muito compactos. E já sabemos todos aqui na equipa quais as dificuldades que nos esperam, sabemos os erros que cometemos no último jogo que não podemos cometer neste.
— O Francisco falou do rótulo de «espalha-brasas» e do facto de já ser titular indiscutível na Juventus. Na Seleção ainda não é assim. O que é que sente que tem de ser o próximo passo para poder ser o Francisco, por exemplo, a ser o extremo direito titular da Seleção?
— Tenho de ajudar a equipa com golos, fazer aquilo que o mister me pede. No fim, fazer o meu trabalho: ajudar ao máximo a Seleção e depois cabe ao mister a decisão de quem é que deve ou não deve jogar. Sei que é difícil porque há muitos jogadores com muita qualidade, há muitas soluções, mas estamos todos aqui para baralhar as contas ao mister.
— É desconfortável para si estar na Seleção e saírem notícias de que o seu pai pode ser o próximo selecionador?
— Não tenho de comentar essas notícias. Acho que temos o máximo respeito pelo mister que está aqui, estamos completamente focados no Mundial, em fazer o melhor pelo nosso País e essas notícias não me cabe a mim comentar, nem é respeitoso da minha parte comentar isso.
— Quando entra no relvado, o Francisco e os companheiros de equipa sentem que as equipas como aquela que vão defrontar agora, o Uzbequistão, equipas estreantes, se galvanizam, têm maior vontade de travar aqueles que idolatram?
— Sim, sem dúvida. Isso é um dos fatores. Eles, lá está, chegando aqui a uma competição destas, querem mostrar que têm qualidade e capacidade para se debater com as melhores seleções do mundo, é o que eles vão tentar fazer. Nós temos é que igualar essa vontade que eles têm de fazer uma boa figura, temos que igualar a atitude. Acho que isso não tem faltado. Temos é que melhorar naquilo que foi a qualidade e executar aquilo que é o nosso plano para o próximo jogo a 100% para sairmos de lá vitoriosos.
— O seu aniversário é 14 de dezembro de 2002. No dia 14 de agosto de 2002, o Cristiano Ronaldo estreou-se pelo Sporting. Quase na sua data ali de nascimento. No meio a tantas críticas e palavras sobre Cristiano Ronaldo, o que significa ele para a sua geração e para si?
— O Cristiano é um exemplo por aquilo que foi a carreira dele, pela fome que demonstra todos os dias agora com 41 anos, a fome que demonstra em querer ganhar todos os dias, super motivado para treinar como se fosse o último treino. Acho que isso para mim e para a nova geração e para todos nós que estamos aqui é um exemplo, porque se ele já conquistou tanto e continua com essa fome, então a fome que temos para conseguir conquistar um pouco daquilo que ele conquistou tem que ser ainda maior. Ele é um exemplo por isso, pela liderança também, pelos golos que faz. Lá está, é mais um da equipa que está aqui para nos ajudar e penso que precisamos de todas as individualidades para que o coletivo funcione.
— Que importância tem para vocês vencer o Uzbequistão para chegar com menos pressão ao encerramento da fase de grupos? E o que é que o mister lhe pediu em relação a essa profundidade que faltou à equipa no primeiro jogo, mais verticalidade, mais desequilíbrio pelas alas?
— Sim, nós queremos ganhar o próximo jogo com o Uzbequistão porque é o próximo. Mas claro que depois o objetivo vai ser ganhar contra a Colômbia também. Temos essa qualidade para ganhar estes dois jogos, mas vamos jogo a jogo, pensar no próximo, com o Uzbequistão. Em relação àquilo que eu posso acrescentar e àquilo que o mister me pediu, foi essa tal profundidade que faltava à equipa, pediu-me para ajudar a equipa com as minhas características, foi isso que tentei fazer. Infelizmente não conseguimos ganhar, mas estamos preparados para o próximo jogo.
— Como canhoto que joga na ala direita, também se coloca à disposição para jogar como extremo esquerdo? Gosta?
— Sim. Claro que não vou ser hipócrita, vou dizer que a minha posição preferida é na direita, que é a posição em que cresci a jogar e onde me sinto melhor. Mas, lá está, se o mister achar que devo jogar na esquerda, eu quero é ajudar, quero é jogar, também posso jogar na esquerda, não há problema algum. Mas onde sinto que rendo mais é na direita, o mister sabe disso, mas estou à disposição para aquilo que ele precisar.
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