O Sporting anda a viver sobre o arame
Rui Borges tem razão. «A sorte dá trabalho», disse o treinador do Sporting, ontem, na conferência de imprensa de lançamento do jogo com o Aves SAD, dos quartos de final da Taça de Portugal. E é verdade. A sorte dá muito trabalho, e não se deve tirar o mérito à capacidade do leão de vencer jogos com golos na compensação. Mas não deixa de ser sorte.
«Acabamos por ser felizes em marcar, mas a felicidade é tanta no início como no último minuto», disse também o treinador... e aí já não consigo concordar. Na verdade, este Sporting anda a viver sobre o arame — tem mostrado um equilíbrio tremendo para não cair, mas está muito menos seguro do que se tivesse os dois pés assentes na terra.
Nos últimos quatro jogos, o leão fez o golo da vitória aos 90' (Luis Suárez, 2-1 ao PSG na Liga dos Campeões), aos 90+6' (Luis Suárez, 2-1 em Arouca, na Liga), aos 90+4' (Alisson Santos, 3-2 em Bilbau, contra o Athletic, para a Champions) e aos 90+6' (Luis Suárez, 2-1 ao Nacional, na Liga). Nos três jogos em que venceu por 2-1, deixou-se empatar depois de estar a vencer por 1-0; em Bilbau, começou a perder, conseguiu empatar mas voltou a ceder, antes de fazer a reviravolta na segunda parte.
Que a equipa de Rui Borges tenha conseguido chegar aos triunfos aos 90' ou depois disso é um ótimo sinal — dá conta da resiliência, da convicção, da força psicológica da equipa. Mas o que o treinador tem de questionar é: porque é que isso tem sido necessário?; porque é que o Sporting, nos últimos quatro jogos, chegou aos 89' sem estar a vencer?
E se contra PSG e Athletic Bilbao, atendendo à força dos adversários, não é difícil compreendê-lo (embora a qualidade, ou falta dela, da exibição na primeira parte no País Basco não deixe de ser preocupante), já em Arouca ou diante do Nacional a produção ofensiva do leão terá ficado bem aquém das expectativas, considerando as diferenças na classificação da Liga.
Basta, aliás, olhar para a estatística de golos esperados: o Sporting fez dois golos em cada uma das partidas, quando diante do Arouca, em função dos remates que teve, a expectativa seria de 1,65, e contra o Nacional de 1,99. Ou seja, não se pode falar em exibições dominadoras ou de grande desperdício.
Por isso, sim, tem havido mérito mas também sorte na forma como o Sporting tem conseguido ganhar ao cair do pano. Mas mais que isso: esse mérito, e essa sorte, não devem servir para esconder o que está menos bem.