«Por vezes, o cérebro está mais focado em proteger-se do que em vencer». Foto IMAGO
«Por vezes, o cérebro está mais focado em proteger-se do que em vencer». Foto IMAGO

Quando o medo entra em campo o talento sai do jogo

Desportiva_MENTE é um espaço de opinião quinzenal de Liliana Pitacho, psicóloga e docente do Instituto Politécnico de Setúbal

O talento perde-se muitas vezes não por falta de capacidade, mas por excesso de medo. Hoje não quis falar dos temas mais quentes do desporto nacional. Apeteceu-me trazer-vos um verdadeiro tema da psicologia aplicada ao desporto (e não só): o clima de segurança psicológica e a sua importância para o sucesso.

Um contexto de segurança psicológica corresponde a um ambiente relacional e organizacional no qual os indivíduos percecionam que podem expressar ideias, dúvidas, erros, preocupações e emoções sem receio de punição, humilhação, exclusão ou consequências negativas para o seu estatuto. Aplicado ao desporto, trata-se do ambiente em que atletas podem errar, arriscar, decidir sob pressão, recuperar de falhas e cooperar eficazmente, sabendo que o tema pode ser discutido e analisado como parte integrante da melhoria, mas não existirão consequências negativas.

Quando a pressão sobe, o sistema nervoso não distingue uma final olímpica ou um dérbi de um perigo real. Se o contexto emocional for vivido como punitivo, o organismo entra em modo de defesa. A atenção estreita, a tomada de decisão torna-se rígida e o corpo reage mais devagar. A mente passa a jogar para não falhar e não para vencer. É aqui que muitas carreiras se perdem e muitos títulos escapam.

Quantas épocas já vimos ruir não por falta de qualidade, mas por balneários tensos, lideranças que criticam publicamente, ambientes onde o erro é castigado e o silêncio se torna estratégia de sobrevivência? A ciência do comportamento humano demonstra que o rendimento ótimo emerge em contextos de elevada exigência combinada com segurança psicológica e não em ambiente punitivo. Esta segurança é saber que o erro não destrói valor pessoal, que a comunicação é bem-vinda, que o risco faz parte do crescimento e que falhar não equivale a ser descartado.

No desporto, inclusive no alto rendimento, a maior parte das quebras sob pressão não acontece por incapacidade física ou tática. Acontece quando o cérebro está mais focado em proteger-se do que em vencer. Talvez a verdadeira vantagem competitiva já não esteja no treino mais duro, mas no clima emocional onde esse treino acontece.

Este texto foca deliberadamente uma dimensão coletiva da psicologia do desporto, que tantas vezes é ignorada em favor do talento individual, mas não foi uma escolha ao acaso, pois é uma dimensão crítica quando nos aproximamos das fases mais decisivas dos campeonatos. Talvez seja o momento de todas as equipas se perguntarem, com honestidade: posso arriscar, posso errar? Sinto-me verdadeira e suficientemente seguro?