Gianni Infantino, presidente da FIFA - Foto: IMAGO
Gianni Infantino, presidente da FIFA - Foto: IMAGO

O mapa da divisão mundial que ameaça o poder de Infantino na FIFA

Reeleição de Infantino como presidente do organismo que rege o futebol mundial está em sérias dúvidas

O estatuto outrora intocável de Gianni Infantino no topo do futebol mundial está agora sob forte pressão, com a sua reeleição para a presidência da FIFA, em março, a deixar de ser uma certeza.

Até meados de julho, a recondução de Infantino para um quarto mandato parecia um dado adquirido, com o apoio de quase todos os 210 membros da FIFA e sem qualquer oposição significativa. Contudo, o cenário mudou drasticamente após a polémica em torno do seu plano, entretanto abandonado, de vender participações no Mundial e noutras competições a investidores privados.

A divisão no futebol mundial é agora evidente. Uma análise da BBC Sport às posições das 210 federações com direito a voto (o Nepal, 211.º membro, está suspenso) revela um cenário de incerteza. Enquanto alguns países declararam publicamente o seu apoio ou oposição, a posição de outros foi apurada através de contactos diretos ou inferida com base nas declarações das suas confederações continentais.

A contestação a Infantino intensificou-se quando a UEFA (Europa), a CONCACAF (América do Norte, Central e Caraíbas) e a AFC (Ásia) assinaram uma carta conjunta acusando o presidente da FIFA de quebrar a confiança «através do engano». Esta coligação representa 136 federações, mas não garante um bloco unido. Dentro da AFC, por exemplo, Butão, Filipinas e Emirados Árabes Unidos já manifestaram o seu apoio a Infantino. O México também se demarcou da CONCACAF para apoiar o atual presidente.

A Europa, com 55 votos, tem sido uma das frentes de oposição mais visíveis, com países como Inglaterra e País de Gales a retirarem formalmente as cartas de apoio que tinham enviado para a eleição do próximo ano. No entanto, o apoio a Infantino permanece forte em África (CAF) e na América do Sul (CONMEBOL), continentes que beneficiaram de um investimento sem precedentes desde que assumiu o cargo há uma década.

Este investimento, canalizado através do programa Fifa Forward, que disponibilizou milhares de milhões de dólares, pode ser crucial para garantir votos de nações mais pequenas dentro da AFC, CONCACAF e da Confederação de Futebol da Oceânia (OFC), que até agora se manteve em silêncio.

Atualmente, as contas indicam 124 votos na oposição, 73 a favor de Infantino e 13 indecisos, mas este quadro é volátil. A Ásia é considerada uma região-chave, com muitas federações ainda por definir a sua posição. A Arábia Saudita, que vai organizar o Mundial 2034, também ainda não se pronunciou, e as suas eleições internas em agosto poderão influenciar outros países da região.

Para uma eleição com apenas dois candidatos, é necessária uma maioria simples de 106 votos. Se houver três ou mais candidatos, o vencedor na primeira volta precisa de dois terços dos votos, caso contrário, avança-se para uma segunda volta onde a maioria simples é suficiente.

Apesar da crescente pressão, Infantino não mostrou qualquer intenção de se demitir. Uma eventual destituição através de uma reunião de emergência do Conselho da FIFA parece improvável, uma vez que seriam necessários 19 dos 37 membros para a convocar, e a sua composição atual não favorece a oposição. Assim, o cenário mais provável é o surgimento de um candidato de unidade para o defrontar diretamente nas eleições de março.

Apesar de ainda não ter surgido qualquer candidato oficial, o percurso de Gianni Infantino rumo a um quarto mandato na liderança da FIFA parece cada vez mais incerto. A oposição, liderada pela UEFA, CONCACAF e AFC, considera que a melhor estratégia para o derrubar passa pela união em torno de um único nome.

O prazo para a apresentação de candidaturas termina em novembro e, até lá, o cenário global permanece indefinido. A falta de um adversário claro, aliada a divisões emergentes dentro das próprias confederações, torna a corrida imprevisível.

Historicamente, o domínio europeu no futebol, tanto nas competições como na riqueza gerada, tem sido um ponto de discórdia para as outras confederações. É talvez por essa razão que o nome de Victor Montagliani, presidente da CONCACAF, tem sido apontado nas últimas semanas como o mais provável desafiador de Infantino.

Contudo, o mapa de votos pode sofrer alterações significativas dependendo de quem avançar. Uma eventual candidatura do xeque Salman, presidente da AFC, por exemplo, poderia desviar para si o apoio de algumas federações asiáticas que atualmente se alinham com Infantino. O nome de Nasser Al-Khelaifi, presidente do PSG, foi apontado recentemente como o preferido da UEFA para enfrentar Infantino.

O que parece certo é que a reeleição de Infantino já não é um dado adquirido. A possibilidade de figuras-chave declararem o seu apoio nos próximos meses e a crescente oposição indicam que, mesmo que se mantenha no cargo, o seu caminho será tudo menos tranquilo.

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