O jogador que falou em sair, mercado, 'poluição' à volta da equipa, Samu e Alverca: tudo o que disse Farioli
Francesco Farioli projeto na sala de imprensa do Centro de Treinos e Formação Desportiva PortoGaia, no Olival, o jogo de estreia do campeonato 2026/2027 frente ao Alverca, no Dragão, domingo, às 18h00.
— Será o primeiro jogo do campeonato num Dragão que promete estar cheio. Que adversário espera? E pode atualizar o boletim clínico?
— Há muito entusiasmo pelo arranque da nossa temporada. Estar de volta perto dos nossos adeptos será uma motivação extra que teremos e de certeza que eles vão fazer o resto. Em relação ao Alverca, tivemos a oportunidade de estudá-los, com a chegada do Sérgio. Conhecemos bem o Alverca porque estivemos frente a frente várias vezes na temporada passada, mesmo que tenham existido algumas mudanças. São bem organizados, têm um bom espírito, jogam com uma intenção mais positiva e gostam de recuperar a bola em terrenos altos. Tentam construir mesmo quando estão a ser pressionados. Têm jogadores muito interessantes, não só tecnicamente mas também fisicamente. Temos de estar preparados. Trabalhámos bem para o jogo e esperamos conseguir uma boa exibição. Lesões? Amanhã não vamos ter o Oskar Pietuszewski e o Alberto. O Oskar com uma lesão muscular, o Alberto com uma pancada que sofreu na perna. Têm períodos diferentes de recuperação? Bednarek? Está totalmente recuperado.
— O FC Porto folgou sexta-feira, a dois dias do jogo, e não estamos assim tão habituados em Portugal a ver as equipas não treinarem a dois dias do jogo. Teve a ver com gestão de cargas, sentiu a equipa pesada e a necessitar de folgar, ou já vinha pensado de trás?
— É algo que também fizemos na época passada. Vindo de semanas diferentes, queríamos ter uma gestão adequada do plantel, para dar uma carga correta também aos jogadores que não jogaram, ou jogaram apenas parte da Supertaça. Tivemos dois dias de trabalho muito intenso para todos. O que acreditamos na periodização é ter alguns picos durante a semana, momentos para reduzir a carga e depois voltar a subir. É um pouco assim que construímos habitualmente as nossas semanas. Fizemos tudo o que era necessário. Hoje tivemos uma energia muito boa no relvado e, como disse antes, agora trata-se de estarmos realmente focados, ligados, com o nível certo de emoção e ambição, para entregarmos uma grande exibição, porque é a única forma de conseguirmos os resultados que queremos.
— O mercado está aberto – não lhe vou fazer perguntas sobre o mercado, já falou muito sobre isso – mas vai começar o campeonato e as coisas ainda não estão totalmente fechadas. Imagino que ainda espere que chegue alguém, ou que ainda corra o risco de ver partir alguém. Do ponto de vista do conforto do treinador, de passar uma mensagem para a equipa mas saber que em breve pode ter de a alterar em função de quem chega ou parte, que tipo de conforto ou desconforto é que isto lhe provoca?
— Gosto dessa pergunta, acho que é um dos jornalistas mais humanos que já conheci, ao tentar colocar-se no nosso lugar, mas acabando por perguntar o que quer saber. Aprecio o esforço. O mercado é sempre um grande quebra-cabeças. Há tantas peças que se vão mover... é uma mistura entre um puzzle e um jogo de xadrez, onde temos de estar atentos aos movimentos possíveis. Se alguém sai, temos de trazer alguém, ou trazer alguém à espera que outra pessoa saia. Já falei sobre a situação do plantel: acredito que 90%, talvez 95% dos jogadores, adorariam ficar aqui. Naturalmente, alguns jogadores podem ter o desejo de sair para ganhar mais experiência e minutos, veremos o que acontece nos próximos dias. Sobre o que vamos trazer, estamos a trabalhar com a atenção certa e um compromisso claro em manter o nosso nível de ambição e competitividade, tanto nas competições internas como na Liga dos Campeões. O mundo ideal seria ter todos os jogadores no primeiro dia da pré-época, mas esse mundo raramente existe. Os jogadores que temos fizeram uma pré-época fantástica, trabalhámos bem e estamos prontos para começar e levar para o campo o nível de desempenho que os adeptos esperam.
— Recuando ao que disse há pouco em relação ao Alverca. Vai enfrentar um Alverca que o ano passado conheceu bem, mas que tem um treinador novo, que trabalhou nesta casa e que conhece muito bem o Farioli. Até que ponto foi mais difícil preparar o jogo e até que ponto é uma vantagem para ele conhecê-lo a si e às suas ideias?
— Sim, é normal que quando enfrentas pessoas da casa, que a certa altura se tornam adversários em campo, haja uma pequena desvantagem, digamos assim. Mas faz parte do futebol. Um dia estamos do mesmo lado, no dia seguinte somos adversários. O mais importante para nós é termos uma prestação ao nível certo. Se fizermos as coisas bem, com o respeito devido ao adversário e atenção aos pequenos detalhes, temos qualidade para superar qualquer desvantagem estratégica. O foco principal tem de ser a nossa preparação, a estratégia que temos de aplicar e, acima de tudo, o sentimento que precisamos de ter para irmos com tudo o que temos.
— Disse que 95% dos jogadores querem permanecer, mas há 5% que podem querer sair para ter minutos. O Rodrigo Mora enquadra-se nesse grupo, atendendo a que o ano passado não teve os minutos que desejaria?
— Serei muito honesto: tive apenas um jogador que veio falar comigo sobre a oportunidade de sair. Sei de um que gostaria de sair, mas em nenhum desses casos o Rodrigo está envolvido. Não é o momento de falar de situações individuais, porque amanhã temos um jogo. Sei que o mercado pode ser uma distração, alguns jogadores podem pensar em destinos diferentes ou no seu papel aqui no FC Porto, mas todos têm a segurança de que, quem ficar, terá as suas oportunidades em todas as competições. No FC Porto, nada é maior que o clube e o interesse dos seus adeptos. Todos estão alinhados, até aquele que me pediu para sair, e isso deixa-me dormir tranquilo.
— Na semana passada, disse que a equipa teria de fazer coisas diferentes e mais do que na época passada para surpreender os adversários. Com que ideia ficou no pós-Supertaça? Acha que a equipa tem de ser menos previsível? Diz-se que o FC Porto se tornou uma equipa fácil de anular em certas situações.
— Não sei se percebi bem, mas acho que não disse mudar, disse melhorar. É natural que numa época haja coisas a aperfeiçoar e desenvolver. Tivemos uma reunião com a equipa esta manhã como ponto de partida da temporada. Além do mercado, há também uma poluição natural no ar, uma pressão extra da comunicação social, até nas redes sociais... Lembro-me bem da época passada, em meados de novembro, quando perdemos o primeiro jogo contra o Nottingham Forest, li alguns artigos que já nos descredibilizavam, falavam de uma catástrofe de equipa que não conseguia jogar e que eventualmente ia colapsar. Sou uma pessoa aberta a críticas e muito exigente comigo mesmo. E quando me esqueço disso, tenho uma equipa técnica que me mantém no topo. Sobre ser previsível, acho que há uma intenção externa em fazer-nos perder o foco. Ter uma época como a nossa, com 34 jogos, 28 vitórias e 6 empates, não acontece por acaso. Vem da consistência e da capacidade de superar momentos difíceis. É isso que exijo: acreditar e, claro, ter sempre em mente que é preciso melhorar. Há sempre mais de uma coisa a melhorar, mais de uma coisa que podemos fazer melhor.
— Queria saber se já tem alguma previsão do departamento médico sobre quando o Samu poderá voltar em pleno?
— Temos uma projeção, mas creio que ainda é muito cedo para considerar o Samu como uma opção para nós, infelizmente.
— E relativamente ao André Silva, o que é que ele acrescenta à equipa em relação ao Deniz Gul?
— São dois jogadores com características diferentes. O André é um jogador maduro, muito experiente, que nasceu e cresceu aqui. Fez uma carreira fantástica em grandes clubes e decidiu voltar a casa. Ganhou o primeiro troféu recentemente e chegou com muita humildade, colocando-se ao serviço da equipa. É um tipo curioso, pergunta sempre como pode melhorar, o que para um treinador é especial num jogador com o historial dele. É muito móvel, tem uma presença forte na área e sabe como pressionar o adversário. O Deniz, por outro lado – e disse-o várias vezes a época passada – é um jogador que nem sabe o quão bom pode ser. Super poderoso, super rápido, tecnicamente dotado. Precisa de encontrar consistência e melhorar o seu contributo para a equipa, mas o potencial dele é enorme. Desde que o Samu se lesionou na época passada, ele assumiu uma grande responsabilidade e foi fundamental para a conquista do título. Estou grato pelo que ele fez e agora cabe-lhe continuar a ajudar a equipa a atingir os objetivos.
— O campeonato é uma maratona. O FC Porto o ano passado fez uma primeira volta quase perfeita. O objetivo para este ano é tentar algo semelhante? E quão importante é começar com uma vitória?
— Seria fantástico. Esta manhã, na nossa reunião, analisámos várias coisas e o mote para esta semana e para esta época é: «Queimar os barcos'. Não sei se conhecem a expressão sobre os exploradores que cruzavam o oceano e, ao chegar, queimavam os navios para não haver volta atrás. Esse tem de ser o nosso espírito. O que fizemos, está feito. Temos de parar de fazer comparações com a época passada. Os troféus da época passada já estão no museu. O que fizemos hoje foi 'queimar os barcos'. Não nos comparamos com o passado. Atrás de nós está o oceano; agora temos o pé em terra firme para atacar o que está à nossa frente e explorar todas as possibilidades que esta nova época nos vai dar. O FC Porto não tem qualquer intenção de olhar para trás, apenas para a frente, porque é aí que a nossa energia deve ser gasta.