No Dragão
O Benfica perdeu 1-3 com o FC Porto. Perdeu e está perdido. Não gosto de derrotas morais, não gosto de apesar de tudo, não gosto daquela conversa de quem tenta arranjar conforto onde ele não existe. O Benfica, quando perde, perde. E perder é sempre mau.
Mas também não consigo olhar para este jogo e fingir que foi normal. Não foi.
Antes do 1-0, o Benfica estava melhor. Não estava a dar baile, não estava a esmagar o FC Porto, não estava a fazer um jogo inesquecível. Mas estava melhor. Tinha mais bola, saía melhor, parecia mais equipa, parecia mais tranquilo. O Benfica tinha entrado bem. E isso tem de ser dito.
Gabri Veiga fez o 1-0 aos 31 minutos. Foi contra aquilo que o jogo estava a mostrar até aí? Um bocado. Mas o futebol é isto. Quem marca fica por cima, mesmo que até aí não tenha estado melhor.
Quatro minutos depois veio a expulsão de Lenglet. Segundo amarelo. E aí acabou o jogo que estava a ser jogado até então.
O lance de Lenglet é parvo. Não acho que seja nada de extraordinário, não acho que mereça o espetáculo todo que se fez à volta. Mas é parvo. Ele já tinha amarelo. Estava no Dragão. Estava num clássico. E qualquer jogador do Benfica tem de saber que ali não pode dar um lance destes ao árbitro. Não pode. Mesmo que seja pouco. Mesmo que o outro exagere. Mesmo que noutro campo aquilo passasse com um aviso. Ali não passa.
E não passa porque no Dragão estas coisas têm sempre outro barulho. O jogador cai, o estádio levanta-se, o banco protesta, o árbitro sente o jogo em cima. E depois decide. Quase sempre para o lado mais fácil. Lenglet deu-lhe essa hipótese. Fez mal.
Mas agora vamos ao ponto principal. Porque isto não pode ficar só em Lenglet. Antes disso, Gabri Veiga tinha pisado Bah. Um pisão. Não foi uma falta qualquer, daquelas que se perdem no meio de cinquenta lances. Foi um pisão. E aí não houve o mesmo rigor. Não houve a mesma vontade de meter ordem no jogo. Foi tratado de outra maneira. Este foi só o primeiro de muitos lances com uma dualidade de critérios olímpica.
É isto que chateia. É isto que tira uma pessoa do sério. É olhar para vários lances e perceber que o peso dado a cada um não foi igual.
O Benfica ficou com dez aos 35 minutos. Aos 35. Ainda faltava uma eternidade de jogo. E não era num jogo qualquer, era no Dragão, já a perder 0-1. Quem quiser fazer de conta que isto é uma coisa pequena, faça. Eu não faço. Jogar quase uma hora com menos um, naquele estádio, naquele ambiente, muda tudo.
Mesmo assim, o Benfica não desapareceu. Foi para o intervalo a perder e com menos um, voltou para a segunda parte e empatou. Bah fez o 1-1. E esse golo é importante para perceber o jogo. Porque uma equipa que está a ser engolida não empata assim. Uma equipa morta não volta do intervalo e faz o 1-1 no Dragão com dez jogadores.
O Benfica ainda estava no jogo. Mesmo condicionado, ainda estava.
Depois veio o 2-1. E aí, sim, o Benfica devia ter sido mais esperto depois do empate. Devia ter fechado mais, devia ter acalmado, devia ter tirado o FC Porto daquele impulso imediato. Mas isso é uma coisa. Outra, muito diferente, é fingir que o jogo estava em condições normais. Não estava.
A equipa estava com menos um desde os 35 minutos. Já tinha sido empurrada para um jogo que não era o mesmo. Tinha conseguido empatar, mas estava a jogar no limite. E quando se joga no limite, qualquer lance pesa o dobro. O FC Porto aproveitou. Fez o que tinha a fazer. Mas não me venham vender a história da vitória limpinha, tranquila, sem casos, sem nada para discutir. Não compro.
Rui Costa falou em dualidade de critérios. Fez bem. Era para falar. O Benfica não pode sair dali calado como se nada tivesse acontecido. E eu sei bem como isto funciona: se o Benfica fala, está a chorar. Se o Benfica não fala, é porque aceitou. Portanto, mais vale falar. Com imagens, com lances, com factos. Sem pedir licença.
O pisão sobre Bah tinha de ser falado. O critério tinha de ser falado. A expulsão tinha de ser enquadrada no jogo todo, não apenas naquele segundo em que Lenglet mexe o braço. Porque o futebol apita-se com critério. E o critério, neste jogo, foi diferente. Mediante a cor da camisola.
Depois há outra coisa. Estou farto dessa mania de que o Benfica tem de ser sempre superior e calar. Superior coisa nenhuma. Defender o Benfica não é falta de nível. Falta de nível é fingir que não se viu. Falta de nível é aceitar que num clássico se aplique uma bitola a uns e outra a outros. Falta de nível é deixar passar.
Claro que a equipa também tem de olhar para dentro. Lenglet não podia dar margem. Depois do 1-1, o Benfica tinha de aguentar melhor. Há coisas a corrigir. Mas isso é secundário neste jogo. O ponto principal é a forma como o jogo foi condicionado. Sem a expulsão aos 35 minutos, com o Benfica já a perder mas ainda bem dentro do jogo, não sabemos o que aconteceria. Ninguém sabe. E é precisamente esse o problema. O jogo que podia ter sido jogado deixou de existir ali.
O FC Porto ganhou 3-1. Está no resultado e ninguém o apaga. Mas os resultados não contam sempre a história toda. Este não conta. Quem olhar só para o 3-1 vai achar que foi uma vitória sem discussão. Quem viu o jogo sabe que houve mais do que isso. Houve um Benfica melhor até ao primeiro golo. Houve um pisão sobre Bah tratado de uma forma. Houve Lenglet tratado de outra. Houve uma expulsão cedo demais. Houve um Benfica com dez a empatar. E houve depois um jogo partido, já completamente diferente.
Não quero desculpas para tudo. Mas também não quero que nos façam de parvos. O Benfica perdeu, sim. Mas não perdeu num jogo limpo de contexto. Perdeu num jogo em que a arbitragem pesou. E pesou muito.
Agora é voltar a ganhar. Porque, no fim, infelizmente, a razão não dá pontos. A indignação não nos faz subir na tabela. O Benfica tem de responder em campo. Tem de ganhar os próximos jogos, tem de transformar esta revolta em futebol, tem de perceber que não pode dar borlas a ninguém. Nem a adversários, nem a árbitros, nem a dirigentes do nosso futebol.
Mas uma coisa não apaga a outra. Ganhar os próximos jogos não deve servir para esquecer o que aconteceu no Dragão. O Benfica tem de jogar mais e melhor, sim. Mas também tem de se defender mais e melhor.
No Dragão, perdemos. E perdemos mal. Mas não foi só por culpa nossa. Longe disso.