No FC Porto, ganhar é um clássico
Provavelmente era domingo e milhares de pessoas convergiam para o Estádio das Antas. Era dia de Porto-Benfica e um Porto-Benfica é sempre aquele momento de mostrar o que vale o Porto, o portismo e os portistas. Um Porto-Benfica não é apenas um jogo de futebol, é um teste às nossas capacidades, é uma oportunidade maravilhosa de mostrarmos o que valemos e é, sobretudo, uma oração de fé, um altar de sacrifícios e uma união de preces. Súplicas gritadas em coro, gestos uníssonos que arrepiam estádios e empolgam a multidão. Nesse domingo, no Estádio das Antas, a multidão acotovelava-se em bancadas sem lugares marcados. Vinha lá o Benfica, tínhamos de ganhar e, se não fosse pela equipa, era por nós, empilhados em socalcos, arfantes de esperança.
Desde que me conheço que ganhar ao Benfica é a maior conquista do FC Porto. É o nosso rival maior, o Benfica que chegou a ter mais campeonatos sozinho do que todos os outros juntos. Hoje, por força do meu FC Porto, a coisa mudou muito, mudou muitíssimo e somos o clube com mais títulos no futebol português. E estamos em vantagem no confronto direto com o Benfica.
Mas naquele domingo de sol, milhares de portistas avançavam confiantes para o Estádio das Antas.
Eu ia com o meu pai. Quase a chegar ao estádio, ainda na Fernão de Magalhães, somos travados pela polícia. Estavam a fazer um corredor para a claque do Benfica passar. Ao meu lado, um velhote começou a gritar impropérios na cara de um polícia, impávido. Disse-lhe para ter calma, que ele ainda acabava preso, não havia razão para aquilo, ele que tivesse calma, já íamos continuar a avançar para o estádio, homem, vá com calma, não se enerve que não vale a pena!
O homem acalmou-se, a situação serenou e lá continuámos à espera que os adeptos do Benfica passassem. Mas, inopinadamente, a polícia começou a empurrar-nos para trás, sem necessidade nem explicação. Estávamos calmos e tranquilos. Exceto eu, que saltei num jato de ira cara a cara com um polícia, vociferando tudo o que me ocorreu, numa linguagem impossível de reproduzir. Estava indignado! Indignado? Eu estava furioso, achava aquilo inaceitável! Gritei, gritei e gritei até que alguém ao meu lado me disse, com voz tranquilizadora, ó homem, tenha calma, você ainda vai preso, tenha calma, não se enerve que não vale a pena. Serenei e olhei para ele, de lágrimas nos olhos.
Sim, era o mesmo adepto que eu tinha acalmado uns momentos antes. Abraçámo-nos.
A justiça num túnel
Em dezembro de 2009 jogou-se um Benfica-Porto que ficou na história negra do futebol português. O famigerado jogo do túnel da Luz. Conta-se que no final da partida, no túnel de acesso aos balneários, várias pessoas se envolveram em cenas de confusão e desacatos. Foram muitas pessoas envolvidas, mas a justiça desportiva atuou, como nunca, com rapidez fulgurante. Suspensão preventiva imediata de dois jogadores do FC Porto, pois claro. Que jogadores? Hulk e Sapunaru. O castigo subsequente caiu sobre eles como um penedo: quatro e seis meses de suspensão, o equivalente a 23 (!) jogos. 23 jogos de suspensão, num processo sumaríssimo que afastou da equipa um dos seus jogadores mais influentes. Hulk era, claramente, o alvo a abater e, indiretamente, o FC Porto.
Dezoito jogos de suspensão depois, a justiça desportiva decide rever a sentença e aplica um castigo de, afinal, apenas três jogos a Hulk. Sim, três jogos, não é gralha. Três jogos. De 23 jogos de suspensão, o castigo passou para três, sendo que entretanto já tinham sido cumpridos 18 jogos da dita suspensão.
Nessa altura, o FC Porto já tinha sido afastado da luta pelo título (seria o nosso segundo penta) e estava fora dos lugares de acesso à UEFA Champions League. Arrumada a questão, a justiça desportiva deve ter entendido, quem sabe, que já não valia a pena manter a farsa por mais tempo. Tudo tinha corrido como planeado e o Benfica foi campeão.
Mas a história não acaba aqui.
O ano do resgaste
Deixa-me falar-te agora sobre aquele jogo em agosto de 2010. Eu estava de férias no Algarve e o FC Porto ia jogar a Supertaça com o campeão Benfica, um campeão forjado no túnel da Luz. Era uma equipa recheada de estrelas. Luisão, David Luiz, Pablo Aimar (que jogador!) e Ruben Amorim.
Do outro lado, uma equipa cheia de talento. Helton, Rolando, João Moutinho, Hulk ou Falcao. Era o primeiro jogo da época, que podia definir o caminho do futuro. Começou bem. Golo de Rolando aos três minutos, confirmado pelo 2-0 final com o golo do inevitável Falcao. Foi uma vitória especialmente saborosa, um prenúncio do que viria a seguir.
Num campeonato com 16 equipas, o FC Porto foi campeão com 21 pontos de avanço sobre o Benfica e 36 (!!!) sobre o Sporting. E o Benfica deu-nos dois momentos inesquecíveis: aquela deliciosa vitória por 5-0 no Estádio do Dragão e a festa de campeão em pleno Estádio da Luz, regada à média luz depois de uma vitória por 2-1. Aquela época de 2010/2011 foi brilhante. Três jogos com o Benfica, três vitórias. Um campeonato sem derrotas. Melhor, era impossível.
Uma vitória clássica
Está muito longe de ser decisiva a vitória do FC Porto sobre o Benfica, no passado domingo. Mas é uma vitória muito importante. Reforça a liderança mas dá, sobretudo, mais ânimo, mais motivação e mais favoritismo ao Porto. Uma vitória contra o Benfica é sempre uma vitória contra o Benfica.
O clube de Lisboa chegou ao Dragão supermoralizado depois da vitória em Milão. Vinha de uma sequência de jogos glorificados pelo jornalismo do costume. O Benfica era a melhor equipa, era favorita, quase nem valia a pena jogar, melhor seria encomendar já as faixas de campeão.
Mas os jogos ganham-se em campo e o FC Porto foi melhor. Uma vitória muito valorizada pela resposta do Benfica, que nunca desistiu do jogo mesmo com um jogador a menos. As vitórias mais saborosas são conquistadas contra os melhores adversários.
O museu do futuro
O museu do FC Porto é um farol. Ilumina e inspira, fruto do brilho dos mais de 20 mil troféus expostos. O museu é o impulso que nos move. Está vivo, é um organismo pulsante e ambicioso, sedento de mais e mais troféus. Como não ficar maravilhado com a Taça do Arsenal, considerada o maior e mais valioso troféu de um clube de futebol? Uma taça que glorifica a vitória do FC Porto sobre o Arsenal, em 1948, quando a equipa de Londres era considerada a melhor do Mundo. A taça pesa 250 quilos (130 em prata maciça) e ergue o orgulho de um povo.
Como não ficar deslumbrado com a Valquíria Dragão, uma obra monumental de Joana Vasconcelos, construída com cerca de 300 troféus conquistados pelo FC Porto?
Desde que foi inaugurado, há 13 anos, o museu já recebeu cerca de dois milhões de visitantes. Não queres ser o próximo?