Sem tempo para trabalhar a equipa, Jesus optou pela continuidade, corrigindo algumas das opções mais incompreensíveis de Roberto Martínez — Foto: RODRIGO ANTUNES/LUSA
Sem tempo para trabalhar a equipa, Jesus optou pela continuidade, corrigindo algumas das opções mais incompreensíveis de Roberto Martínez — Foto: RODRIGO ANTUNES/LUSA
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De Martínez a Jorge Jesus

O ponto fraco de Portugal no Mundial de 2026 vai ser o ponto forte em 2030. O novo selecionador acrescentará liderança, capacidade de decisão e coragem para fazer escolhas. 'Choques de Realidade' é o espaço de opinião em A BOLA de Rui Pedro Soares, consultor

Jorge Jesus assumiu o cargo de selecionador nacional com um reconhecimento popular que só Carlos Queiroz tinha tido em 1991.

Num país onde o sucesso de quem se fez a pulso nem sempre é bem recebido, Jesus precisou de muitas vitórias e de uma carreira internacional para conquistar este estatuto.

Partilha com Cristiano Ronaldo um percurso construído através do trabalho, da ambição e de resultados numa indústria extremamente competitiva, onde o reconhecimento se conquista por mérito.

Ambos são admirados por milhões de portugueses e têm de conviver com uma franja das elites que tem dificuldade em aceitar o êxito de quem não pertence ao seu círculo.

A primeira convocatória de Jorge Jesus confirma o que se esperava: quer ganhar já, mas o horizonte estratégico é o Mundial 2030, que também se disputará em Portugal.

Sem tempo para trabalhar a equipa antes dos primeiros compromissos da Liga das Nações, Jesus optou pela continuidade, corrigindo algumas das opções mais incompreensíveis de Roberto Martínez.

O regresso de João Palhinha, cuja ausência do Mundial 2026 continua sem explicação plausível, a convocatória de dois laterais-direitos e dois esquerdos, em vez de quatro direitos e apenas um esquerdo, e a inclusão de um terceiro ponta de lança antecipam uma gestão diferente da equipa e dos minutos de Cristiano Ronaldo.

Portugal tinha tanta qualidade em campo que a Espanha, depois de eliminar a França e derrotar a Argentina na final, considerou a vitória tangencial sobre a nossa Seleção, conseguida com um golo nos últimos minutos, o seu jogo mais difícil do Mundial.

Nesta convocatória, excluindo Ronaldo, os jogadores de campo mais velhos têm 32 anos. Todos poderão estar no Mundial 2030, com mais quatro anos de experiência e dezenas de internacionalizações adicionais.

O que faltou em 2026 pode ser precisamente aquilo que Jesus acrescentará em 2030: liderança, capacidade de decisão e coragem para fazer escolhas.

Mas o futebol português não se esgota na Seleção Nacional.

Os generais do futebol português

Uma conhecida classificação militar dividia os homens em quatro grupos, segundo duas características: inteligência e iniciativa.

Os inteligentes com iniciativa eram os generais de guerra, a quem se confiavam as decisões no campo de batalha.

Os inteligentes sem iniciativa asseguravam a burocracia e a logística, indispensáveis ao funcionamento do exército, mas afastados do comando das operações.

Os ignorantes sem iniciativa cumpriam ordens na frente de batalha.

Finalmente, os ignorantes com iniciativa eram afastados assim que identificados. A combinação da ignorância com a iniciativa tornava-os especialmente perigosos, capazes de cometer erros catastróficos.

A lição é simples: a iniciativa não é, por si só, uma virtude. Sem conhecimento, preparação e discernimento, pode transformar-se no maior dos perigos.

Mas também não se pode confiar o comando de uma batalha a um general sem iniciativa.

Mas um general inteligente, preparado e com iniciativa não conseguirá ganhar uma guerra se os restantes generais se recusarem a falar uns com os outros.

É este o principal problema que o futebol português precisa de resolver.

Sem sequer haver diálogo, é impossível fazer reformas que exigem um amplo consenso, como aconteceu em 1999, quando Portugal conquistou a organização do Euro 2004 e se iniciou um processo que permitiu construir ou recuperar dez estádios em tempo recorde.

Como seriam hoje os cinco maiores clubes portugueses se ainda jogassem nos estádios que tinham em 1999?

A arbitragem precisa de uma solução definitiva

Otempo de atenção que a arbitragem consome no futebol português, as energias que desperdiça e as urgências permanentes contaminam a FPF como sucedia com a Liga até ao momento em que se conseguiu livrar da gestão desta responsabilidade.

A apenas quatro anos do Mundial 2030, do qual Portugal é um dos organizadores, seria melhor para o futebol português a arbitragem das competições profissionais passar a ser gerida num organismo autónomo?

Esta reforma só será possível se a FPF, a Liga e a generalidade das sociedades desportivas dialogarem e o assumirem como um objetivo comum, o que pressupõe eliminar intrigas e contornar quem se dedica permanentemente a jogadas palacianas.

Há nove anos que o Conselho de Arbitragem está, de facto, nas mãos da APAF.

A representação profissional dos árbitros e o exercício da autoridade sobre a arbitragem não estão separados.

Se o atual modelo conduz sistematicamente à liderança do Conselho de Arbitragem por antigos dirigentes da APAF, importa discutir se não será preferível autonomizar a gestão da arbitragem relativamente à FPF e à Liga, através de uma estrutura independente, com responsabilidades e mecanismos de escrutínio claramente definidos.

O modelo inglês demonstra que existem alternativas de organização.

Escrevi nesta página que Luciano Gonçalves não deveria ter passado diretamente da presidência da APAF para a presidência do Conselho de Arbitragem. Mantenho essa posição.

Mas uma coisa é discordar da sua escolha, outra é defender o seu afastamento na sequência de denúncias cuja veracidade ainda não foi demonstrada.

Luciano Gonçalves afirma a sua inocência e recebeu o apoio unânime dos restantes membros do Conselho de Arbitragem.

Compete à Justiça investigar e tem ao seu dispor instrumentos legais para determinar medidas adequadas se alguma suspeita houver.

Até lá, a existência de denúncias e a pressão pública não podem constituir, por si só, fundamento suficiente para o seu afastamento.

Uma denúncia justifica uma investigação, mas a sua existência não pode transformar-se, na prática, numa condenação.

Quem denuncia de boa-fé deve ser protegido. Quem é denunciado tem direito à presunção de inocência.

O futebol português precisa de instituições capazes de decidir com independência, não de dirigentes que decidam em função da pressão do momento.

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