O Fulham de Marco Silva

Marco Silva tem sido muito elogiado por todos e os críticos percebem a dimensão do trabalho que está a ser realizado no Fulham

ABORDAMOS com frequência o tema da qualidade do desporto-rei em Portugal. Refiro com regularidade que os melhores embaixadores do nosso futebol são os treinadores e jogadores que estão espalhados por esse mundo fora. A estratégia de valorização e internacionalização da nossa liga deveria estar assente nesse ponto forte: a qualidade dos nossos executantes (jogadores) e estrategas (treinadores). 

No melhor campeonato do mundo, a Premier League, despontam muitos jogadores portugueses em equipas de maior e menor dimensão. Atualmente, temos apenas um técnico português entre as 20 equipas que integram este campeonato. Marco Silva, com o seu Fulham, não tem a obrigação de lutar por títulos mas já conquistou algo muito valioso: o reconhecimento, por parte da crítica e dos jogadores, da qualidade do seu trabalho.


O RISCO FULHAM

COM experiência em três clubes ingleses, Marco Silva (MS) esteve um ano e meio sem treinar (que coincidiu com a pandemia) e recusou algumas propostas. Optou então por aceitar o desafio Fulham. Fez-se acompanhar pela sua equipa técnica, onde está incluído Luís Boa Morte que tem história (mais de 250 jogos) no Fulham. Este seria, por um lado, um ponto de aproximação aos adeptos numa fase inicial e, por outro, um motivo de maior exigência e responsabilidade, por ser alguém que conhece bem a realidade do clube. Ir para a segunda liga seria sempre um risco, até pela forma como alguns desconfiavam da sua qualidade, depois de uma época em que as coisas, no Everton, não correram bem. O potencial risco acabou por se transformar em sucesso, pela forma como a sua equipa dominou por completo, e desde o início, a difícil e exigente competição que é o Championship. Num campeonato que se destaca pela exigência física, o Fulham marcou a diferença na forma de jogar e no ADN que o treinador incutiu nos jogadores. No final de uma época desgastante, o Fulham garantiu o tão desejado regresso ao escalão principal. Para além de ter vencido a competição, marcou 106 golos (mais 29 que o segundo melhor ataque), teve o melhor marcador, Mitrovic, e Marco Silva foi considerado o melhor treinador.


A EQUIPA IOIÔ 

IOIÔ foi a alcunha dada ao Fulham, pelo simples facto de, nas últimas quatro épocas, estar constantemente a subir e descer, sem capacidade para se manter de uma forma consistente no mais alto patamar do futebol inglês. Apesar da grande campanha efetuada no Championship, os críticos desconfiavam da capacidade de Marco Silva manter a performance do ano anterior. Por exemplo, no início do ano, as casas de apostas indicavam que o Fulham era a segunda equipa com maior probabilidade de descer de divisão. Os adeptos, por seu lado, embora satisfeitos, estavam receosos com o ano que agora está a terminar, em função das sensações do passado. É neste ponto que reside um dos grandes méritos de MS. Criou um ADN que foi assimilado por todos e que assenta numa equipa que controla a bola e que tem atenção aos detalhes. Exige coragem dentro do relvado (para que todos se mantenham fieis às ideias trabalhadas) e teve o mérito de encontrar jogadores que encaixam nas suas ideias. Tudo isto com apenas 70M€ de investimento, sendo o 15.º em 20 neste capítulo. 


PALHINHA E COMPANHIA

Aabordagem ao mercado foi cirúrgica. Reforçou a baliza (Leno), porque percebeu a importância de ter um GR com qualidade, e que tem a mais-valia de saber jogar com os pés, o que seria importante para abordar o jogo como pretendia. Contratou João Palhinha que encaixou na perfeição no futebol inglês e, sobretudo, na sua equipa. Aqui convém realçar um ponto fundamental. Palhinha tem todas as características que lhe reconhecemos: intenso, agressivo, lutador, destruidor e forte no jogo aéreo. Porém, Marco conseguiu ajudar o jogador a dar um salto qualitativo. Hoje, vemos com frequência Palhinha a encontrar soluções verticais no seu jogo, a queimar etapas e linhas em passe, complementando com a característica, que já demonstrava anteriormente, que é a variação de flanco em passe longo. Este pequeno pormenor da evolução de Palhinha, e que deu uma dimensão diferente ao seu jogo, teve o dedo do treinador. O veterano Willian e Andreas Pereira (que finalmente conseguiu ter uma época consistente) vieram compor o lote de principais aquisições, que se complementa e que tem encantado os adeptos do Fulham.


ANO DE RECORDES

PELO facto do Fulham não lutar por títulos, muitos podem não ter a noção da qualidade da época que está a realizar. Os factos e números ajudam-nos a dar a devida dimensão. Assim, em 143 anos de história, o máximo de pontos que o Fulham fez na Premier League foram 53 (2008/2009). Atualmente, tem 51, quando faltam apenas dois jogos para terminar o campeonato. O máximo de golos marcados pelo Fulham na competição mais importante de Inglaterra foi de 52 e, a dois jogos do fim, a equipa de Marco Sila já igualou este numero, tendo tudo para bater esta marca. Estes números ganham ainda maior relevância pelo facto do melhor marcador da equipa e jogador fundamental, Mitrovic, só ter feito 22 dos 36 jogos do campeonato, em função de castigos e lesões. Por fim, o recorde de vitórias fora na competição é de 6, este ano o Fulham já bateu esta marca, com 7. Se é verdade que no futebol valorizamos sempre os resultados, porque são o mais importante, no caso do Fulham de Marco Silva percebemos que a abordagem ao jogo tem muita influência nos resultados alcançados. Quando assim é, todos saem ainda mais valorizados.


CRÍTICOS, ADVERSÁRIOS E ADEPTOS

EM Inglaterra, a prestação de Marco Silva tem sido muito elogiada por todos. Os críticos, que conhecem a realidade e o contexto do Fulham, percebem a dimensão do trabalho que está a ser realizado. Também os jogadores que trabalham ou trabalharam com Marco Silva lhe reconhecem o valor, como é o caso de Troy Deeney que, apesar de não ter jogado muito com MS no Watford, lhe tem tecido vários elogios. O mérito de MS é também percecionado pelos adversários, não só pelas palavras que lhe dirigem, mas também pelo respeito que demonstram dentro do campo. Por fim, os adeptos, que conforme referi antes, estavam receosos relativamente a esta época devido ao histórico da equipa nos últimos anos. Com o passar das jornadas, as angústias e receios transformaram-se em sorrisos e descontração. Porquê? Por vários motivos. Primeiro porque, independentemente, do adversário, o Fulham joga para ganhar, para se impor; em segundo, porque esta confiança e forma de jogar refletem-se em resultados positivos; terceiro, porque em Inglaterra os adeptos do Fulham começaram a perceber que iam para o estádio para ver um bom espetáculo de futebol. Para além disso, também se identificam com a forma de jogar da sua equipa. Marco Silva é o segundo treinador português com mais jogos na Premier League (apenas Mourinho tem mais) e ontem completou 200 jogos, em todas as competições, na terra de sua majestade. A sua grande vitória - evolução e destaque - está, não nos resultados, mas na forma como tem vindo a alcançá-los. Isto faz toda a diferença e abre as portas das equipas com maior potencial, que têm Marco Silva muito bem referenciado.


A VALORIZAR

G. D. Chaves. Para se ter sucesso é muito importante termos consciência das nossas limitações e darmos passos consistentes. O Chaves optou por não inscrever a sua equipa nas competições europeias, porque entende que seria um passo maior do que a perna. O facto de ter percebido que tem criar condições para vencer, de uma forma consistente, demonstra que o Chaves está no caminho certo.

José Mourinho. A primeira batalha rumo a mais um título europeu está ganha. Com o grande trabalho que está a fazer na Roma, continua a demonstrar o motivo pelo qual se apelidou de special one.


A DESVALORIZAR

Liga de clubes. Num momento decisivo para o futebol português é fundamental existirem regras. A forma como terminaram o Benfica-SC Braga e o Sporting- Marítimo passa uma imagem negativa do nosso futebol. Para agravar a situação, os castigos (no caso do Benfica- SC Braga) aplicados não são dissuasores o suficiente (longe disso) para evitarem comportamentos semelhantes no futuro.