O engenheiro que vai faltar ao trabalho em Wembley... para lá jogar
Jay Lovell, defesa de 33 anos, vai juntar-se a nomes como Steven Gerrard e Wayne Rooney na história do futebol inglês ao liderar uma equipa em Wembley. No próximo domingo, será o capitão do Cockfosters, equipa de Enfield, no norte de Londres, na final da FA Vase contra o AFC Stoneham. O curioso é que o jogador, pai de dois filhos, já tinha planos para estar no estádio nacional neste fim de semana, mas na qualidade de engenheiro de escadas rolantes.
Natural de Hertfordshire, Lovell trabalha para a empresa responsável pela instalação e manutenção das escadas rolantes de Wembley, o que o obriga a estar de serviço durante os eventos para resolver eventuais problemas. Contudo, a qualificação da sua equipa para a final mudou tudo. O Cockfosters garantiu a sua presença no jogo decisivo ao vencer o Punjab United por um agregado de 3-1 nas meias-finais, disputadas no mês passado. Assim, em vez de estar de serviço, Lovell tentará ajudar a sua equipa a conquistar a FA Vase pela primeira vez na história do clube.
«Agora que cheguei à final, ninguém vai trabalhar», contou Lovell à BBC Sport. «Todos os rapazes vêm ver-me. Passámos o trabalho a outra pessoa. Um dos meus chefes até brincou comigo e disse: 'Vais fazer uma pausa de duas horas para ir jogar à bola, é?' Tem gozado bastante comigo por causa disto». Depois de mais de 15 anos a jogar nas ligas amadoras, Lovell recorda ter estado em Wembley na final do ano passado e pensar que a sua hipótese de jogar no relvado sagrado era tão provável como «ganhar a lotaria».
«Lembro-me de andar por lá no dia da final da FA Vase do ano passado, antes de toda a gente chegar. Há um silêncio e pensas: 'Um dia podia mesmo chegar aqui'. É como ganhar a lotaria, gastas o dinheiro na tua cabeça antes de o teres ganho. Nunca pensei que chegaria a Wembley», confessou. O momento é particularmente especial para o jogador. «É bastante emotivo para mim porque trabalhei lá, estive lá e andei por Wembley. Foi sempre um 'e se', e agora o 'e se' tornou-se realidade. Ainda não me caiu a ficha de que vou estar lá a jogar no dia 17 de maio», atirou.
A final de domingo contra o AFC Stoneham, da Wessex League Premier Division, será um contraste com as duras condições que Lovell e os seus colegas de equipa enfrentaram ao longo de uma época desgastante, com mais de 60 jogos, incluindo 11 partidas disputadas entre 4 de abril e 4 de maio. «A nossa série de jogos no final da época foi uma loucura. Tivemos sorte por ter um plantel grande este ano e poder rodar bastante, porque chegámos a ter oito jogos em 14 dias», explicou o defesa, sublinhando o esforço que implica conciliar o trabalho com o futebol.
«Quando te levantas, vais trabalhar, chegas a casa e depois sais outra vez para jogar futebol, é muita coisa para gerir», acrescentou. «Mas tudo isto faz valer a pena, especialmente quando olhas para trás e te lembras de algumas das condições em que jogaste, como a -1°C em dezembro com a chuva a bater-te na cara, e pensas: 'O que estou eu aqui a fazer? Podia estar em casa a ver televisão'!»
Apesar de tudo, a motivação é clara: «Fazemo-lo por amor ao jogo e vejam onde isso me trouxe agora, a entrar em Wembley no final do mês». Independentemente do resultado, Lovell acredita que a experiência será inesquecível. «Não creio que se possa superar isto. É o auge, não é?», concluiu com um sorriso.
A FA Vase é a competição com eliminatórias que congrega todas as equipas do quinto e sexto escalões de Inglaterra. São cerca de 600 equipas que tentam chegar a Wembley.
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