Segue-se a Croácia, em Toronto. Em 2016 foi em Lens
Segue-se a Croácia, em Toronto. Em 2016 foi em Lens

Rudolph Nureyev — um dos melhores bailarinos a pisar os palcos do planeta, para muitos The GOAT, embora haja quem prefira o classicismo de Nijinsky ou a modernidade de Baryshnikov — atuou em Lisboa, no São Carlos, ao lado da divina Margot Fonteyn, em 1969, dançando o bailado clássico Giselle.

Foi uma noite de esplendor artístico apenas comparável à presença, na mesma sala da capital portuguesa, de Maria Callas, que ali cantou, em 1958, La Traviata.

Em 1991, já numa fase de declínio acentuado, Nureyev regressou a Lisboa, integrado na digressão ‘Nureyev e Amigos’, no âmbito do Festival de Música do Estoril, apresentando-se ao público no Coliseu dos Recreios.

Em 1969, Lisboa deliciou-se com o génio único de Nureyev. Em 1991, a ida ao Coliseu foi mais curricular: quem foi pôde dizer «eu vi Nureyev ao vivo», embora essa ‘last dance’, do ponto de vista artístico, fosse medíocre.

A persistência de muitas personalidades da música tornou possível a frase «old rockers never die.» Ainda no passado sábado, Cyndi Lauper (73) e Rod Stewart (81) juntaram 90 mil fãs no Parque Tejo, no terceiro dia do Rock in Rio de 2026. Pouco importou que as vozes e a vitalidade já não fossem as mesmas; o carisma estava lá, a lenda apresentava-se ao vivo, e isso bastava, porque, para cantar, lá estava a plateia. Da mesma forma, Mick Jagger (82) ou Paul McCartney (84) ainda andam aí para as curvas.

Tenho a certeza de que se, amanhã, Bjorn Borg (70) e John McEnroe (67) decidirem defrontar-se, haverá casa cheia, seja onde for, e cobertura mediática planetária, da mesma forma que todos os amantes do golfe se comoveram ao ver, este ano, Jack Nicklaus (86) e Gary Player (90) no ‘tee shot’ de honra no Masters de Augusta.

Cada coisa tem o seu tempo, e apenas os verdadeiramente grandes conseguem fintá-lo, valendo-se do que foram para justificar o que são. Todos eles merecem o maior respeito porque, nas áreas que escolheram, atingiram patamares apenas acessíveis aos eleitos.

Mas ver Nureyev, em 1991, no Coliseu, e esperar que fosse o mesmo de 1969, no São Carlos, seria, no mínimo, estultícia.

A vida é feita de escolhas, e há quem enverede por esticar o tempo, desde que haja quem lhes permita que o tempo seja esticado. Mas estas coisas correm, normalmente, melhor nos filmes do que na vida real…

* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…

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