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Scaloni curou Messi e a Argentina agradece
Qualquer aprendiz de feiticeiro com formação em futebol é capaz de operacionalizar um treino, organizar taticamente uma equipa, escolher um onze e fazer evoluir um jogador, as missões básicas de um treinador seja de que modalidade for. E depois há os predestinados, aqueles que conseguem algo raro — criar uma comunidade.
Lionel Scaloni pertence a esse lote restrito. O mérito do selecionador argentino não se resume aos títulos, um Campeonato do Mundo (2022) e duas Copas América (2021 e 2024), as principais competições a que uma seleção sul-americana pode almejar. O grande legado do antigo defesa/médio, hoje com 48 anos, é a capacidade de transformar um conjunto de estrelas numa família. Uma obra invisível aos olhos das estatísticas, mas fundamental para o brilho dos números que ostenta no currículo.
Na sexta-feira, 26 de junho, completaram-se 10 anos do anúncio de Lionel Messi de que se ia retirar da alviceleste. Aos 29 anos, acabara de perder a Copa América de 2016, a quarta final seguida sem erguer a taça em disputa, após o Mundial-2014 e a Copas Américas de 2007 e 2015. As comparações com o passado glorioso de Diego Armando Maradona e a pressão para repetir feitos só ao alcance de D10S — a epopeia do México-1986 e a saga do Itália-1990 — produziram um ambiente tóxico que asfixiou a pulga, uma pulga que, ao serviço do Barcelona, saltava feliz ao ritmo de Bolas de Ouro. A camisola argentina pesava mais do que inspirava.
Sem discursos públicos grandiosos ou murros na mesa no balneário, Lionel Scaloni inverteu estado de espírito sombrio através da proximidade com os jogadores, da simplicidade de processos e da criação de um espaço onde todos se sentem importantes e dividem responsabilidades à medida do respetivo talento. É impossível dissociar esse processo da relação construída com Messi. O capitão encontrou, finalmente, um contexto em que mantém o estatuto de génio e líder, agora rodeado por colegas dispostos a correr e sofrer por ele para, depois, tocarem o céu.
Talvez seja a maior vitória de Scaloni, o técnico capaz de aliviar a obrigação de Leo de carregar sozinho um país inteiro que se alimenta de futebol como poucos.
Nos pequenos gestos, continua a ver-se união dentro e fora de campo, tal a forma como os suplentes vibram com as façanhas dos titulares neste Mundial. Nos festejos, a identidade desta Argentina revela-se em absoluto. Não há protagonistas isolados nem coreografias ensaiadas a pensar em likes nas redes sociais. Assistimos, isso sim, a corridas desenfreadas para o banco, abraços que envolvem futebolistas, treinadores e elementos do staff, uma felicidade genuína. A impressão é a de que cada golo pertence ao coletivo, independentemente de quem o assinou.
A Scaloneta mostra que o futebol de seleções exige bastante mais do que apenas qualidade técnica e tática. Sem sentido de pertença, não há equipa que resista. Quando um grupo acredita verdadeiramente no companheiro ao lado, os momentos difíceis tornam-se mais suportáveis e as glórias ganham outro significado.
Do Campeonato do Mundo de 1982, o primeiro de que tenho memória, além do Naranjito e da desilusão com a eliminação do Brasil aos pés de Paolo Rossi, guardo a imagem de Marco Tardelli a celebrar o segundo golo da Itália no triunfo, por 3-1, sobre a Alemanha na final do Santiago Bernabéu. Um grito de emoção louca e incredulidade com a proeza que protagonizara.
Quarenta anos volvidos, no Qatar-2022, Lionel Scaloni fez-me lembrar o antigo internacional transalpino. Gonzalo Montiel batera Hugo Lloris e a Argentina sagrava-se campeã mundial no desempate por penáltis após sensacional 3-3 nos 120 minutos.
Scaloni pareceu estranhar e antes de entranhar a dimensão da conquista estava hipnotizado, quase sem reação. Quando despertou, benzeu-se e chorou convulsivamente como um vulcão que entra em erupção. A explosão de alguém que sentia que os seus recebiam a recompensa merecida.
(Cada vez que vejo o esplendor na relva de Tardelli e Scaloni não consigo evitar emocionar-me).