Otamendi, capitão do Benfica, está em fim de contrato - Foto: IMAGO
Otamendi, capitão do Benfica, está em fim de contrato - Foto: IMAGO

No silêncio, o adeus? Otamendi já faz as malas...

Que ninguém se engane: o vazio que o capitão e campeão do Mundo vai deixar na espinha dorsal da equipa do Benfica não se preenche apenas com um novo defesa-central...

Há silêncios que ensurdecem mais do que o rugido de 70 mil vozes na Luz. Nicolás Otamendi, o General que, há muito, trocou o azul do Norte pelo encarnado da capital para se tornar o pilar de betão de uma era, parece estar a escrever as últimas linhas do seu diário em Lisboa.

Aos 38 anos, e com o contrato a expirar em junho, o capitão do Benfica já não esconde o olhar nostálgico. As notícias que chegam de Buenos Aires não são apenas ecos de mercado; são o som de malas a fechar e de um tango que, ao que tudo vai indicando, começa a tocar a sua última estrofe em solo europeu.

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O River Plate deseja-o. O Monumental de Núñez reclama o filho pródigo para um último capítulo de glória sul-americana. E na Luz, o que resta? Resta a gestão de um fim de ciclo que ameaça ser tão doloroso quanto inevitável. Otamendi foi, durante anos, a apólice de seguro de uma defesa que, sem ele, muitas vezes parecia um castelo de cartas ao vento.

Mas o tempo, esse adversário implacável que não perdoa nem a campeões do mundo, começou a cobrar a fatura. A velocidade já não acompanha a leitura de jogo e a agressividade, antes cirúrgica, roça agora, por vezes, a imprudência de quem tenta compensar com o corpo o que as pernas já não dão.

Rui Costa e a estrutura do Benfica enfrentam o dilema clássico: gratidão versus estratégia. Deixar sair o capitão a custo zero, depois de tudo o que ele deu ao clube, será um ato de cavalheirismo ou uma gritante falha de gestão financeira?

Num futebol onde cada milhão conta, ver um ativo desta dimensão sair sem deixar um euro nos cofres é um golpe duro, mas talvez seja o preço a pagar pela paz social e pelo respeito a um líder de balneário.

O que se sente hoje, é que o coração de Nico já atravessou o Atlântico. Nas suas últimas intervenções, o brilho nos olhos aparece quando se fala da Argentina, não do próximo jogo da Liga. O Benfica precisa, por isso e rapidamente, de sangue novo, de uma sucessão que não seja feita à pressa no último dia de agosto.

Se Otamendi já tem as malas no corredor, que a despedida seja feita com a dignidade que o General merece. Mas que ninguém se engane: o vazio que ele deixará não se preenche apenas com um novo defesa-central; preenche-se com o caráter que parece estar a desertar da Luz a par da sua partida.

O tango está a acabar. E o Benfica, entre a saudade e a necessidade, tem de aprender a dançar sozinho.