Sermão ao Neto
Se o ponteiro do relógio avançou uma hora por altura do apito inicial do México-Portugal, os 90 minutos seguintes pouco ou nada adiantaram na preparação para o próximo Campeonato do Mundo.
Claro que este estágio de março não será desperdício de tempo, mas o jogo de reinauguração do Estádio Azteca foi um enorme bocejo para quem decidiu dar as boas-vindas ao horário de verão.
Nem a boa dinâmica de Samu — um dos jogadores na luta pelas escassas vagas abertas — conseguiu contrariar a monotonia de um encontro digno de pré-época. Nada que surpreenda, tendo em conta as ausências na convocatória, a falta de entrosamento no onze e o receio de desgaste/lesão, sobretudo para quem sabe que o lugar na convocatória está garantido. Salvo qualquer azar, lá está.
Perante este contexto, a exibição no México não justifica maior preocupação com a equipa das quinas, o que está longe de significar que esteja tudo bem, nem tão pouco que seja tudo para deitar fora.
Vamos lá ver o que dará o outro ensaio com uma seleção anfitriã, a dos Estados Unidos, mas, pelo menos para já, Roberto Martínez não terá encontrado motivos para mais dúvidas.
Existem razões para um sermão, mas individualizado, e não de cariz técnico-tático. O desentendimento de Pedro Neto com Jesús Gallardo deve ser enquadrado com outros comportamentos recentes do internacional português. Expulso com dois cartões amarelos no espaço de três minutos, no início do mês, frente ao Arsenal, o extremo português do Chelsea ainda recebeu um segundo jogo de castigo pela forma como reagiu à decisão do árbitro. Apenas dez dias depois empurrou um apanha-bolas no reduto do PSG, num gesto que procurou amenizar com a oferta da camisola ao referido jovem, e que mereceu uma advertência por parte da UEFA.
Para lá da consistência nos blues, Pedro Neto tem sido peça importante na Seleção. Há uma certa fúria no seu futebol, da qual só tínhamos visto o lado positivo, até bem recentemente. Os gestos do último mês são perfeitamente dispensáveis, ainda para mais na antecâmara do Campeonato do Mundo. Pode existir uma razão por trás dos mesmos, porventura até pessoal, mas isso, se for o caso, só acentuará a necessidade de um acompanhamento mais dedicado.
A impetuosidade de Pedro Neto faz falta à Seleção, mas quando aplicada com a bola nos pés, para atacar a apatia que, por vezes, contagia a equipa.