Nasceu num campo de refugiados e quer brilhar no Sporting: a história de Irankunda
Há histórias que começam muito antes de o futebol lhes dar um palco. A de Nestory Irankunda começou num campo de refugiados, na Tanzânia, e leva-o até Alvalade. O jovem extremo australiano está prestes a ser confirmado como reforço do Sporting e prepara-se para dar mais um salto numa história que, apesar dos apenas 20 anos, já atravessou continentes, clubes e momentos de enorme impacto.
Irankunda nasceu a 9 de fevereiro de 2006, em Kigoma, na Tanzânia, depois de os seus pais, naturais do Burundi, terem fugido da guerra civil que devastou o país entre 1993 e 2005. É um de oito irmãos e passou os primeiros anos de vida num contexto que os seus pais nunca escolheram.
«Quando começou a guerra civil, os meus pais não tiveram escolha, não queriam perder a vida. A minha irmã mais velha estava doente e, quando tentaram fugir, chegaram a pensar em deixá-la para trás. Mas o meu pai não foi capaz de o fazer. Ele ama a família e faria tudo pelos filhos. Foi nessa altura, quando as coisas estavam a ficar cada vez mais complicadas, que pegou na minha irmã ao colo e fugiu», lembrou, ao Canberra Times.
Aos oito anos, a família mudou-se para Adelaide, na Austrália, onde a vida começou a ganhar outra direção. Foi ali que Irankunda encontrou no futebol uma espécie de idioma universal. Primeiro no Adelaide Croatia Raiders, depois no Adelaide United, começou a transformar a velocidade, a potência e a irreverência em argumentos suficientes para despertar atenções.
A brilhar desde os 15 anos
A estreia como sénior aconteceu quando tinha apenas 15 anos, em janeiro de 2022, na A-League. E não demorou a aparecer. Três jogos depois, marcou pela primeira vez como profissional. O adolescente que ainda nem tinha idade para conduzir começava a jogar contra homens — e a deixar a sua marca.
A ascensão foi rápida. Depois de ganhar espaço no Adelaide United durante três épocas, Irankunda chamou a atenção do Bayern Munique, que o contratou como uma das grandes apostas para o futuro.
Na Alemanha, nunca chegou à primeira equipa do colosso vermelho e branco. Atuou na equipa B e nos juniores dos bávaros, antes de ter a primeira experiência europeia a sério, no empréstimo ao Grasshoppers, na Suíça, na segunda metade de 2024/25. Foram 21 jogos, um golo e uma assistência que despertarem o interesse por terras de Sua Majestade, com o Watford a avançar para a contratação. Nos hornets, mostrou a sua melhor versão até agora: 42 partidas, quatro golos marcados e quatro assistências. Os números — aliados às exibições — que convenceram o Sporting.
O menino de ouro dos 'socceroos'
Mas foi com a camisola da Austrália que Irankunda escreveu, até agora, uma das páginas mais bonitas da sua história. Depois de se estrear pela seleção principal aos 18 anos, chegou ao Mundial 2026 e aproveitou o palco maior para acrescentar mais um recorde ao currículo.
A 14 de junho, frente à Turquia, assinou um remate certeiro e tornou-se o mais jovem internacional australiano de sempre a marcar numa fase final de um Campeonato do Mundo, aos 20 anos e 124 dias. Um golo que valeu muito mais do que o resultado: era a confirmação, diante dos olhos do mundo, de que aquele menino nascido num campo de refugiados tinha chegado ao topo do futebol internacional.
Agora, o próximo destino é Lisboa. O Sporting prepara-se para investir 15 milhões de euros, mais três milhões dependentes de objetivos, num jogador que pode tornar-se o futebolista australiano mais caro de sempre. Se a operação atingir os 18 milhões, Irankunda ultrapassará o atual máximo, estabelecido por Harry Souttar na transferência do Stoke City para o Leicester, em 2023.