Cristiano Ronaldo, 41 anos, capitão da Seleção Nacional - Foto: Imago
Cristiano Ronaldo, 41 anos, capitão da Seleção Nacional - Foto: Imago
Adicione A BOLA às suas preferências do Google

Ronaldo: o homem que ninguém desliga

'Bar Nilo' é o espaço de opinião em A BOLA de Luís Aguilar, comentador desportivo

Cristiano Ronaldo tem 41 anos. Vamos repetir: 41 anos. Num futebol que mastiga jogadores aos 30 e os cospe aos 35, Cristiano continua ali. No balneário. No onze. Na fotografia. No centro de tudo. Sempre no centro de tudo.

Diz ele que, quando já não o quiserem, basta falar. O treinador, o presidente. Qualquer um deles. É só pegar no telefone, marcar uma conversa e explicar que acabou. Depois, Cristiano arruma as botas. Fecha a mala. Vai embora. Sem drama. Pelo menos, é isso que ele diz. Acredita quem quiser. E é sempre mais confortável imaginar um adeus limpo. Um aperto de mão. Um abraço. Um obrigado por tudo, capitão. Só existe um problema. Se esse dia chegar, não partindo de Ronaldo, alguém tem de se chegar à frente.

Jorge Jesus, apesar de lembrar o estatuto de Ronaldo, já disse que o passado não joga. E que, nesse aspeto, Ronaldo está entregue, como qualquer outro, à lei do rendimento. Parece coragem. Mas também pode ser apenas uma frase daquelas que ficam bem. Fácil de proferir. Difícil de fazer.

A verdade é que Ronaldo nunca foi igual aos outros. Os outros são substituídos. Ronaldo transforma uma substituição numa crise. Os outros ficam no banco. Ronaldo transforma o banco num referendo. Com ele ou contra ele. Nunca apenas futebol.

Frente ao País de Gales, a Seleção não encantou, mas ganhou. Ronaldo correu. Ronaldo tentou. Ronaldo rematou. Ronaldo marcou um golo que não valeu porque estava em posição irregular. Durante alguns segundos, tudo voltou ao normal. A bola na baliza. Os braços abertos. O grito. O estádio ao rubro perante o ritual. Depois levantaram a bandeira. O golo morreu. O debate ficou vivo.

Cristiano ainda sabe onde a bola vai cair. O corpo perdeu velocidade, a cabeça ganhou ansiedade, mas a fome continua intacta. Ainda procura o espaço. Ainda prepara o remate. Ainda acredita que a jogada só termina quando a bola chega aos seus pés. Mas está aí uma parte do problema na Seleção.

A equipa tem jogadores rápidos. Jogadores móveis. Jogadores que trocam de posição e aparecem onde não estavam dois segundos antes. Mas Vitinha, Bruno Fernandes, Félix, ou qualquer outro, podem pensar depressa. Só que depois todos levantam a cabeça e procuram Ronaldo. Sempre Ronaldo.

Durante quase uma década, essa foi a escolha certa. Ele corria mais. Saltava mais. Rematava melhor. Fazia do impossível uma rotina. Agora a rotina ficou. O impossível desapareceu. E ninguém teve coragem de alterar o hábito. Sejam jogadores ou o selecionador anterior (daqui ainda se exclui Jorge Jesus porque seria injusto estar a emitir uma sentença numa caminhada que acaba de começar).

Ronaldo ainda pode marcar. Pode decidir um jogo? Claro. Pode atacar o primeiro poste. Pode ganhar uma bola no ar. Pode marcar um penálti. Mas já não pode ser visto como o abono de família. Não pode pressionar como os outros. Não pode acelerar como os outros. Não pode participar em cada movimento. Não pode obrigar o corpo a esquecer que tem 41 anos. Por maior, e mais extraordinária, que seja a sua capacidade em querer empurrar, enganar e fintar o relógio.

E não é crueldade dizer isto. É carne. É músculo. É tempo. O tempo não odeia Cristiano Ronaldo. O tempo nem sequer sabe quem ele é. Não o viu em Manchester, Madrid ou Turim. Não viu as cinco Bolas de Ouro. Não viu nada. O tempo faz apenas o seu trabalho. Todos os dias, tira-lhe qualquer coisa. Meio segundo. Um passo. Uma mudança de direção. Um salto. Um metro. No futebol, um metro é a diferença entre o golo e o fora de jogo.

Ronaldo responde com números. É assim que sempre respondeu. Mostra os golos. Mostra os recordes. Mostra tudo aquilo que pode ser contado. Mas há coisas que os números escondem. Quantas jogadas morreram porque a equipa o procurou? Quantos movimentos não aconteceram porque alguém ocupava aquele espaço? Quantas decisões são tomadas para proteger o símbolo? Ninguém publica essas estatísticas.

Ronaldo vende camisolas. Traz câmaras. Há milhões de pessoas que não veem a Seleção. Veem Cristiano Ronaldo com a camisola da Seleção. É diferente. Continua por razões desportivas e comerciais. O problema começa quando ninguém admite isso.

Cristiano diz que merece estar. Que os números provam. Que continua a fazer a diferença. Precisa de acreditar nisso. Um homem não passa a vida a destruir limites preparando-se para aceitar um limite. Falamos de alguém que construiu a carreira inteira com uma palavra. E não foi o sim da celebração. Foi o não. «Não estou cansado. Não estou velho. Não acabou.» Agora pedem-lhe que reconheça aquilo que passou a carreira toda a negar, a destruir e a vencer.

Talvez ainda não tenha de sair. Talvez tenha apenas de encolher dentro da equipa. Sentar-se no banco. Entrar aos 70 minutos. Falhar uma convocatória. Ser substituído e continuar sentado. Sem gestos. Sem o país a discutir se foi humilhado. Ser útil. Não ser obrigatório.

Mais do que os mil golos, esse é o último grande recorde que lhe falta. Aprender a não ser o centro. Aceitar que a equipa pode ganhar sem ele. Perceber que diminuir o próprio espaço não apaga a grandeza anterior. Mas isso exige duas coragens. A coragem de Ronaldo para ouvir. A coragem de Jorge Jesus, ou Proença, para falar.

Cristiano afirma que basta dizerem. Então digam. Digam quando chegar o momento. Digam olhando-o nos olhos. Digam sem pedir desculpa. Digam sem transformar gratidão em obediência. Portugal deve-lhe memória. Não lhe deve o futuro.

Até essa conversa acontecer, tudo continuará igual. Ronaldo no centro da área. Ronaldo no centro da fotografia. Ronaldo no centro da pergunta. Não se sabe se ainda está porque ninguém consegue mandá-lo embora. Ou se ninguém o manda embora porque ele ainda está.

A iniciar sessão com Google...