Árbitro português João Pinheiro está a participar na Arabian Gulf Cup, na Arábia Saudita - Foto: Imago
Árbitro português João Pinheiro está a participar na Arabian Gulf Cup, na Arábia Saudita - Foto: Imago

Numa semana histórica para o futebol português, importa perceber o que esteve em jogo, em vários tabuleiros, independentemente da habitual e proverbial capacidade lusa de dizer mal, sobretudo por duas razões: por tudo… e por nada.

A Portugal Football Summit, que a Federação Portuguesa de Futebol organizou, durante três dias, reuniu todo o ecossistema nacional ligado ao jogo, mas trouxe de novo a Portugal um conjunto de dirigentes, intérpretes e pensadores que, em diversas vertentes, muito têm contribuído para que o futuro do futebol seja projetado já hoje, aprendendo com as experiências de ontem e sabendo que amanhã talvez já seja tarde demais.

Falar de arbitragem, da profissionalização dos juízes, das condições a criar para que estes possam ser cada vez mais capazes, preparados, autónomos e reconhecidos, é hoje de uma importância fulcral, para mais num país latino, num extremo sudoeste do continente europeu, e em que tanto se exacerbam e aproveitam as questões de cada jogo e de cada fim de semana para lançar atoardas e tornar cada vez mais confuso o relvado do apito.

Num momento em que Portugal volta a ter árbitros ao nível mais elevado, com João Pinheiro e Catarina Campos a serem, apenas, os nomes mais sonantes de um grupo de elevada qualidade técnica e preparado para o alto rendimento, cada vez mais é essencial refletir sobre o futuro organizacional da atividade, desde a despistagem e captação de talentos jovens, ao quadro legal em que a arbitragem se insere, e às condições para o pleno usufruto de um percurso de semidesgaste rápido, uma vez que, a partir dos 45 anos, não é certa e segura a continuidade da presença (pelo menos nos relvados).

Encontrar soluções com a colaboração dos principais atores (os próprios árbitros e muitos dirigentes que, há mais ou menos tempo, foi eles próprios agentes do apito), é o caminho apropriado. Perceber as limitações temporais, exercer uma pedagogia permanente e estar à disposição do público para ensinar, renovar ou aprimorar.

Num dos painéis que moderei, no primeiro dia da Portugal Football Summit, defendi que há uma «responsabilidade solidária» que não é acompanhada pela generalidade da comunicação social portuguesa. João Pinheiro dirigiu, nesse dia, em Jeddah, o jogo de abertura da Arabian Gulf Cup 2026, entre os anfitriões sauditas e o Kuwait. Nenhuma menção dos media portugueses foi efetuada, ao longo do dia, a essa nomeação, considerando até o prestígio de uma presença intercontinental, sendo Pinheiro e o neerlandês Makkelie os dois juízes de campo oriundos da Europa, nomeados para a competição do Golfo Pérsico.

Este alheamento de grandes nomeações internacionais é recorrente. Grande parte das publicações, das rádios e das televisões pegam no tema, sempre, pelos pressupostos polémicos e eventualmente negativos. Não procuram explicar, de forma equilibrada e equidistante, o que se passa e como se ajuíza uma jogada ou um momento de um jogo, no âmbito das quase mil decisões que os árbitros têm de tomar ao longo de hora e meia num retângulo.

Ademais, é essencial que as mentalidades evoluam. Não faz sentido a um jornalista ou a um comentador tentar criticar arbitragens sem conhecimento de causa. Advoguei, junto ao presidente da APAF (José Borges) e ao vice-presidente da FPF (José Fontelas Gomes, também ele ex-dirigente do setor), e a uma plateia cheia de gente interessada na evolução da arbitragem de futebol, que possam ser criadas condições para que os jornalistas ligados ao desporto, em Portugal, disponham da possibilidade de frequentar dois cursos, ainda que básicos (sem, portanto, serem complementados com a componente prática): um de treinador, outro de arbitragem. Cada vez faz menos sentido, quando a exigência aumenta exponencialmente, tal como a imensa pressão da opinião pública pela transversalidade e abrangência das redes, que os profissionais de comunicação social não estejam documentados para o exercício da legítima crítica.

Recordo sempre (e fi-lo igualmente na Cidade do Futebol), uma ação de formação que orientei num PALOP, especificamente para narradores e comentadores televisivos. Ao perguntar quantas (nem sequer cheguei a questionar quais, porque não valeria a pena…) são as Leis do Jogo, a resposta foi diversa: de uma a cinco, passando por dez e por… não sei. É deste tipo de ignorância estrutural em relação a uma atividade que, depois, é objeto de comentário e análise quase diários, que estamos a falar.

O que se passou nessa conhecida capital de PALOP, com profissionais de um órgão público de comunicação social, talvez se passasse em muitas redações portuguesas, sobretudo nas camadas mais jovens dos profissionais de media do nosso país, cuja ligeireza e impreparação técnica conduzem a erros tão lamentáveis como evitáveis, num quadro de colaboração entre entidades e de reforço da capacitação e competências para o exercício pleno da sua atividade jornalística.

Tudo é, no ser humano, uma questão de hábitos. Da sua criação, do seu estímulo, da sua cativação para as gerações futuras, da influência positiva que se pode — e deve — ter e exercer, percebendo, evidentemente, as areias movediças que caracterizam esta atividade, talvez como nenhuma outra relacionada com o futebol de alta competição.

É preciso ter vontade, e creio que ela existe da parte dos árbitros, das suas estruturas e dos seus dirigentes. Mas é preciso mais: é preciso que, do lado do público, a compreensão não se esgote quando a sua equipa ganha e, da parte dos media, a conveniência não se resuma a mais uns milhares de clickbites ou a uma vitória no campeonato das audiências.

Cartão branco

Luís Simões é, para a maioria, talvez desconhecido. Mas o competentíssimo responsável máximo pelo setor de desporto da Câmara Municipal da Mealhada, para lá do trabalho que desenvolve em prol do seu concelho, das respetivas infraestruturas e das mais-valias resultantes de uma invejável condição geográfica no mapa do território nacional (de que o Luso, com as condições únicas que oferece a equipas e atletas de alto rendimento, é a mais clara referência), é um estudioso do fenómeno desportivo noutras vertentes, como o turismo e o património. A terminar Doutoramento na área, na emblemática Universidade de Coimbra, Luís Simões será, seguramente, uma das referências nacionais na matéria, e muito útil no âmbito da organização da fase final do próximo Mundial de futebol, como consultor e especialista. O que, evidentemente, não é nada pouco…

A iniciar sessão com Google...