Meio milagre não bastou porque o outro meio não chegou (crónica)
Se era preciso um milagre para chegar ao segundo lugar, como José Mourinho foi repetindo quase até à exaustão, cedo o Benfica começou a fazer a sua parte. Grande pressão sobre os médios e defesas do Estoril, quase sufocante até, impedindo-os de ter bola e de sair de perto da área de Robles. Logo aos 40 segundos (!), as águias mostraram que queriam resolver bem rápido a sua metade do milagre: canto de Prestianni e Bah, de cabeça, a desviar rente ao poste esquerdo.
O Estoril não respirava. Limitava-se a tentar sobreviver. O Benfica, com Prestianni e Schjelderup endiabrados nas alas, ia anunciando o golo. E, aos 7 minutos, Prestianni metamorfoseou-se em Richard Ríos e abriu, longuíssimo, da esquerda para a direita, onde estava Schjelderup. O norueguês da primeira metade da época teria perdido a bola na luta com Ricard Sánchez, mas quem recebeu a bola foi o norueguês da segunda metade, que arrancou, mudou da terceira velocidade para a quinta em menos de um piscar de olhos, cruzando bem rasteiro para a pequena área, onde surgiu Ríos, metamorfoseado no Pavlidis da primeira metade da época, que encostou e fez golo.
Demorou sete minutos o primeiro golo e até poderia ter demorado bem menos, tal a avalancha atacante do Benfica. Logo de seguida, Prestianni fura, como se fosse uma broca, médios e defesas estorilistas, fica na cara de Robles, mas permite que o guarda-redes espanhol desvie pela linha de fundo.
Não havia pausas, não havia quebras, não havia Estoril. Havia apenas Benfica e uma velocidade estonteante, dribles e fantasia, misturados com uma tremenda pressão encarnada. E, entre os 15’ e os 16’, dois golos: Bah e Rafa, 3-0 antes dos 20 minutos. Algo que o Benfica não conseguia há já muito tempo.
O ritmo, então, abrandou. Talvez na sequência de o Sporting ter marcado um minuto antes do golo de Rafa e, assim, o Benfica ter voltado ao 3.º lugar da Liga, de onde saíra entre os minutos 7' (golo de Ríos) e 15’ (1-0 do Sporting).
Só pouco depois da meia hora o Estoril voltou a respirar sem taquicardias. Begraoui entra pela direita e remata, à entrada da área, após Pizzi ter recuperado a bola e lançado o marroquino. O remate deste, porém, foi relativamente frágil e Trubin defendeu sem dificuldade. Até ao intervalo, o Benfica viveu dos rendimentos de três golos e descansou. Meio milagre estava consumado, com classe, mas de Alvalade vinham más notícias: 2-0 para o Sporting.
O segundo tempo começou quase como começara o primeiro: com o Benfica perto do golo. Rafa, logo aos 46’, esteve perto do quarto do Benfica e do seu segundo. Porém, durou pouco, pois o Estoril, mais descontraído e menos pressionado, começou a ter mais bola e a andar mais perto da área de Trubin, ficando o jogo muito mais dividido.
Pedro Amaral (51’) ameaçou, Schjelderup fez o mesmo (54’), mas foi Prestianni (57’) quem mais perto andou do golo, rematando rente ao poste direito de Robles. Até que, aos 59’, surge o momento emocionante do jogo, com Pizzi a deixar o relvado no último jogo da carreira, com os jogadores de ambas as equipas a fazerem uma guarda de honra. Luís Miguel Afonso Fernandes, 36 anos, bem mereceu a homenagem.
Até ao final, enquanto os benfiquistas esperavam boas notícias de Alvalade (que nunca chegariam), o jogo ficou ainda mais partido, sobretudo a partir do momento em que Ian Cathro e José Mourinho começaram a mexer nos onzes: Lacximicant por Peixinho; Prestianni e Rafa por Lukebakio e Leandro Barreiro.
Foram mesmo dois dos que entraram que estiveram perto de marcar: Peixinho (71’ e 73’) e Lukebakio (72’, 74’ e 82’). E Peixinho, aos 90+1’, ainda reduziria para 1-3, com um grande golo, num remate de pé esquerdo, à entrada da área. O Estoril dos primeiros 15 minutos não merecia o golo, mas o da segunda parte mereceu-o.
O apito final de Miguel Correia ditaria o 3.º lugar do Benfica e o 10.º para o Estoril. Os encarnados terminam a Liga sem derrotas, sim; com muitos empates, sim; sem os muitos milhões da Liga dos Campeões, igualmente sim.