Gianluca Prestianni (Benfica): 8 golos em 10 jogos - Foto: Imago
Gianluca Prestianni (Benfica): 8 golos em 10 jogos - Foto: Imago

Sê muito bem-vindo Prestianni

Prestianni teve de fugir da sua Ciudadela fortificada e em Lisboa, ao som de Gardel, provou que a vida, como o tango, não se dança ao ritmo dos mais apressados. Eu sou o Jorge Pessoa e Silva e esta é a crónica semanal do Desassossego

Há tangos que foram escritos para algumas vidas. «O viajante que foge, mais tarde ou mais cedo, detém o seu andar», canta Gardel. Seria este o verso do tema Volver que escolheria na banda sonora do atual momento de Prestianni. Fuga decidida a 30 de julho de 2023 quando foi ameaçado de morte e agredido pelos Barra Bravas, os ultras do Vélez. Tinha apenas 17 anos, ele que com 16 anos, 3 meses e 22 dias se tornara o jogador mais jovem a estrear-se na equipa principal.

Não há lugar mais desconfortável para sentirmos medo do que a própria casa, pelo que a proposta do Benfica era muito mais do que a oportunidade de jogar na Europa. Era o plano de fuga para se poder concentrar apenas em cumprir-se enquanto pessoa e profissional. Para trás ficou a Ciudadela, nos arredores de Buenos Aires. Onde se chega pela avenida General Paz, nome irónico para um futebol e clubes tantas vezes em guerra civil. Uma cidade cujo nome nasceu das antigas fortificações militares que lhe deram a aparência de uma pequena fortaleza. Erigida para fazer frente aos ingleses há mais de um século. Mas as fortalezas já não o protegiam.

Durante algum tempo, Prestianni parecia minguar dentro da camisola do Benfica. O empréstimo ou a venda chegaram a estar em cima da mesa. Esteve mesmo com um pé de fora. Mas as carreiras dos jogadores são comos os tangos que raramente respeitam a pressa de quem os escuta. E Prestianni ficou. A história parecia escrita cuesta abajo, mas os tangos de Gardel sabem que nenhuma viagem termina necessariamente onde começa. O viajante, «tarde ou cedo, detém o seu andar».

Volver continua a ser a banda sonora da vida de Prestianni. Não voltou à Ciudadela, nem ao Vélez, nem à Argentina. O seu volver aconteceu dentro dele. Recuperou a confiança, ganhou corpo, aprendeu a esperar, percebeu melhor os ritmos da dança sem desaprender os passos do tango. O talento faz o resto. O futebol torna-se respiração. Prestianni joga e respira pela mesma razão: precisa de ambos para viver. Prestianni joga e respira com a naturalidade de quem não está a cumprir uma coreografia mas a dançar calesita no Bairro Núñez, Buenos Aires.

O menino de Ciudadela, a cidade-fortaleza, teve de atravessar um oceano para descobrir que também as muralhas podem cair. Teve de sair da Argentina, perder-se em Lisboa. E quando alguns lhe queriam colocar o rótulo de fracasso, percebeu que os rótulos nem sempre acertam o local onde estamos, muito menos nos dizem do caminho já feito e do caminho a percorrer. E Prestianni percebeu que talvez não precisasse de partir outra vez. É possível voltar sem sair do lugar.

Talvez quando agora estiver de novo na Ciudadela visite a igreja da paróquia de Nossa Senhora de Fátima. Ou a igreja da paróquia de Santo António de Pádua, fazendo-nos o favor de explicar que é Santo António de Lisboa. Talvez ele sinta que foi Lisboa que lhe permitiu sentir-se cumprido em Buenos Aires.

Prestianni é ainda um menino. Tem cara de menino, com borbulhas e faces rosadas. Já fez história, já foi agredido e já foi ameaçado de morte. Já lhe chamaram racista e andou nas bocas do mundo pelo que terá ou não dito a Vinícius Jr. Já esteve com a mala à porta e a sentença de flop. Agora, comove-nos pela alegria, talento e alma que deixa em cada minuto de jogo. A vida, de facto, não é uma linha reta.

Há jogadores que chegam cedo. Há jogadores que chegam tarde. E há aqueles que precisam de se perder antes de chegar. Bem-vindo Gianluca Prestianni.

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