O mestre do planeamento
Em finais de setembro, Frederico Varandas garantiu que Rui Borges era para continuar no Sporting. Um mês depois, o treinador está de saída e Paulo Fonseca é apontado como sucessor. Pelo meio, jornais e televisões entretiveram-se durante semanas com notícias sobre a continuidade do treinador, críticas ao seu trabalho e informações que iam tornando a permanência cada vez mais difícil.
Varandas, que renovara com Rui Borges até 2028, deixou correr. A confiança anunciada em público não chegou sequer a novembro, o que, para uma garantia presidencial, é um prazo de validade curto.
Segundo as notícias, Rui Borges sentiu-se traído quando percebeu que o presidente já mantinha contactos com Paulo Fonseca. E tem a sua lógica.
Tinha ganho títulos, renovado contrato e ouvido que fazia parte dos planos para o futuro. Enquanto preparava os jogos seguintes, descobriu que esse futuro estava a ser discutido com outro treinador. E ontem o Sporting disputou um jogo da Liga dos Campeões com um treinador interino. Uma situação difícil de conciliar com a imagem de organização e estabilidade que Varandas tanto gosta de cultivar.
Durante anos disseram-nos que no Sporting nada era deixado ao acaso, que as decisões chegavam sempre na hora certa e que Varandas era o modelo da gestão desportiva. Depois de Amorim sair para o Manchester United, vieram João Pereira, Rui Borges e, possivelmente, Paulo Fonseca. Três escolhas para o banco num clube que investiu cerca de 120 milhões de euros em reforços e perdeu vários jogadores importantes da equipa campeã.
Se Fonseca chegar, será o oitavo treinador da presidência de Varandas, contando com os interinos. Amorim ocupou quase cinco anos desse período, o que ajuda a perceber a rapidez com que os restantes passaram por Alvalade.
O mais extraordinário é que isto parece não levantar as dúvidas sobre o projeto desportivo que acompanham quase todas as mudanças de treinador no Benfica. Há comentadores capazes de passar semanas a explicar a falta de estratégia de Rui Costa e que, perante o Sporting, encontram sempre uma razão para justificar a decisão seguinte.
No Benfica, mudar de treinador é sinal de que não existe um projeto. No Sporting, é o projeto que exige mudar de treinador. A diferença não está propriamente nas decisões dos presidentes, mas na facilidade com que alguns comentadores mudam os critérios de avaliação.
Também seria interessante perceber por que razão as remunerações de Varandas despertam tão pouca curiosidade. O presidente viu o seu vencimento aumentar significativamente e os prémios podem elevar, ainda mais, o valor anual recebido. Experimentem imaginar Rui Costa a fazer o mesmo, depois de investir dezenas de milhões em jogadores e de trocar um treinador a quem tinha renovado contrato.
Rui Borges não era um treinador acabado de chegar a Alvalade. Foi escolhido por Varandas, ganhou o campeonato e a Taça de Portugal, renovou contrato e recebeu garantias públicas de continuidade. O presidente podia ter decidido mudar de treinador e assumido essa decisão perante quem contratou. Preferiu deixar que as notícias se acumulassem enquanto, segundo foi noticiado, procurava um substituto. A forma como este processo foi conduzido diz bastante sobre a gestão de Varandas e merecia uma discussão muito mais exigente do que aquela a que temos assistido.
No sábado, o Benfica realizou a sua Assembleia Geral. As contas foram aprovadas por 73,68% dos votos, com um resultado positivo de 23,9 milhões de euros. O clube continua a demonstrar vitalidade associativa e capacidade financeira, mas houve duas matérias nas intervenções de Rui Costa que considero particularmente importantes para o seu futuro: a relação com Pedro Proença e a centralização dos direitos televisivos.
Sobre Pedro Proença, Rui Costa deixou claro que o Benfica não está subordinado ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol.
O Benfica apoiou a sua candidatura, mas isso não obriga a concordar com todas as decisões que venha a tomar. Também considero acertada a opção de trabalhar nas instituições, apresentando propostas concretas para melhorar a arbitragem, em vez de alimentar uma guerra pública a cada jornada.
O Benfica já apresentou medidas sobre nomeações, avaliação dos árbitros e transparência do VAR. Importa agora que a Federação responda e que as mudanças deixem de ser sucessivamente anunciadas para começarem finalmente a ser concretizadas.
Quanto aos direitos televisivos, a centralização não pode fazer-se à custa do Benfica, responsável por uma parte muito significativa das audiências e das receitas do futebol português. Esperar que o clube aceite perder dinheiro para financiar uma distribuição mais favorável aos outros dificilmente terá apoio entre os benfiquistas. Há quem veja nisto a defesa de um privilégio. Eu vejo a defesa daquilo que o clube vale e gera, e acho que Rui Costa fez bem em afirmar que está disposto a utilizar todos os meios para impedir um acordo que o prejudique.
Uma Liga mais competitiva interessa ao Benfica, mas a competitividade não se constrói penalizando quem mais contribui para o valor comercial da competição. O futebol português precisa de aumentar receitas, melhorar as competições e atrair público. Redistribuir o dinheiro que já existe não resolve, por si só, os problemas financeiros dos restantes clubes.
A centralização deve servir para valorizar o campeonato e criar condições para que todos possam beneficiar desse crescimento, respeitando a dimensão e o contributo de cada um. Rui Costa fez bem em deixar claro que o Benfica não aceitará qualquer modelo apenas para facilitar um acordo. O clube tem peso suficiente para exigir uma negociação que respeite os seus interesses e não deve abdicar dele.