Chivu (atual treinador do Inter), Ibrahimovic e Mourinho
Chivu (atual treinador do Inter), Ibrahimovic e Mourinho

Ibrahimovic lembra discurso de Mourinho: «'Agora vou mostrar a este idiota quem sou'»

Sueco deixou elogios ao treinador português, que comparou trabalho na Roma ao que desempenhou no FC Porto: «Pequeno milagre»

O novo documentário da Netflix sobre José Mourinho inclui um revelador episódio no Inter contado por Zlatan Ibrahimovic sobre a capacidade do treinador português para motivar os jogadores.

«Lembro-me de um jogo com a Atalanta, estávamos a empatar 2-2. No dia seguinte, eu ia receber o prémio de melhor jogador da Serie A. Ao intervalo, o José disse-me: 'Quando receberes esse prémio, devias ter vergonha. Devias dizer à tua mãe que não o mereces. Pela forma como jogaste na primeira parte, devias sentir apenas vergonha'», recordou o sueco, que acrescentou: «Fiquei de boca aberta e na segunda parte voltei ao campo com uma raiva competitiva impressionante. Pensei: 'Agora vou mostrar a este idiota quem sou'. Ele mudou a minha abordagem mental. É o número um na forma como entra na tua cabeça. Respeito-o porque ele sabia como me estimular.»

Zlatan Ibrahimovic bisou nesse jogo, que acabou com vitória do Inter, por 4-3, na última jornada da Serie A 2008/09. Além de melhor jogador, o sueco foi ainda o melhor marcador do campeonato italiano.

Vingança e triplete no Inter

José Mourinho esteve no Inter entre 2008 e 2010. Massimo Moratti, então presidente do Inter, recordou a sua determinação em contratar o técnico português: «Fiquei impressionado com o amor que o público tinha por Mourinho e decidi que tinha de o contratar, porque é um fenómeno». Apesar de uma primeira época em que o sonho da Liga dos Campeões foi travado pelo Manchester United, a equipa conquistou a Supertaça e o Scudetto.

O grande objetivo, no entanto, era a orelhuda. Segundo Javier Zanetti, Mourinho teve um plano claro e disse a Moratti: «Se contratarmos cinco jogadores, ganhamos a Liga dos Campeões». O presidente apoiou a visão do treinador. «Queria que se sentisse seguro e protegido, e, por isso, satisfiz o seu pedido», afirma Moratti. A transferência de Ibrahimovic para o Barcelona não só trouxe fundos, como também Samuel Eto'o para Milão.

O percurso na Champions foi épico. Nos oitavos de final, o Inter defrontou o Chelsea, e Mourinho viu o confronto como uma vingança pessoal contra o dono do clube, Abramovich. «Eu estava a jogar contra o Abramovich, não contra os rapazes do Chelsea. Era um desafio entre mim e ele. Sei o quanto ele amava o Chelsea e por isso queria vingar-me», recorda Mourinho, acrescentando: «O futebol pertence a pessoas como eu, os outros são apenas intrusos. O futebol é dos jogadores, dos treinadores e dos adeptos, e pertencer-nos-á para sempre». Um golo de Eto'o selou a passagem.

Eto'o a celebrar
Eto'o a celebrar

A meia-final contra o Barcelona de Guardiola foi o auge da resistência. A jogar quase todo o encontro em inferioridade numérica em Camp Nou, o Inter defendeu a vantagem da primeira mão. Ao intervalo, a mensagem de Mourinho foi clara: «Disse-lhes que não se tratava de um jogo, mas de resistir a uma guerra, a um cerco». O treinador descreve o momento como «tribal». «Sofre-se e dá-se tudo. E nós fizemo-lo até ao fim. Foi um jogo belíssimo, um momento épico, mágico», conta. Mourinho revela ainda o que disse a Guardiola e Ibrahimovic durante o jogo: «Vencer assim, em superioridade numérica, é fácil. Mas não vão vencer.»

A glória máxima chegou na final contra o Bayern, mas a vitória já tinha um sabor a despedida. «Já tinha decidido ir embora. Queria vencer em países diferentes e queria sair porque queria o Real Madrid», confessa Mourinho. O clube espanhol chegou a pedir-lhe que assinasse o contrato antes da final, mas o técnico recusou por respeito ao Inter. Após a conquista do Triplete, Mourinho não regressou com a equipa para os festejos em San Siro, ficando em Madrid. «Fugi das minhas emoções. Se tivesse entrado naquele avião, teria continuado a ser nerazzurro, e não queria, porque já tinha decidido. O meu trabalho no Inter estava terminado.»

«O que fiz no Porto no início da minha carreira, repeti na Roma»

José Mourinho recordou a sua passagem pela Roma, onde afirma ter sido feliz e ter alcançado um «pequeno milagre» com a conquista da Liga Conferência. O técnico português estabeleceu um paralelo entre o seu trabalho no FC Porto e a sua experiência na capital italiana.

«O que fiz no Porto no início da minha carreira, repeti na Roma há três anos», afirmou Mourinho, sublinhando a importância do afeto que sentiu no clube. «Sabia que ali nunca poderia ganhar a Champions, mas senti-me profundamente amado e a vitória na Conference foi um pequeno milagre. Pequeno, claro, porque os grandes milagres só Jesus Cristo os faz», confessou.

Mourinho destacou ainda a sua filosofia de trabalho, focada em atingir metas realistas. «No meu trabalho, os objetivos estão ligados ao potencial e eu alcanço esses objetivos. A minha carreira deu-me o direito à felicidade e em Roma fui feliz», acrescentou.

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