O Mourinho mais polémico: do 'Spygate' original ao caso Eva Carneiro
Mourinho nunca foi homem de deixar o futebol acontecer apenas dentro das quatro linhas. A obsessão pelo detalhe, a preparação ao milímetro e a capacidade de procurar vantagem onde outros não a viam acompanharam-no ao longo de toda a carreira — e o novo documentário da Netflix recupera dois episódios que ajudam a explicar essa faceta do treinador português.
Na primeira temporada de Mourinho no Chelsea, em 2004/2005, os jogadores terão sido surpreendidos quando, antes de um encontro com o Bolton, apareceu no ecrã do balneário uma gravação de um treino do adversário. John Terry, capitão dos blues, ficou incrédulo ao ver imagens da sessão orientada por Sam Allardyce.
«Lembro-me de que íamos jogar com o Bolton e, no ecrã, estava o treino do Bolton do dia anterior. E o Big Sam [Allardyce] estava a dizer: 'Atinjam o Gallas, ele não é muito bom no jogo aéreo' e estava a cuspir no microfone», conta Terry no documentário Mourinho, sobre a carreira do técnico luso.
«Foi simplesmente... uau. Quem é que consegue imagens do campo de treinos de alguém? Na verdade, ainda não sei onde é que ele conseguiu aquelas imagens.»
A história ganha particular curiosidade agora, depois do polémico caso envolvendo o Southampton e o Middlesbrough, que levou os saints a serem expulsos da final do play-off do Championship por terem espiado treinos do adversário. Mourinho, afinal, já tinha recorrido a métodos semelhantes duas décadas antes.
«Eva Carneiro? Uso o meu vocabulário quando não estou feliz»
Mais de uma década depois do episódio de espionagem, Mourinho voltaria a estar no centro de uma polémica no Chelsea. Desta vez, a protagonista seria Eva Carneiro, então médica do clube, num episódio ocorrido diante do Swansea, em 2015/16.
Mourinho ficou furioso quando Carneiro e o fisioterapeuta Jon Fearn entraram no relvado para assistir Eden Hazard, que estava caído. O treinador considerou a intervenção «impulsiva e ingénua» e afastou a médica das funções junto da equipa principal. A brasileira acabaria por sair do Chelsea e avançou com um processo em tribunal, alegando que o treinador a discriminou sexualmente e a insultou, chamando-lhe «filha da p*».
Onze anos depois, Mourinho revisitou o episódio no documentário, mas sem pedir desculpa: «Portanto, como sempre, uso o meu vocabulário quando não estou feliz. Há palavras em momentos em que a tensão é muito, muito alta. Normalmente, as pessoas com cultura de futebol, com ADN de futebol, com historial no futebol, ultrapassam isso num segundo. Nesse caso, foi diferente.»
«Não sou médico, mas os meus olhos sabem quando um jogador está lesionado e sabem quando um jogador não está lesionado», acrescentou.
John Terry voltou a surgir como testemunha da versão de Mourinho. «Medicamente, ele dizia que, a menos que fosse algo muito, muito grave, eles [os médicos] não entravam», explicou o antigo capitão, classificando o episódio como «um momento importante» e lembrando a pressão que provocou no clube.
O Chelsea acabaria por pedir desculpa publicamente a Carneiro e à sua família, enquanto o acordo alcançado posteriormente entre as partes permaneceu confidencial. Mourinho, porém, manteve a sua versão.