Hugo Viana como peça-chave: o plano do Manchester City para o pós-Guardiola
Apesar da crescente incerteza sobre o futuro de Pep Guardiola, o Manchester City demonstrou, no mercado de janeiro que agora encerrou, que o seu poder de atração permanece intacto. As contratações de Antoine Semenyo e Marc Guéhi, por um valor combinado de 97 milhões de euros, são um sinal de que o clube está a preparar-se para uma nova era, mantendo a sua força no mercado de transferências.
A transição é um cenário temido por qualquer clube, especialmente um tão vitorioso como o City tem sido nos últimos anos. No Etihad, os sinais de evolução são claros: dentro do relvado, saíram figuras como Kevin de Bruyne, Kyle Walker e Ederson, enquanto na estrutura diretiva, o diretor desportivo Txiki Begiristain deu lugar a Hugo Viana.
O maior ponto de interrogação, contudo, paira sobre o treinador. Embora o catalão tenha contrato por mais 18 meses, até junho de 2027, após ter renovado em novembro de 2024, a BBC Sport escreve que existe uma «incerteza tangível» sobre se o técnico cumprirá o último ano do seu vínculo. A expectativa é que uma decisão seja tomada no final da presente temporada, sendo extremamente improvável uma nova renovação, apesar de não estar completamente descartada.
Apesar de o clube considerar os rumores de uma saída este ano como mera especulação, e de Guardiola, de 55 anos, afirmar publicamente que adora trabalhar nos citizens, tudo aponta para que se esteja no início do fim da sua era em Manchester.
O histórico vitorioso e o currículo invejável de Guardiola têm sido trunfos fundamentais para atrair jogadores. Contudo, o clube já não pode depender tanto desse fator. As recentes contratações, tanto do extremo do Bournemouth como do central do Crystal Palace, são prova disso. Ambos os jogadores, cobiçados por vários gigantes europeus, optaram pelo Manchester City, assinando contratos de longa duração, plenamente cientes de que a maior parte do tempo poderá ser passada sob o comando de outro treinador.
Antoine Semenyo, de 26 anos, tinha uma cláusula de rescisão de 75 milhões de euros nos cherries e era alvo de Manchester United, Chelsea e Tottenham, com o Liverpool também atento. O avançado deu prioridade a uma mudança para o City e firmou um vínculo duradouro, até 2031.
Já Guéhi, em final de contrato com o Crystal Palace, era ainda mais pretendido. O defesa internacional inglês e ex-capitão dos eagles tinha o interesse concreto de Bayern, Inter e Atlético Madrid para uma transferência a custo zero, além de ser seguido por Real Madrid, Barcelona, Liverpool, Arsenal e Tottenham. A sua escolha recaiu, mais uma vez, sobre os citizens.
Segundo a BBC, os clubes rivais têm usado a incerteza em torno do treinador para tentar dissuadir jogadores de se mudarem para o Etihad, sugerindo um declínio pós-Guardiola. No entanto, a proposta do City continua a ser uma das mais competitivas.
Capacidade financeira e sucesso dentro do campo são trunfos difíceis de superar
É inegável que a capacidade financeira do clube, um dos que melhor paga na Europa, foi um fator importante. Ainda assim, é de notar que, no caso de Semenyo, a oferta do Tottenham era financeiramente mais lucrativa. A decisão dos jogadores demonstra que o projeto do Manchester City continua a ser aliciante, mesmo com a iminente saída do seu treinador mais bem-sucedido.
A garantia de lutar pelos maiores troféus e a presença assídua na Liga dos Campeões têm sido fatores decisivos para o Manchester City atrair novos talentos. Fontes próximas de ambas as transferências indicam ao jornal britânico que o sucesso desportivo é o argumento central do clube, superando até as suas infraestruturas de ponta e ambições fora de campo.
Na sua abordagem a potenciais reforços, o City destaca o plantel de classe mundial já existente e o compromisso contínuo em recrutar jogadores de elite. A estratégia de renovar contratos com os seus melhores jogadores para garantir estabilidade, como o vínculo de 10 anos assinado por Erling Haaland no ano passado, é outro ponto forte. No fundo, o historial de troféus conquistados sob a propriedade do Abu Dhabi, mesmo antes da chegada de Pep Guardiola, é o seu principal trunfo.
A sucessão de Begiristain e o papel central de Viana
No meio das mudanças, uma figura permanece constante: o presidente Khaldoon Al Mubarak, no cargo desde 2008. Contrariando a ideia de que o trio espanhol composto por Guardiola, o CEO Ferran Soriano e o antigo diretor desportivo Txiki Begiristain geria o clube à distância, Al Mubarak continua a ser a peça central na tomada de todas as grandes decisões.
Será ele, juntamente com Hugo Viana, a comandar o processo de escolha do sucessor de Guardiola. Esta tarefa será, sem dúvida, a mais significativa para o português desde que a sua nomeação para o lugar de Begiristain foi confirmada em outubro de 2024, deixando o Sporting.
Substituir Guardiola será uma missão complexa, mas a sucessão de Begiristain, um dos executivos mais reputados do futebol mundial, não foi menos desafiadora para Viana. A transição foi facilitada pelo facto de Begiristain ter permanecido no clube para uma passagem de testemunho de seis meses, até ao verão de 2025. Fontes indicam que foi o próprio Begiristain quem escolheu Viana como seu sucessor.
A BBC destaca o percurso de Viana nos leões, considerando-o «notável»: «Ao lado de Ruben Amorim, que o próprio Viana nomeou treinador e que agora orienta o Manchester United, o dirigente de 43 anos ajudou a transformar uma equipa estagnada numa das mais dinâmicas da Europa. As contratações de Viktor Gyokeres, Morten Hjulmand e Pedro Porro foram consideradas exemplares em termos económicos, enquanto as vendas de Porro, Matheus Nunes, João Palhinha, Nuno Mendes e Manuel Ugarte renderam mais de 200 milhões de euros.»
Já no City, Viana e Begiristain trabalharam em conjunto na janela de transferências de janeiro de 2025, assegurando o ex-FC Porto Nico González, Abdukodir Khusanov e Omar Marmoush, um período considerado crucial para a integração do português. A contratação de Guehi por 20 milhões de libras, embora iniciada por Begiristain, foi executada por Viana, que começa a impor a sua autoridade.
O próximo verão adivinha-se particularmente agitado, com os contratos de John Stones e Bernardo Silva a expirarem, o que poderá ditar as suas saídas. A situação de Nathan Ake também é uma incógnita, tal como a de Manuel Akanji, Jack Grealish e Kalvin Phillips, todos atualmente emprestados a outros clubes.
No entanto, o futuro do clube do Etihad não está isento de incertezas. Pende sobre o City uma prolongada batalha legal relacionada com 115 acusações de alegadas violações das regras financeiras da Premier League, acusações que o clube nega veementemente. O desfecho deste caso poderá alterar significativamente o panorama do futebol inglês e a história do próprio clube.