Adeptos do Benfica aplaudiram a equipa após o empate em Tondela - Foto: Imago
Adeptos do Benfica aplaudiram a equipa após o empate em Tondela - Foto: Imago

Benfica: um desassossego

'Visão de golo' é o espaço de opinião semanal de Rui Águas, treinador e antigo avançado internacional português

É bem diferente encarar um novo desafio com a alegria no rosto e a confiança reforçada. Ganhar ao Real Madrid, e da maneira invulgar e apoteótica que foi, é muito diferente da apreensão que a derrota em Turim, naturalmente, provocou. Porém, o futebol é um desassossego constante e, em Tondela, muita coisa mudou. O onze escolhido por Mourinho nem por isso. Banjaqui só regressou por impedimento de Dedic e António Silva já se esperava que voltasse, pela sua garantida capacidade e pelo descanso que permite a Tomás Araújo, nesta altura o parceiro preferencial de Otamendi.

Quanto ao resto, tudo diferente. A relva é uma parte importante para que a qualidade técnica dos jogadores faça diferença. No caso, as equipas menos dotadas acabam por beneficiar e tirar partido das condições mais adversas em que se joga. A parte física passa a valer mais, equilibrando os duelos pela força e não tanto pela arte das equipas em confronto. Um Tondela trabalhador, agressivo e bem organizado viria a constituir um obstáculo que teve em Bernardo, o guarda redes da equipa, o seu inspirado expoente máximo. Ao contrário de outras equipas, o Tondela soube respeitar o espetáculo, não tendo sido o habitual antijogo a prevalecer, como vemos em muitas outras ocasiões.

O Benfica fez de tudo para vencer e o Tondela o mesmo fez para sobreviver. Não foi um jogo tecnicamente bonito, mas sim especialmente competitivo.

Mourinho vem optando por manter os seus dois jovens alas na equipa titular, porque a resposta destes tem sido boa. Esta solução tem permitido a Sudakov estender a sua qualidade enquanto coordenador do jogo ofensivo da equipa. Para que isto suceda, as costas do talento ucraniano são preenchidas pela eficiente e versátil dupla de médios, Aursnes e Barreiro, da qual o experiente técnico não tem prescindido. Com esta alteração inverteu-se o triângulo do meio campo, com o sacrifício inicial de Enzo ou Manu, jogadores mais posicionais. A verdade é que, mesmo não tendo ganho este último jogo, nem marcado, foram muitas as oportunidades criadas, mesmo em condições meteorológicas tão difíceis.

Velha manha lusa

Relativamente ao tema da relva e das visitas dos grandes, lembro-me que havia um mister ali para os lados da Reboleira (não é esse que estão a pensar...) que proibia os funcionários do clube de cortarem ou tratarem da relva na semana dos jogos caseiros com os grandes, para aumentarem as dificuldades dos craques visitantes.

«Quanto mais esburacado melhor», era a mensagem passada. Claro que era o tempo do vale tudo, e várias eram as manhas utilizadas. Pela antiguidade da história, mesmo sendo verdadeira, vou poupar a identidade do treinador em causa, até porque essa nem era das piores estratégias a que então se recorria. Talvez um dia volte ao assunto.

Pavlidis

É difícil não admirar o esforço e o rendimento de Pavlidis. É fácil perceber a importância que tem na equipa e o quanto ela depende de si. Neste momento, parece-me, Pavlidis não recuperou ainda a sua absoluta confiança depois do episódio do Dragão, seguido do escorregão em Turim.

A fase que atravessa afeta a sua normal convicção, perdendo para a insegurança e para a perda do timing das suas ações. Nos dois últimos jogos, com o Real Madrid e o Tondela, a espontaneidade do avançado grego tornou a não ser a mesma. O primeiro toque não está perfeito quando perto da baliza e o remate perde tempo e espaço. O remate de primeira também não é agora uma opção procurada. O esforço é o mesmo, ou até superior, mas a eficácia está em fase que importa inverter. Até os penáltis, em que era muito seguro e parecia infalível, vêm sendo convertidos com uma menor certeza.

A vida do goleador é o mérito do golo ser, normalmente, dividido com quem assiste ou até com quem recupera a posse de bola. A perdida flagrante não. É da sua exclusiva responsabilidade, algo que pesa no avançado e que temporariamente o diminui. Esta é uma realidade que faz parte, com a qual um atacante tem que lidar, lutando por repor o mais cedo possível a sua eficácia. Entretanto, os jogos não param e as exigências ainda menos. É quando o apoio dos verdadeiros adeptos se torna mais importante.

Real noite

É difícil retratar a noite europeia que se viveu na Luz. A qualidade e a personalidade da equipa do Benfica, naquele que era o jogo-chave, foram o orgulho de qualquer benfiquista.

A propósito, achei muito positiva e satisfatória a tolerância dos adeptos no final deste jogo em Tondela. O que, normalmente e infelizmente, resulta em insultos, quando não se ganha, transformou-se desta vez em aplausos, premiando muito justamente o esforço e não o indesejado empate. Bom exemplo dos seguidores da equipa, que seria bom estabilizar.

Voltando à noite de sonho, e ao final do jogo, foi absolutamente justa a homenagem pública ao comportamento de Courtois, à qual também Mourinho se juntou. As boas atitudes nunca são demais e devem ser promovidas, mas veem-se quase exclusivamente quando se ganha. Desta vez, o gigante belga, mesmo na derrota, vestiu a pele de Trubin, seu companheiro de posição tantas vezes incompreendida, abraçando o colega adversário pela sua inesquecível proeza.