Gareth Thomas foi casado com uma mulher antes de assumir a sua orientação sexual. IMAGO
Gareth Thomas foi casado com uma mulher antes de assumir a sua orientação sexual. IMAGO

Gareth Thomas: «Quem sabe quantos Ronaldos ou Beckhams se perderam por serem gays...»

Tornou-se o primeiro atleta de renome de um desporto coletivo a assumir a homossexualidade. Tem SIDA e faz maratonas e triatlos para combater o estigma, confessando que encontrou a paz depois de várias tentativas de suicídio

Gareth Thomas, a primeira grande estrela de um desporto de equipa a assumir a sua homossexualidade, esteve em Madrid para uma campanha de sensibilização sobre o VIH e falou abertamente sobre o seu percurso, tanto dentro como fora do campo, com o jornal AS.

O antigo jogador de rugby galês, de 51 anos, tem uma nova missão: consciencializar a sociedade sobre o estigma e o silêncio que rodeiam o vírus da imunodeficiência humana (VIH). Para tal, participou no domingo na Zurich Rock’n’Roll Series, onde completou a meia maratona em 1h40m, promovendo a campanha Placar o VIH, uma iniciativa em colaboração com uma farmacêutica.

Antes de se dedicar a esta causa, Thomas foi jogador de elite. Conhecido como um utility back, destacou-se pela sua versatilidade, jogando como defesa, ponta ou centro. Chegou a deter o recorde de 40 ensaios internacionais pelo País de Gales, cuja camisola vestiu por cem vezes, além de ter representado clubes como o Toulouse e os Cardiff Blues. Fez parte da equipa que conquistou o Torneio das Seis Nações com um Grand Slam em 2005 e integrou a digressão dos British & Irish Lions no mesmo ano.

Sentava-me bêbado na beira da piscina à espera de cair para a água e morrer afogado

Thomas recordou o primeiro pensamento quando recebeu o diagnóstico de que tinha SIDA: «Sou um produto do meu tempo, do local onde vivo, da escola que frequentei e das amizades que tive. E tudo o que sempre ouvi sobre o VIH é que é um vírus que mata. O VIH é um vírus que te leva à solidão e à tristeza. Foi tudo o que me ensinaram, por isso a primeira coisa que pensei foi que ia morrer».

O seu foco inicial foi proteger a família e os amigos «da vergonha» e «do silêncio».

O VIH é um vírus que te leva à solidão e à tristeza. Foi tudo o que me ensinaram, por isso a primeira coisa que pensei foi que ia morrer

O ex-atleta combate agora os mitos associados ao VIH, sublinhando que não se limita a grupos específicos. «A principal [mentira] é que é apenas um vírus que afeta homens gays e bissexuais e homens e mulheres negros africanos. É um vírus que pode afetar, e que de facto afeta, toda a gente. E por isso toda a gente se pode submeter a um teste», afirmou.

«Consegui esconder o que era procurando uma fórmula, que foi o desporto, o râguebi. Foi uma maneira de poder demonstrar a mim mesmo, mas sobretudo aos outros, que com as minhas diferenças sou capaz de fazer exatamente o mesmo que tu», explicou. Naquele ambiente, ser chamado de gay era um insulto reservado aos mais fracos ou lentos, o que o motivou a provar o seu valor no campo.

«Em equipas, nas quais dependes de alguém para ser a melhor versão de ti mesmo e outros dependem de ti para serem a melhor versão de si mesmos, não querer arruinar isso torna-se uma justificação para não contar às pessoas», confessou.

A ausência de futebolistas profissionais abertamente homossexuais é uma questão de lógica, segundo Gareth Thomas, que aponta a falta de um ambiente seguro como o principal obstáculo. O antigo jogador de râguebi galês defende que, enquanto não for possível garantir a um atleta que não será julgado ou alvo de cânticos ofensivos devido à sua orientação sexual, a situação não mudará.

«Se eu jogasse futebol agora, por que me colocaria na posição de ser potencialmente insultado todas as semanas durante 90 minutos?», questiona Thomas, sublinhando que tal ambiente hostil impediria qualquer jogador de se concentrar e render ao seu melhor nível. «Quem sabe quantos Ronaldos ou Beckhams se perderam por serem gays...» Para si, a solução passa por uma «política de tolerância zero à homofobia» por parte das organizações desportivas.

«Vivemos numa sociedade reativa. Se ocorre um incidente homofóbico num grande jogo de futebol em Madrid, aparece nos jornais e na televisão durante dois ou três dias e depois desaparece. Seis meses depois, acontece o mesmo incidente», lamenta. Segundo o galês, as tentativas de ser proativo e criar ambientes seguros são frequentemente ignoradas, com os ativistas a serem silenciados.

Thomas partilhou o apoio tardio que recebeu da União Galesa de Râguebi (WRU) quando assumiu a sua sexualidade. «Disseram-me: 'O que podemos fazer para te ajudar?'. Agradeci o interesse, mas, honestamente, não havia nada que pudessem fazer por mim naquele momento». O apoio, segundo ele, teria sido crucial no passado, «quando pensava em suicídio» por não saber como a sua identidade seria recebida. «Podiam ter feito algo para criar um ambiente que não me tivesse levado a pensar no suicídio», afirma. «Sentava-me na beira da piscina à espera de cair para a água e morrer afogado».