Steven Kitshoff revelou que chegavam a perder quatro quilos por dia. IMAGO
Steven Kitshoff revelou que chegavam a perder quatro quilos por dia. IMAGO

Springboks recordam «loucura» por causa da foto que valeu acusações de doping

Uma foto do melhor momento de forma da história da equipa sul africana de rugby causou tanta surpresa quanto boatos

Três jogadores da primeira linha dos Springboks recordaram o estágio de preparação para o Campeonato do Mundo de Râguebi de 2019 e a fotografia que se tornou viral, levando a acusações de que a equipa estaria a recorrer a doping.

Antes do torneio, os Boks foram notícia quando surgiu uma imagem da maior parte do plantel a posar em tronco nu, muitos deles exibindo uma condição física de topo e abdominais definidos. A fotografia foi tirada após um extenuante estágio de preparação liderado pelo então preparador físico Aled Walters, que atualmente trabalha com a seleção da Irlanda.

A imagem levou a que muitos sugerissem que os Springboks estariam a usar esteroides na preparação para o Mundial. A fotografia foi mesmo usada como imagem de destaque num artigo do Telegraph que criticava a quebra significativa no número de controlos antidoping na África do Sul. Além disso, a lenda do râguebi irlandês, Stephen Ferris, partilhou a imagem na rede social X (anteriormente Twitter), gerando comentários com seringas, GIFs de Lance Armstrong e sugestões de que os jogadores deveriam ser todos testados.

Em declarações ao podcast «For the Love of Rugby SA», Steven Kitshoff, Bongi Mbonambi e Trevor Nyakane refletiram sobre esse estágio e a dureza a que foram submetidos pela equipa técnica.

«Algo sobre 2019 de que ninguém fala é o quão dura foi aquela pré-época com o Aled Walters», começou por dizer Kitshoff, acrescentando: «Os rapazes perdiam três ou quatro quilos por dia!»

A afirmação provocou reações imediatas de Mbonambi e Nyakane. «Meu Deus», comentou o primeiro, enquanto o segundo acrescentou: «Os rapazes da primeira linha tinham abdominais definidos!»

Mbonambi continuou, elogiando o trabalho do preparador: «O Aled fez um belo trabalho. 2019 foi especial e, como disseste, a pré-época foi uma loucura absoluta. Foi brutal». Segundo os jogadores, a intensidade era tal que os atletas corriam para os banhos de gelo para recuperar, algo que normalmente evitam. «Os rapazes passavam mais tempo nos banhos de gelo do que no campo», recordou Kitshoff.

Nyakane corroborou: «Eles nem precisavam de nos pedir para entrar nos banhos de gelo. Nós corríamos para lá porque estávamos exaustos. Tínhamos perdido vários quilos só no treino e estávamos desidratados.»

Mbonambi acredita que o estágio foi um teste para ver quem cederia. «Acho que o Aled estava a tentar quebrar alguns. Estavam a ver quem cedia, quem ia desistir. E ninguém o fez», afirmou. «O melhor daquele grupo é que aguentámos firmes. Não foi agradável». Kitshoff acrescentou que aquilo «não foi bom para a saúde ou para o futuro».

O trio de bicampeões mundiais acredita que aquele período estabeleceu as bases para a cultura dos Springboks, com jogadores e equipa técnica a tornarem-se obcecados pela vitória.

«O que o Rassie [Erasmus], o Jacques [Nienaber] e toda a equipa técnica fizeram na altura foi desafiar-nos para ver se aceitávamos o desafio, e acabámos por vencer. Era essa a nossa mentalidade», explicou Mbonambi. «O Rassie trouxe essa cultura; tínhamos de ser obcecados por vencer. Se perdes, tens de ser profissional, aceitar e aprender com isso, mas a tua obsessão é vencer». Nyakane concluiu: «E é assim que se constrói essa cultura.»