As incongruências de Rui Costa
É verdade que já passaram uns dias, mas há palavras de Rui Costa que ainda ecoam no universo encarnado nas explicações sobre José Mourinho e Marco Silva. Não digo que o presidente do Benfica não se tenha preparado e comunicado com clareza sobre o que lhe foi perguntado, nem que também não me pareça importante dar o benefício da dúvida a um treinador que, além do excelente trabalho nos últimos anos, fez mais na determinação do rumo que quer para a equipa do que o líder: para Marco Silva, o Benfica tem de ser uma equipa dominadora. Rui Costa nem isso soube fazer. Primeiro com palavras, depois com decisões, que na maioria visaram precisamente o contrário.
O técnico deixou mais ou menos claro que só a partir da oficialização passou a alinhavar ideias com os encarnados, quando o presidente tinha dito o contrário e até afirmado mais: que o clube não tinha ficado parado sem treinador. Isto depois de ter sublinhado que Mourinho seria o timoneiro esta época se não se tivesse decidido pelo Real Madrid.
Primeiro, ainda não saiu nenhuma decisão da direção desportiva a não ser vender um jovem central, quando a equipa precisa de dois. Depois, mesmo que a anuência de um treinador seja importante, há jogadores que são transversais a qualquer um e a decisão pode e deve passar pelo clube. Sabendo-se da forte probabilidade de ser o último ano de Otamendi, as águias não fecharam um único negócio, nem como prevenção, ainda durante a temporada, nem depois da decisão do argentino. Para quem não esteve parado, disfarçou muito bem.
Por fim, Mourinho. Ainda que me pareça que não tenha sido bem assim, Rui Costa assumiu que o Special One iria ter mais um ano ou, pelo menos, começar a nova temporada. Só isso é preocupante. Revela falta de sensibilidade ou fraqueza na tomada de decisão para quem precisa de reforçar uma cultura vencedora que se tem esboroado nos últimos anos. É retirar responsabilidade da má época, que nem Liga dos Campeões garantiu, a quem se sentou no banco. E cujo fracasso, mesmo chegando a momentos de decisão onde costumava ser implacável, foi além da desculpa de sempre, a arbitragem, ou das de circunstância, o tal plantel que não teve à sua medida.
Rui Costa irá agora sentir que já fez o que era preciso e sair de cena, voltando para a sombra. Como sempre fez. À espera, pela enésima vez, que as coisas batam certo. Que Marco Silva sozinho consiga preencher tamanho vazio.