Mourinho funciona como um escudo no Benfica — Foto: IMAGO
Mourinho funciona como um escudo no Benfica — Foto: IMAGO

Sporting confia, Benfica duvida

Mercado de Valores é o espaço de opinião de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

Ao longo de uma época, todos os clubes enfrentam dificuldades. Os mais coesos, com um caminho bem definido, estão mais preparados para as adversidades. A forma como cada clube gere os problemas que surgem diz muito sobre a sua liderança e organização.

Sporting: copo meio cheio

O pós-Ruben Amorim não foi um processo fácil para o clube. O ex-treinador leonino tinha muita influência nos jogadores, na estrutura administrativa e nos adeptos. Comunicava de forma clara e era sempre muito convicto nas suas ideias. Teve o apoio da estrutura diretiva e conseguiu alcançar sucesso através das suas convicções. Nos últimos meses de Amorim, o Sporting praticava um futebol encantador, dominador e agressivo. Valorizou os jogadores e deixou saudade.

Por tudo isto, a transição não foi fácil. Rui Borges chegou num momento delicado, após a aposta em João Pereira não ter resultado. Ao longo destes 13 meses no Sporting, a missão de Rui Borges enfrentou muitos obstáculos, nomeadamente as inúmeras lesões com que teve de lidar. E como reagiu o técnico transmontano? Reagiu de forma positiva. Só o vimos abalado uma vez, depois da derrota com o Vitória para a Taça da Liga.

Apesar de perder constantemente jogadores importantes por lesão, Rui Borges sempre encarou as alternativas com confiança. Nunca as subestimou. Ao mesmo tempo, soube implementar as suas ideias com inteligência e naturalidade.

Hoje, o Sporting não joga como jogava com Ruben Amorim. Os méritos de Rui Borges estão à vista de todos: tem um plantel unido e confiante (onde todos têm oportunidades), joga um futebol ofensivo e dominador, valoriza os jogadores e a própria instituição. Tem muito mérito nos títulos conquistados (Campeonato e Taça de Portugal), assim como na forma como hoje o clube projeta a sua própria identidade, sem depender de Ruben Amorim ou Gyokeres.

Nos momentos difíceis, podia ter-se deixado dominar pelas dificuldades. Na realidade, preferiu valorizar aqueles que estavam disponíveis. Soube isolar o ruído à sua volta e concentrou-se no que podia controlar: o seu trabalho. Independentemente de quem joga, hoje os adeptos do Sporting vão a Alvalade confiantes, com a expectativa de ver uma equipa ofensiva, bem trabalhada e a praticar bom futebol.

Benfica: copo meio vazio

O contexto no Benfica não é fácil. Muitas decisões parecem ser tomadas sem grande lógica. Treinadores e jogadores chegam com grandes expectativas e saem quando surgem as dificuldades. A gestão do clube parece orientar-se pelos resultados, e não por convicções. Não há uma definição clara sobre o que o clube pretende.

Os treinadores são um bom exemplo dessa instabilidade. Os plantéis são criados com base num perfil de treinador que acaba por ser despedido nas primeiras jornadas. E o que se faz a seguir? A lógica seria contratar um treinador com perfil de jogo semelhante, mas isso não tem acontecido. O que os dirigentes do Benfica parecem procurar é um salvador.

Por exemplo, José Mourinho foi contratado exatamente com esse objetivo. Numa fase de grande instabilidade, Mourinho trazia aquilo que os dirigentes do Benfica queriam: alguém capaz de gerar — mais uma vez — enormes expectativas nos adeptos encarnados, com o slogan ‘Agora é que vai ser’.

Esta contratação deu a Rui Costa uma camada de proteção. Mourinho funciona como um escudo: atrai as atenções e protege aqueles que estão acima dele. Como resultado, Rui Costa venceu as eleições. Contudo, Mourinho traz também consigo outros elementos. Devido à sua dimensão e à ausência de liderança no clube, é Mourinho quem define o rumo. No plano desportivo, Mourinho adotou uma estratégia de desculpabilização. Fala constantemente sobre as lesões. Desvaloriza regularmente o plantel e as soluções disponíveis. Ignora aquilo que Rui Costa afirmou no início da época: que passou quatro anos a preparar um plantel de presente e futuro. Acaba por retirar confiança às segundas linhas. Chega a usar frases fortes, como: «Olhei para trás no avião e pensei que era treinador da equipa B.» Todas as estratégias são válidas, e cada treinador utiliza as suas.

Analisando este caso, o que Mourinho ganha ao desvalorizar constantemente as opções disponíveis na equipa? Por um lado, retira confiança às segundas linhas, que são fundamentais em muitos momentos da época. Por outro lado, apresenta publicamente uma justificação para o insucesso. Com esta estratégia, estará Mourinho a pensar mais nele próprio do que no clube?

Como referiu recentemente Mourinho, os momentos dos rivais influenciam, para o bem ou para o mal, o desempenho do Benfica. Retomo a frase em que Mourinho disse que se sentia como treinador da equipa B para analisar o FC Porto. Frente ao Vitória, com o jogo empatado, Farioli terminou a partida com um jogador de 17 anos, três de 19, um de 20 (que fazia anos nesse dia) e um de 21, e foi com estes jogadores em campo que o FC Porto acabou por vencer o Vitória. A diferença entre Farioli e Mourinho é que o treinador portista confiou e lançou os jovens num momento decisivo, enquanto Mourinho retira-lhes confiança antes do jogo e nunca os utiliza em momentos importantes.  

A valorizar: Matheus Reis
Não é um prodígio, mas é um jogador muito útil. Quando é necessário está à disposição na posição que o técnico pretende. Adapta-se bem ao que o treinador pretende e é um jogador competitivo.
A desvalorizar: Aves SAD
Ao fim de 19 jogos tem cinco pontos e já vai no terceiro treinador. As consequências das más decisões fora do relvado estão à vista de todos.