José Mourinho e o Benfica viveram noite inolvidável diante do Real Madrid - Foto: Imago
José Mourinho e o Benfica viveram noite inolvidável diante do Real Madrid - Foto: Imago

Uma semana épica

'Mercado de valores' é o espaço de opinião semanal de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

O que aconteceu esta semana foi verdadeiramente incrível. Não só acumulámos pontos importantes no ranking da UEFA, como as nossas equipas nos proporcionaram momentos memoráveis.

O regresso de Mourinho

No jogo frente ao Real Madrid, José Mourinho jogou em três campos. Em primeiro lugar, dentro do relvado, onde a vitória era essencial. Venceu, dominou e criou inúmeras situações de golo. Jogou em todo o terreno. Não se limitou a tentar vencer com o erro do adversário; pelo contrário. Provocou esses erros e criou desequilíbrios. Esta abordagem fez lembrar os primeiros tempos de Mourinho como treinador. A equipa esteve equilibrada, mas sempre com os olhos postos na baliza adversária.

Condicionou os principais jogadores do Real. Por exemplo, Vinícius esteve sempre bem marcado e nunca conseguiu ganhar um 1x1. No meio-campo, o Benfica manteve-se sempre muito compacto e agressivo, o que tornou o Real uma equipa previsível. Referi publicamente há algumas semanas que a lesão de Ríos poderia ter sido a melhor coisa que aconteceu ao Benfica. Não porque Ríos não tenha qualidade, mas porque, com a ausência de Ríos e de Barrenechea, Mourinho foi obrigado a mudar a sua forma de jogar.

Puxou Sudakov da esquerda para o meio, deu finalmente uma oportunidade a Schjelderup à esquerda e baixou Barreiro para a sua posição. A juntar a todas estas alterações, finalmente pudemos ver Aursnes a jogar no seu lugar com consistência. Estas pequenas alterações tiveram um impacto significativo na equipa. O Benfica transformou-se de uma equipa receosa numa equipa dominadora.

Sudakov cresceu e, nesta posição, mostra todo o seu potencial. Schjelderup, com mais minutos de jogo, demonstra que já deveria ter sido utilizado há mais tempo. O jogo de quarta-feira provou ainda que o Benfica sempre teve soluções dentro do plantel.

Na quarta-feira, ninguém falou dos jogadores lesionados, nem dos árbitros. Ninguém se lembrou da importância de ter extremos rápidos capazes de desequilibrar em velocidade. Ninguém se lembrou de tudo isso, simplesmente porque a equipa jogou em função das caraterísticas dos seus jogadores. Referi no início que Mourinho jogou em três campos. Já expliquei o primeiro.

O segundo refere-se à forma como esta vitória lhe devolveu créditos. Apesar da época dececionante, esta vitória colocou Mourinho, mais uma vez, aos olhos dos adeptos como a pessoa certa no lugar certo.

O terceiro campo foi o de estar nas bocas do mundo inteiro. Mourinho sabia que uma grande exibição seria amplamente comentada. Também sabia que uma grande exibição frente ao Real iria aumentar os ecos de um possível regresso a Madrid.

O que Mourinho não esperava era que Trubin desse o golpe final. Para o treinador português, esta foi a melhor forma de encerrar o jogo. Depois, a sua inteligência na comunicação e, sobretudo, a intuição na forma como festejou os golos acabaram por centrar muitas atenções nele.

Pelo contexto que o Benfica atravessa, pelo adversário em causa, pelo dramatismo do jogo e pela forma como terminou, este deve ter sido o melhor jogo no atual Estádio da Luz. Será, certamente, um dos mais memoráveis. Para Mourinho, foi a oportunidade de voltar a ser comentado por bons motivos.

As perguntas que ficam no ar são: qual dos dois Mourinhos teremos daqui para a frente? O receoso que se agarra a desculpas (dos últimos anos da carreira) ou o arrojado que se concentra nas soluções e comandou a equipa frente ao Real Madrid?

Rui Borges: simplesmente incrível

O Sporting está a realizar uma excelente temporada. É verdade que o clube está a sete pontos da liderança e foi eliminado — injustamente — da Taça da Liga.

Apesar disso, a qualidade de jogo dos leões tem sido notável. Rui Borges tem realizado um trabalho excecional. Não só fez esquecer Ruben Amorim, como também Gyokeres. A vitória em Bilbau, no último minuto, permitiu ao Sporting garantir um lugar entre os oito primeiros da Liga dos Campeões. Este percurso é ainda mais notável pela forma como Rui Borges teve de encontrar soluções num plantel fustigado por várias lesões de jogadores importantes e por ausências devido à CAN.

Se é verdade que o Sporting nem sempre fez grandes exibições, também é verdade que aproveitou as ausências para fortalecer a equipa.

Valorizou os jogadores e reforçou a sua confiança. Consolidou o seu plantel. Jogou sempre para vencer e tem mérito em criar, quase sempre, várias ocasiões de finalização.

Dentro do relvado, Rui Borges transmite mais confiança aos adeptos do que fora dele, ao comunicar. Não é que o técnico leonino comunique mal, mas não possui esse dom, e esta é a única área em que não faz esquecer Ruben Amorim.

O percurso do Sporting na Liga dos Campeões reflete o excelente trabalho do seu treinador. A vitória em Bilbau revelou-se difícil. Rui Borges identificou os problemas na primeira parte e alterou a dinâmica do jogo na segunda parte.

O golo de Alisson, no último minuto, garantiu a presença do Sporting nos oitavos de final da competição, com toda a justiça.

Desta forma, o Sporting evita disputar mais dois jogos em fevereiro, assegura os milhões da ida aos oitavos de final e valoriza jogadores, instituição e treinador.

FC Porto e SC Braga em destaque

Vale também destacar a importância da prestação de FC Porto e SC Braga na Liga Europa. Ambas as equipas garantiram a presença nos oitavos de final da competição. Tal como o Sporting, evitam disputar mais dois jogos em fevereiro e ajudam Portugal a consolidar o sexto lugar no ranking da UEFA. Tanto o FC Porto como o SC Braga têm possibilidades de ir longe e escrever história na Liga Europa.

A valorizar: Schjelderup
Finalmente, o avançado norueguês do Benfica está a ter oportunidades para demonstrar o seu valor. Com mais soluções, continuará a ser opção?
A valorizar: Alisson
O avançado brasileiro fez um golo fundamental para o Sporting (o da vitória em Bilbau). Tem sido importante no pouco tempo que tem jogado.