Hélder Barbosa disputa bola com Lionn, do Rio Ave

«Eu e o Ukra capotámos um carro e o Fernando Couto salvou-nos»

Antigo extremo recordou episódios de uma carreira que passou por clubes históricos do futebol nacional

Hélder Barbosa passou por alguns dos principais clubes do futebol português: FC Porto, SC Braga, Académica, Vitória de Setúbal. O canhoto deixou muito mais do que golos e assistências e, no 90+3, o antigo extremo abriu o livro de memórias e revelou episódios marcantes, entre o lado mais boémio do futebol, decisões de bastidores e momentos que podiam ter acabado em tragédia.

Um dos relatos mais insólitos envolve o FC Porto dos anos dourados. Hélder Barbosa descreveu o ambiente descontraído e pouco convencional que se vivia fora das quatro linhas: «O autocarro do FC Porto era a beber cerveja e a fatiar presunto.»

Um espírito de grupo forte, no qual as hierarquias também se sentiam. Sentar-se no lugar de Deco no balneário ou de Vítor Baía no autocarro não era propriamente bem visto.

O percurso levou-o depois a Coimbra, num empréstimo que começou com uma história improvável. «Cheguei à Académica de Porsche e o presidente pegou no meu carro para ir dar uma volta», contou, entre risos, mostrando o contraste entre a realidade do clube e o estatuto que trazia consigo.

No banco ou em campo, Hélder Barbosa sempre acreditou que o momento certo acabaria por chegar. Recordando a tal passagem pela Briosa, sob comando de Manuel Machado, explicou uma das suas frases mais marcantes: «Eu não ia jogar a bisca de trunfo sem sair o Ás». Uma metáfora para justificar a confiança de que, mesmo começando no banco, podia entrar e decidir.

As decisões de carreira nem sempre passaram apenas por ele. «O Pinto da Costa é que decidiu a minha ida para o Vitória [de Setúbal]», revelou, sublinhando o peso que o então presidente do FC Porto tinha no destino dos jogadores ligados ao clube.

No SC Braga, reencontrou Ukra, personagem central de várias histórias. A chegada do irreverente extremo à Pedreira foi descrita como um abanão de energia, com episódios caricatos.

«Eu e o Ukra capotámos um carro e o Fernando Couto salvou-nos», revelou Hélder Barbosa, numa das confissões mais fortes do podcast. O acidente envolveu um Bentley e podia ter tido consequências dramáticas. A intervenção de Fernando Couto foi decisiva para evitar algo pior.

Dentro de campo, o SC Braga viveu uma das fases mais marcantes da sua história europeia, culminando na final da Liga Europa. Barbosa recordou o percurso até à decisão e, em particular, o duelo frente ao Arsenal, deixando uma convicção que ainda hoje mantém: «Nós acreditávamos que podíamos ter ganho a Liga Europa.»

Entre histórias improváveis, houve também sacrifício. Uma delas aconteceu quando estava prestes a integrar a Seleção Nacional. Ao arrancar uma unha, acabou por desmaiar. Afinal, como o próprio sublinhou, «o ponto alto da carreira foi representar a Seleção».

Um testemunho cru, humano e revelador de uma carreira feita de talento, irreverência e episódios que ajudam a explicar o futebol para lá dos 90 minutos.