Já percorreram milhares de milhas atrás da Seleção neste Mundial. Alguns não falham um jogo desde o Euro-84!

Epopeia do bacalhau na Route 66: os heróis que conquistaram a América a ferro e asfalto

Fizeram milhares de milhas entre Miami e Houston com amuletos na bagagem e fé inabalável. Agora, o asfalto dá lugar às nuvens, mas a loucura portuguesa promete continuar a incendiar o Mundial em Toronto

MIAMI — Há quem diga que os portugueses já nascem com um mapa no bolso e uma insaciável fome de horizonte. Se houvesse alguma dúvida sobre essa matriz quase genética, bastaria tropeçar na imensidão do asfalto norte-americano, sob o calor abrasador do Texas, para perceber que a velha vocação dos descobridores continua viva, embora agora se meça em milhas aéreas e cilindradas mecânicas.

No epicentro desta loucura cénica, a reportagem de A BOLA encontrou um grupo de compatriotas que elevou o conceito de apoio à Seleção de Portugal a um patamar de mitologia urbana. Não são apenas adeptos; são operários da estrada, nómadas movidos a paixão e abastecidos por uma bagagem que desafia qualquer lógica alfandegária e bom senso.

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A viagem, contam com o orgulho típico de quem sobreviveu a uma tempestade de areia, começou muito antes do apito inicial em Miami, onde a equipa das Quinas encerrou a fase de grupos do Mundial com empate diante da Colômbia (0-0). Foi na Florida que montaram o quartel-general logístico, mas o verdadeiro teste ao cabedal e à paciência deu-se no asfalto liso e interminável da clássica Route 66 e das autoestradas interestaduais.

Entre Miami e Houston, cumpriram milhares de milhas num vai-vem frenético para acompanhar os dois primeiros compromissos da fase de grupos. Foram dias e noites de condução contínua, parando apenas para abastecer o motor e afinar a voz, num ziguezague geográfico que faria empalidecer o mais experiente dos camionistas norte-americanos.

Mas o que verdadeiramente impressiona nesta comitiva não é a quilometragem acumulada; é o ecossistema cultural que transportam consigo em cada paragem. Na mala do carro, lado a lado com os coletes e os cachecóis verdes e vermelhos, viaja a santíssima trindade da sobrevivência lusa no estrangeiro: o bacalhau seco, o vinho verde de eleição e os queijos curados da nossa praça.

Carlos Bruno (à esq.), o conhecido 'Açoriano' que acompanha a Seleção desde o Euro-84

Carlos Bruno, conhecido no submundo das caravanas de adeptos como «O Açoriano», exibe com indisfarçável vaidade as insígnias desta viagem. Tratam o bacalhau com o respeito que se deve a um amuleto sagrado. De resto, a superstição é clara e matemática: sempre que o fiel amigo é desfeito em petiscos nas vésperas de um jogo, Portugal não perde.

Já rendeu título europeu no passado e, juram a pés juntos, continuará a blindar a equipa de Roberto Martínez nesta caminhada por terras transatlânticas. É o aconchego da alma misturado com o misticismo patriótico de quem não esquece as origens. O percurso desta comunidade ambulante cruza-se com a própria história da Seleção.

Carlos Bruno, o veterano do grupo, é um arquivo vivo da dor e da glória do futebol nacional. Começou as suas andanças europeias no fatídico França-1984, onde viu a equipa cair nas meias-finais frente aos anfitriões na ressaca de um prolongamento dramático. Esteve no México em 1986, suportando o caos tático e a célebre greve de Saltillo, e desde então não falhou um único capítulo desta novela de paixões nacionais.

É essa sabedoria de quem já viu tudo que confere ao grupo uma serenidade quase mística, mesmo quando o cansaço aperta e as distâncias parecem intransponíveis. Para eles, o Mundial não é apenas um torneio desportivo; é uma paixão visceral e um ato de patriotismo puro.

Agora que o segundo lugar do Grupo K empurrou a Seleção Nacional para Toronto, no Canadá, a logística do grupo sofre uma mutação radical. O asfalto interminável, as bermas poeirentas e as estações de serviço do sul dão lugar às nuvens e aos cartões de embarque.

A viagem para os 16 avos de final contra a Croácia será feita de avião, uma concessão necessária à brutalidade do calendário e à tirania dos fusos horários. Mas o espírito, esse, permanece blindado contra qualquer descida de temperatura.

O bacalhau irá na bagagem de porão, o vinho será comprado onde for possível e a loucura lusa promete invadir o Canadá com a mesma intensidade com que conquistou o betão do Texas e o sol da Florida. Ao despedir-se da nossa reportagem, o grupo solta um grito uníssono de «Portugal!, Portugal!, Portugal!» que ecoou pelas ruas de Houston e Miami, contagiando os locais que assistem, entre o espanto e a admiração, a esta explosão de cor e alegria.

É o toque final de uma tertúlia que começou na berma da estrada e promete só terminar na grande final de Nova Jérsia. Se Portugal tiver dúvidas ou angústias no caminho, então que pare para escutar estes homens do asfalto: para quem viaja com o coração na boca e o bacalhau na mala, não há impossíveis no horizonte!

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