Este Real Madrid tem uma atração pelo abismo... menos um (crónica)
O futebol tem esta beleza de encontrar caminhos que poucos vislumbram, como se fosse uma permanente caixinha de surpresas: quem tivesse visto a primeira parte do Elche-Real Madrid ficaria com a clara impressão de que eram duas equipas separadas por muito mais que uma tabela classificativa quase inteira (os blancos segundos a contar de cima, a formação dirigida por Martin Anselmi segunda a contar de baixo): o jogo foi tão desigual que poucos esperariam uma queda abrupta daqueles que eram (são) superiores.
Começando pelo início - mesmo no início: no primeiro minuto de jogo já a formação de José Mourinho (sem Bernardo Silva no onze e com cinco alterações face ao encontro diante do Rayo Vallecano) beneficiara de duas oportunidades claras, uma desperdiçada por Mbappé, outra por Vinícius Júnior. A facilidade com que as chances de golo apareciam devia-se a dois motivos: intensa pressão alta do Real e muita ingenuidade nas saídas de bola do Elche.
Talvez por parecer tão fácil, o desperdício foi automático e o primeiro golo foi na realidade um autogolo, na sequência de um livre superiormente cobrado por Arda Guler que bateu no interior do poste esquerdo e posteriormente na mão do guarda-redes, desviando-se para o fundo da baliza - diga-se em abono da verdade que o turco não merecia ficar assim riscado da ficha de jogo, a execução roçou o sublime.
Tanto desperdício, Vini
O golo tornou o jogo ainda mais desequilibrado, à exceção da finalização. Vini Jr colecionou perdidas (só a falta de concentração pode explicar tanto erro) e não teve razões de queixa das muitas vezes em que os colegas deixaram-no em zona de golo.
Mas o talento individual é tão abundante neste conjunto que a enxurrada daria frutos: beneficiando da linha defensiva subida do Elche, Diomande foi lançado por Valverde e assistiu Mbappé para o 2-0, com o francês a chocar com o guarda-redes e a sair tocado.
À saída para o intervalo a sensação era de que tinha decorrido um jogo de treino. Uma super equipa que tinha passado 45 minutos num aquecimento e com dois golos pelo meio.
O início do segundo tempo não divergiu: oportunidades em série que não conheciam o remate final adequado. Mourinho, percebia-se, estava irritado, este seria daqueles jogos para golear por números pouco usuais. Mas a displicência dos merengues associada às melhorias implementadas por Anselmi com as mexidas que foi fazendo trouxeram à memória a velha máxima de quem não marca... (o resto já se sabe).
E o Elche lá marcou, num bom golo de Osorio, após ótimo trabalho na esquerda de Cepeda - e com Diomande a marcar com os olhos. De repente, tudo ficava em aberto: aos 71 minutos, todos os sonhos são possíveis. E depois de novo contra-ataque mal conduzido por Diomande e Mbappé, a formação de Martim Neto (mas já sem o médio formado no Benfica no onze) chegou ao empate, após uma ótima jogada coletiva na área concluída com remate cruzado de Niño que passou por entre as pernas de Valverde.
Aos 83', o Real Madrid entrava em choque. Numa das partidas mais fáceis do ponto de vista da criação de oportunidades, a possibilidade de perder pontos parecia um sacrilégio. Melhor, um escândalo.
Então, Mourinho optou pela substituição que ameaça tornar-se um clássico em 2026/27: entrou Espi, o ponta de lança que veste o fato de bombeiro. E aos 90+1', quatro minutos depois de subir ao relvado, beneficiou de muita coisa: do espaço que o Elche continuou a dar nas costas da defesa, da generosidade que desta vez Mbappé teve e do instinto goleador que fazem do ex-jogador do Levante uma joia que deve ser mantida numa caixa forrada do mais fino veludo. Mas que não apaga um problema que parece estar enraizado neste Real Madrid - uma enorme atração pelo abismo.
Recorde aqui o filme do jogo
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