Espiada por Pequim e reformada aos 16: a rebelde que voltou para mudar a arte de patinar no gelo

Alysa Liu abandonou a modalidade de forma chocante na adolescência, foi alvo de perseguição política por parte da China e regressou agora para conquistar o ouro e provar que há vida — e vitórias — para lá da ditadura do peso e da idade

O mundo do patinagem artística costuma ser um carrossel cruel de crianças-prodígio que brilham intensamente e desaparecem antes de poderem conduzir um carro. Alysa Liu parecia destinada a ser apenas mais um nome nessa lista de estrelas cadentes. Mas a norte-americana, filha de um refugiado político chinês, decidiu escrever o seu próprio guião. Hoje, aos 20 anos, Alysa não é apenas uma campeã; é o símbolo de uma revolução que devolveu a humanidade ao gelo.

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A história de Alysa começou com recordes que desafiavam a lógica. Aos 13 anos, tornou-se a mais jovem campeã dos Estados Unidos de sempre, batendo o recorde de Tara Lipinski. Foi a primeira mulher do seu país a aterrar um triplo Axel e um salto quádruplo na mesma prova. Tinha o mundo aos seus pés, mas o gelo estava a tornar-se demasiado frio.

Em 2022, após conquistar o bronze no Mundial e com apenas 16 anos, Alysa soltou a bomba: retirava-se. «Já alcancei os meus objetivos. Agora quero saber o que é a vida fora do ringue», disse na altura. O mundo desportivo ficou em choque. Como podia a maior esperança do Ocidente desistir quando estava no topo?

O fantasma da espionagem

Mas por trás da patinadora de sorriso fácil escondia-se um drama digno de um filme de James Bond. Enquanto Alysa treinava para os Jogos Olímpicos de Pequim, o FBI revelava uma teia de espionagem e assédio por parte do governo chinês. O alvo? Alysa e o seu pai, Arthur Liu, um antigo líder estudantil das manifestações de Tiananmen que fugiu para os EUA.

A China não perdoava o passado do pai e via no sucesso da filha uma ameaça ou uma oportunidade de coação. Alysa competiu sob a vigilância cerrada de espiões e a proteção constante de segurança federal. A pressão era desumana. A reforma aos 16 anos não foi apenas cansaço físico; foi um grito de liberdade contra um sistema que a tentava controlar por todos os lados.

O hiato durou dois anos. Alysa foi para a faculdade, viveu como uma jovem comum e curou as feridas da alma. Mas o bichinho da competição não morreu. O seu regresso, já perto dos 20 anos, foi recebido com ceticismo. Na patinagem feminina, os 20 anos são vistos como a «terceira idade» devido ao domínio das adolescentes russas e chineses, muitas vezes impulsionadas por métodos de treino (e não só) questionáveis.

Alysa Liu voltou diferente. Mais forte, mais expressiva e, acima de tudo, dona do seu destino. O ouro que conquistou recentemente não foi apenas uma medalha; foi uma lição de longevidade. Ela provou que uma mulher adulta pode competir e vencer as bonecas de porcelana que dominavam a modalidade.

Alysa mudou o paradigma: a patinagem não precisa de ser um sacrifício de infância, mas pode ser uma carreira de maturidade. A jovem rebelde que Pequim tentou vigiar e o sistema tentou esgotar está de volta. E o gelo, finalmente, parece estar a derreter perante o seu coração quente.