Vinícius Jr. e Prestianni, avançados de Real Madrid e Benfica (foto: Imago)
Vinícius Jr. e Prestianni, avançados de Real Madrid e Benfica (foto: Imago)

Benfica tem silêncio como pior aliado

'A bola é redonda' é o espaço de opinião semanal do jornalista Nélson Feiteirona

Tentei encontrar um tema diferente para esta crónica, mas o que aconteceu no Benfica-Real Madrid, jogo da Liga dos Campeões, tornou‑se impossível de colocar em segundo plano.

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O caso entre Prestianni e Vinícius Júnior assumiu proporções gigantescas e graves, expondo mais uma vez o problema do racismo no futebol. Fingir que nada se passou, ou que o que se passou não é sério, seria enterrar a cabeça na areia. Infelizmente, casos de racismo continuam a acontecer com frequência não só no desporto, mas em todos os setores da sociedade. Concordo inteiramente com Pep Guardiola, treinador do Manchester City, que defende uma transformação que comece na educação e na empatia. «Paguem mais aos professores», disse ele — e com razão.

Mas voltemos ao centro da polémica: este é um caso grave que, também pela dimensão dos envolvidos — Vinícius Júnior, a UEFA, e o Benfica de José Mourinho —, tem repercussões globais. A verdade é que alguém está a mentir ou houve um enorme equívoco. Ou Vinícius ouviu mal o que Prestianni disse, ou Prestianni proferiu realmente um insulto racista. De qualquer forma, não há alternativa clara para os clubes: o Real Madrid defenderá o seu jogador até ao fim, e o Benfica fará o mesmo. Cabe à UEFA garantir uma investigação rigorosa e consequente, como exige um tema desta gravidade. Independentemente do desfecho, o gesto de Prestianni — tapar a boca com a camisola para esconder o que disse — é lamentável. Quando é que acabará este hábito ridículo de jogadores e treinadores taparem a boca, como se não estivéssemos a falar de adultos capazes de assumir o que fazem e dizem?

Há um atleta que se diz vítima de racismo, e isso basta para que o debate mude de patamar. Ninguém conhece a fundo a história pessoal de Vinícius; por isso, não devemos nunca desvalorizar o que aconteceu. Não conheço Prestianni, mas não acredito que seja racista. No entanto, um ato racista, mesmo isolado, merece punição. E se se comprovar que as palavras foram mal‑interpretadas, também isso precisa de ser explicado com transparência e humanidade. A forma como o Benfica geriu o tema foi, na minha opinião, pouco sensível — tanto em relação à gravidade do assunto como ao jovem Prestianni, de apenas 20 anos e com uma carreira inteira pela frente.

As declarações de José Mourinho e o comunicado oficial das águias ficaram aquém do momento. O Benfica deve humanizar mais a abordagem. Uma intervenção clara de Rui Costa, o presidente do Benfica, poderia ter mostrado de forma mais inequívoca que o clube não tolera, nem permitirá, qualquer forma de racismo.

O Benfica deve humanizar mais a abordagem

Caso o erro tenha sido de Prestianni, o caminho correto é evidente: assumir, pedir desculpa e aprender. O futebol profissional é exemplo — e quando se trata de racismo, não há espaço para ambiguidades. Para Vinícius, para Prestianni, e para todos os que ainda hoje sentem esta ferida aberta no desporto mundial (e não só), este episódio deve servir de lição e mudança.