Benfica: uma semana de pesadelo
Há momentos em que um clube tem de escolher entre proteger um jogador e proteger os seus valores. É nesses momentos que se percebe a verdadeira dimensão de uma instituição.
Há coisas mais importantes do que resultados desportivos, do que a valorização de ativos ou do que a evolução financeira.
Num contexto de pressão mediática permanente, as grandes instituições têm de saber que há linhas que simplesmente não podem ser pisadas. Um alegado insulto racista, como o que terá ocorrido no jogo entre o Sport Lisboa e Benfica e o Real Madrid, extravasa a dimensão competitiva. Nestes momentos, os valores têm de se sobrepor ao rendimento, à proteção de um ativo ou à gestão do ruído mediático.
Prestianni não esclareceu
Prestianni foi acusado de proferir um insulto racista a Vinícius Júnior. O jogo esteve interrompido durante vários minutos e foi acionado o protocolo da UEFA para estes casos. A pressão aumentou e os olhos do mundo centraram-se no relvado.
Com o apito final surgiram versões contraditórias e instalou-se o ruído.
Aos 20 anos, um jogador dificilmente tem maturidade para gerir sozinho um momento desta dimensão e é precisamente aqui que a estrutura tem de aparecer. Havia passos que poderiam ter sido dados: falar com todos os colegas de equipa, em especial, os que são diretamente afetados pelo tema, falar com Vinícius Júnior no final do jogo e, já com os ânimos mais calmos, assumir publicamente a sua versão dos factos.
Também era importante que esclarecesse o que disse, porque no comunicado que efetuou, mais tarde, apenas referiu que não proferiu insultos racistas, mas não revelou o que disse e o que despoletou a reação do jogador merengue.
Todos estes passos tinham sido fundamentais para reduzir a especulação. Foi desconfortável perceber que o tema não foi sequer abordado internamente com a clareza exigida, como ficou demonstrado por Lukebakio quando referiu que não falou com Prestianni sobre este tema no final do jogo. Num assunto desta natureza, deixar um jovem sozinho é um erro estratégico e humano.
O clube falhou na resposta
Uma instituição com a dimensão do Benfica tinha de ter percebido, de imediato, o alcance do que estava a acontecer. Não apenas desportivo — reputacional. A primeira reação pública não trouxe serenidade nem clareza. Num cenário de alegado insulto racista, a comunicação deveria ter sido inequívoca: ou garantir com convicção que os factos não ocorreram, se essa fosse a certeza interna, ou anunciar uma averiguação rigorosa, reafirmando que há linhas vermelhas que nunca podem ser ultrapassadas.
Pelo contrário, uma publicação oficial do Benfica, nas redes sociais, às duas da manhã apenas pretendeu gerar dúvidas e nunca esclarecer. Num momento que exigia liderança moral, a resposta do clube demonstrou uma enorme falta de perceção da realidade.
Presidente e treinador falharam
Num clube da dimensão do Sport Lisboa e Benfica, a liderança não pode agir por impulso. Um presidente não desce ao túnel no final de um jogo para se envolver num momento de tensão. A sua função é proteger a instituição com distância, frieza e autoridade. Quando essa fronteira é ultrapassada, a mensagem que passa é de descontrolo — e isso fragiliza o clube.
Já José Mourinho afirmou que situações semelhantes acontecem muitas vezes com Vinícius Júnior e sugeriu que o festejo do jogador poderia ter contribuído para o que se passou.
Esta linha de argumentação é perigosa. Porque aproxima-se da ideia de que o contexto pode justificar o inaceitável. Pode haver provocações. Pode haver tensão. Pode haver excesso competitivo. O que não pode haver é qualquer tentativa de contextualizar ou relativizar um alegado insulto racista. Num tema desta gravidade, não há enquadramentos possíveis. Há apenas um princípio: é inadmissível.
Comunicação do Benfica em crise
Se a liderança falhou nos gestos e nas palavras, a comunicação falhou nos factos. Num curto espaço de dias, o clube viu o assessor de comunicação (ex-jornalista) envolver-se numa ameaça, que ficou gravada, a um jornalista — algo incompatível com uma instituição que se quer aberta e democrática.
A liberdade de informar não pode ser tratada como um incómodo. Seguiu-se um comunicado oficial a garantir que não tinha existido qualquer discussão no túnel. Pouco depois, imagens tornadas públicas mostraram o contrário.
Quando a realidade desmente a versão oficial, o problema deixa de ser mediático — passa a ser de credibilidade. A comunicação de um grande clube não pode criar ruído, nem versões frágeis, nem desmentidos involuntários. Porque quando a palavra oficial perde força, a instituição perde autoridade.
Estar do lado certo
Independentemente de o insulto ter existido ou não, o momento existiu e momentos destes definem instituições. O Benfica tinha aqui uma oportunidade rara de estar do lado certo. Poderia ter transformado um episódio negativo numa afirmação inequívoca de princípios.
Poderia ter dito, sem ambiguidades, que o racismo não tem espaço no clube, no estádio ou na sociedade. Milhares de jovens vestem diariamente a camisola encarnada. O que o clube comunica nestes momentos ajuda a formar consciências. Os títulos ganham-se em campo. A reputação constrói-se nas decisões difíceis.