Apresentação de Jorge Jesus como novo selecionador nacional - Foto: Maycon Quiozini
Apresentação de Jorge Jesus como novo selecionador nacional - Foto: Maycon Quiozini

Com Jesus isto vai ser bem mais divertido

A Federação troca o soporífero pela cafeína... Jesus é a bebida energética que a seleção precisava. E se falharmos, será com estilo, será a tentar... Eu sou o Jorge Pessoa e Silva e esta é a crónica semanal do meu Livro do Desassossego

Há muitas maneiras de avaliar a qualidade de um treinador. Posso olhar para os resultados e para a qualidade estética do futebol praticado pelas equipas que comanda. Mas nada é tão completo quanto o que me dizem dele os jogadores por ele treinados. Não me refiro às declarações de atuais jogadores em entrevistas ou conferências de imprensa, mas as de antigos jogadores, em público ou privado, numa fase em que já não dependem do treinador para nada. E deixem que vos diga: em cada 10, cinco consideram Jorge Jesus o melhor treinador que tiveram; quatro entre os dois a três melhores e um diz que é apenas um bom treinador. O trabalho tático, o conhecimento do futebol e a capacidade de tirar rendimento de um jogador e colocar a equipa a jogar muito bom futebol é destacado por todos. Já 10 em cada 10 dizem também que ferve em pouca água; dá reprimendas em público se for preciso – tal como, a seguir, defende o jogador até ao limite; é obsessivo com o trabalho e se tiver de acordar alguém a meio da noite… acorda; é tão perfecionista e tão atento ao pormenor que chega a ser cansativo. Suga. Logo, a larga maioria desses ex-jogadores sempre me contou que à terceira época havia já um desgaste, mantendo-se o respeito e admiração. E não param de falar nele…

Conheci Jorge Jesus em 1998, no Estrela da Amadora. Numa altura em que os treinos aconteciam à porta aberta, bastou-me o primeiro para perceber que era um treinador diferente. A atenção ao detalhe e a qualidade do treino eram evidentes. No final, várias vezes, ficava a falar com os jornalistas. Explicava, debatia, ensinava. Anos mais tarde, num estágio de início de época do SC Braga, assisti a um treino em que uma jogada de ataque, que começou num guarda-redes e acabou num remate para defesa do outro guarda-redes demorou… 45 minutos. Jesus quase de fita métrica na mão a interromper a cada cinco segundos, a corrigir posicionamentos e decisões, a explicar tudo numa lógica de xadrezista.

Aprendi também a gostar de Jorge Jesus pela personalidade. Gingão. Divertido. Às vezes irritante. Umas calinadas no português, uma dose q.b. de arrogância. Tão genuíno. Diz que inventou coisas no futebol. Pablo Aimar concorda. Disse, após ter saído do Benfica, que com Jesus aprendeu coisas que nem sabia que existiam. E Aimar já era Aimar. E tantos outros…

Jesus é um corte com Roberto Martínez. Na personalidade, na independência, até na capacidade de fazer sangue para clarificar. Mas, acima de tudo, na capacidade de colocar a Seleção a jogar. É possível que arranje uma ou outra confusão, alguma incompatibilidade, se espalhe aqui e ali com alguma visão. É o preço a pagar por quem tem personalidade e fervilha de ideias. Pode falhar como outros. Mas falha a construir. Onde Martínez falhou por ausência a mais, Jesus pode falhar por presença a mais. Vai fazer os adeptos acreditar. E em termos de comunicação, trocamos o soporífero pela cafeína. Jesus prende-nos.

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Tenho as dúvidas de muitos: uma coisa é treinar um clube, outra a Seleção. Aqui, não tem tempo para vincar novas ideias; aqui tem de partilhar as ideias que defende com as que os jogadores trazem dos clubes. Mas sei que Jesus é um grande treinador. É um personagem. Tem carisma E gosto dele. Pronto.

Esta Seleção, não tenho dúvidas, vai ser muito mais mais competente e… muito mais divertida.

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