José Rachão fez parte de um dos momentos mais bonitos da história do Vitória de Setúbal, com a conquista da Taça de Portugal em 2005. Hoje 'chora' ao ver o estado do futebol naquela região - Foto: A BOLA
José Rachão fez parte de um dos momentos mais bonitos da história do Vitória de Setúbal, com a conquista da Taça de Portugal em 2005. Hoje 'chora' ao ver o estado do futebol naquela região - Foto: A BOLA

«Se acendermos o lume, o futebol português derrete»

José Rachão critica o ambiente de egoísmo que tem vindo a asfixiar o lado mais genuíno do do desporto rei: o do amor. O técnico alerta que «a tendência é piorar». Sandro Mendes, por seu turno, lemaneta situação vivida atualmente no Setúbal

A seca vivida, neste momento, na foz (e arredores) do rio Sado tem merecido a reflexão de José Rachão, que considera que, «a partir do momento em que se criaram aberturas para ficarem nas mãos de SADs e investidores, os clubes estão a perder identidade», sublinhando, ainda assim, que «o dinheiro não explica tudo».

O antigo jogador volta a recuar à década de 1970 para reforçar o seu ponto de vista: «Naquela altura, o distrito não era rico. As pessoas viviam do seu trabalho, mas havia muito mais identidade, mais bairrismo, mais amor, mais solidariedade. Claro que o dinheiro é o que manda, mas sem organização, sem as pessoas darem as mãos, não vamos ultrapassar isto. A tendência, na minha opinião, é piorar.»

O especialista lembra, todavia, que este não é um fenómeno circunscrito a Setúbal. Se é que verdade que «o futebol mudou radicalmente», o que faz falta agora - e com urgência - é «trazer o amor que havia e deixar o futebol de plástico». «Nada é real. Se acendermos o lume, o futebol português derrete. Falta carinho, falta solidariedade, respeito, dignidade, humildade, falta tudo. As pessoas têm de deixar os seus egos de lado. Só pensam nelas, no seu nome, na sua pessoa. Têm de pensar mais com o coração», insiste. 

O antigo médio fala de um «efeito dominó», sobre o qual tem vindo a alertar há muitos anos, «que só apanha de surpresa quem não está interessado, minimamente, em mudar o atual cenário». Enquanto não houver seriedade, considera o também dirigente da FPF (delegado da Assembleia Geral, pela ANTF), os problemas não irão ficar resolvidos. «É um fenómeno que foi acontecendo à medida que os anos iam passando. Só apanhou de surpresa os mais incautos, que não se iam apercebendo do egoísmo das pessoas que estão agarradas ao poder. Há pessoas que entram para servir, mas há outras que têm outros interesses. Cada vez se veem menos pessoas honestas...», lamenta.

«Não podemos pensar só no nosso ego. Temos que pensar em todos. Como representante do distrito, às vezes, dói-me um bocado», complementa. Apesar de estar, agora, «metido no dirigismo», José Rachão admite não ter poder para mudar o panorama corrente: «Vou falando com alguns colegas sobre isto, mas o poder é uma coisa que está sempre nas pessoas que mandam, que estão mais em cima. Essas é que decidem.»

Quem também esteve à conversa com A BOLA foi Sandro Mendes. Além de ter dedicado quase 20 anos da sua carreira de futebolista ao Vitória de Setúbal, o ex-capitão dos sadinos orientou-os em 2018/19 e 2019/20 e assumiu funções de coordenador e técnico na formação na mesma década. No distrito setubalense, o antigo médio também orientou o Alcacerense (2014/15), o Amora (2021/22) e, no ano passado, o Comércio e Indústria, que acabou por descer do Campeonato de Portugal para as distritais. 

Sandro Mendes era o capitão no último grande momento do Vitória de Setúbal: a conquista da Taça da Liga em 2007/08 - Foto: A BOLA

«Um distrito que já teve tantos clubes na Liga hoje anda pelas ruas da amargura», refere o timoneiro, antes de explicar o que levou à recente queda do Comércio e Indústria, novamente, para as distritais: «O Comércio teve um processo que se resolveu muito tarde. Começou a época com um ou dois jogadores da época transata e muitos novatos, sem experiência de Campeonato de Portugal. O desenrolar da situação levou àquilo que aconteceu no final. Quando foram identificados os problemas a meio da época, não houve hipótese de emendar.» 

«Se calhar, também não havia muita vontade de emendar», lamenta, revelando que o centenário Comércio e Indústria «tinha o vice-presidente, João Paulo Tavira, com uma grande ambição e espírito de sacrifício, mas sem uma estrutura competente para o acompanhar».

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