Rui Borges prepara-se para tornar o Sporting mais forte, mais agressivo e com mais fome — Foto: MIGUEL NUNES
Rui Borges prepara-se para tornar o Sporting mais forte, mais agressivo e com mais fome — Foto: MIGUEL NUNES

O futebol não é uma moda

Fisicalidade introduzida por Farioli resultou no FC Porto, mas o mais importante é a convicção. E a identidade de jogo de Espanha é o melhor exemplo. Este é o 'Livre sem barreira', espaço de opinião de Hugo do Carmo

Estive a ver na terça-feira os jogos Sporting-Celtic e França-Espanha e dei por mim a pensar que a moda pode ser um risco. Considero que os bons exemplos devem ser seguidos, mas só o devem ser com convicção.

Vem isto a propósito do campeão FC Porto, particularmente como Francesco Farioli transformou num ápice uma equipa perdedora num conjunto vencedor. O italiano tem uma ideia de jogo assente no poderio atlético, na qual a capacidade física tem um peso decisivo.

Com Farioli chegaram Alberto, Bednarek, Kiwior, Froholdt, Pablo Rosario, Luuk de Jong ou Borja Sainz, que se juntaram a outros atletas poderosos fisicamente, como Samu, Alan Varela, Pepê ou Deniz Gul. Num ápice, o dragão tornou-se numa máquina fortíssima, com o treinador escolhido por André Villas-Boas a logo adicionar uma nova palavra ao léxico do futebol português: fisicalidade. 

E a fisicalidade caiu em moda e até promete fazer escola. Curiosamente, foi Bruno Lage quem procurou dar o mote, assumindo que pretendia outro perfil de jogadores para o Benfica. Chegaram Manu Silva, Richard Ríos, Barrenechea, Lukebakio ou Ivanovic, mas o treinador não teve tempo para construir uma equipa à sua imagem, acabando despedido numa fase bem precoce da época.

Agora, surge o Sporting a apostar numa estratégia diferente da dos últimos anos, já com muitos reforços e uma base comum: a… fisicalidade. Altimira, Doumbia, Silas Andersen e o próprio Zalazar são jogadores fortíssimos atlética e fisicamente.

Já se percebeu que Rui Borges, enterrada a herança deixada por Ruben Amorim, pretende mudar o figurino da equipa. Quer um leão mais forte, mais agressivo e também com mais fome. É por este ângulo que observo as saídas anunciadas de Trincão, Pedro Gonçalves e Daniel Bragança, que se juntam às inevitáveis de Morita e Hjulmand. Confesso até que não me surpreenderia que mais algum peso pesado se juntasse ao rol, nomeadamente um dos defesas-centrais.

Certo é que o Sporting vai ser diferente e os indicadores que deu no particular com o campeão escocês até foram animadores. Vamos ter um leão mais arrojado, mais rápido e mais combativo, fruto do sangue novo injetado.

Nada a opor, obviamente, pois acredito que todos os reforços tenham o selo de Rui Borges, que prepara a transfiguração assente na convicção e nunca por uma questão de moda, embora esta tenha dado excelentes resultados no Dragão.

Já se percebeu que considero que a convicção é fundamental, pois só ela permite criar uma identidade. Como se constatou na meia-final do Mundial, com a Espanha a dar uma lição de futebol à favorita França. O projeto da federação do país vizinho é sólido, sustentado, assente numa ideia de jogo e transversal. O Barcelona criou o modelo e a seleção adotou-o. Com excelentes resultados. Tanto nos escalões de formação como na seleção principal. A promoção de Luis de la Fuente dos sub-21 à La Roja é só o corolário de uma lógica.

A França tem melhores jogadores — o ataque é mesmo extraordinário —, mas quem levou a melhor foi a equipa, a ideia, a convicção.   

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