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Do Alentejo à WWE: português de Miami a quem as lesões roubaram o futebol quer ser o CR7 do wrestling
PALM BEACH - O asfalto e as areias da Flórida são pródigos em histórias de reinvenção, daquelas em que o sonho americano se cruza com o fado português numa simbiose perfeita de suor e superação. Na ressaca do aparato da Seleção em Palm Beach, a equipa de reportagem d’A BOLA cruzou-se com Ian, um jovem de 27 anos que transporta na pele, na camisola e no discurso a alma de quem não se deixa vergar pelo destino.
Nascido em Lisboa, mas com raízes profundas na tranquilidade da envolvência de Beja, no seu Alentejo profundo, Ian vive hoje em Miami e personifica uma das mais belas narrativas de resiliência deste Mundial. A sua meta é tão audaz quão legítima: «Quero mover a agulha. O meu grande objetivo é ser o primeiro português campeão de wrestling, na WWE.»
Para compreender a força de Ian, é preciso recuar no tempo e olhar para os joelhos que outrora prometeram uma carreira nos grandes palcos do futebol europeu. O jovem trilhou o caminho que muitos miúdos cobiçam. Com uma juventude passada em Londres, onde viveu 18 anos, Ian vestiu as camisolas do Fulham e do Arsenal, isto depois de, ainda em Portugal, ter jogado nas escolinhas do Benfica.Mas o corpo cobrou a fatura da intensidade competitiva cedo demais.
«Foi difícil, tive muitas lesões. Tive três operações aos joelhos num espaço de três anos, rompi os meniscos, o ligamento cruzado anterior e a patela do joelho esquerdo», recorda, sem ponta de autocomiseração. Aos 16 anos, o sonho do futebol profissional desmoronava-se nas salas de cirurgia.
«Foi a pior coisa que me aconteceu na vida. Acabou a minha carreira, mas a vida é assim. Sou português, não dá para parar», atira, exibindo a determinação genética que o fez reagir. A paixão pelo wrestling já vinha de longe, dos tempos da infância na herança do Alentejo, quando via na televisão ícones como Eddie Guerrero, Hulk Hogan ou o Big Show, mesmo sem perceber uma palavra de inglês.
«Lembro-me de perguntar à minha mãe como se escrevia Big Show», conta, entre sorrisos. Paralelamente a esse amor antigo, Ian formou-se e vingou como personal trainer de elite em Inglaterra, chegando a moldar a forma física de estrelas como Ivan Toney, avançado internacional inglês, ou Logan Sargeant, piloto de Fórmula 1. Além disso, lidou de perto com famílias reais da Arábia Saudita e do Qatar.
Toda esta experiência acumulada foi uma bagagem preciosa para o salto definitivo rumo aos Estados Unidos, há dois anos. Antes disso, cumpriu três meses de treino intensivo em Calgary, no Canadá, a verdadeira pátria espiritual das lutas coreografadas.
«Eusébio era grande amigo de família»
Mas a linhagem de Ian com o desporto-rei tem um padrinho de luxo. Na memória guarda o maior mentor de todos. «O Eusébio era um grande amigo de família. Uma pessoa fantástica, fiquei muito triste quando morreu. Sou um grande benfiquista, tenho a tatuagem de 1904. Ele ajudou-me muito, tinha ligações com o meu pai e com os meus tios, que hoje trabalham em Riade na televisão. O meu primeiro ídolo de infância foi o Ronaldinho, mas o Eusébio foi o topo», revela.
Ian acrescenta ainda que também teve o privilégio de privar com Cristiano Ronaldo em 2007, após um jogo particular, numa altura em que viajava nas férias de verão. «Eu tinha um boneco de wrestling na mochila, o Cristiano sentou-se comigo... O meu sonho era voltar a vê-lo e perceber se ele se lembra, embora saiba que é quase impossível», confessa.
Amigo do filho de Rey Mysterio
A viver em Miami, um dos epicentros da modalidade, Ian conta com o apoio de grandes amigos no circuito mundial, como Dominik Mysterio, filho do lendário Rey Mysterio. Diante dos céticos que acusam o wrestling de ser uma farsa ou puro teatro, o atleta responde com a dureza dos factos.
«Aos meus amigos que acham que é fingido, eu digo: venham a um treino. Toquem no ringue, aquilo não é uma cama. Nós somos stuntmen em direto. Nós aleijamo-nos a sério. Eu tenho problemas nas costas, nos joelhos, mas no fim do dia não há comparação com nenhum desporto», explica.
«Quero mudar a vida dos meus pais»
Mais do que os títulos e a ribalta, Ian quer vencer pela família. «Quero mudar a vida da minha mãe e do meu pai. Quero mostrar às crianças portuguesas que não há só futebol, que há outras opções, musculação, bodybuilding... Quero levar Portugal ao topo e, por exemplo, ajudar crianças por via da Make a Wish. O que o Cristiano fez pela nossa imagem é incrível, eu quero dar outra perspetiva. Só vai sempre haver um primeiro campeão português na WWE, e esse quero ser eu.»
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