Os meus reforços para Marco Silva
Todos nós, adeptos, gostamos desta altura do ano. Gostamos de dar palpites, de ter longas discussões sobre quem deve sair, quem deve ficar e quem deveríamos contratar. É certo que raramente chegamos a consenso, mas são debates que fazem parte do futebol e que nos divertem. E, nesta preparação para a próxima época, como não poderia deixar de ser, também eu vou deixar os meus palpites sobre o próximo plantel do Benfica.
Há verões em que o Benfica precisa de uma revolução. Este não me parece ser um deles.
Marco Silva não chega à Luz para reinventar o futebol. Chega para fazer uma coisa que tem faltado demasiadas vezes ao Benfica nos últimos anos: transformar bons jogadores numa grande equipa. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.
Na baliza não há grande discussão. Trubin é titular. Ponto final. Tem qualidade, tem margem de crescimento, tem personalidade e já demonstrou que consegue lidar com a pressão de defender a baliza do Benfica. Samuel Soares pode continuar como alternativa e a verdade é que, pela primeira vez em muitos anos, não sinto necessidade de discutir esta posição. A estabilidade também é um reforço.
Na lateral direita, curiosamente, existe um problema, mas não é por falta de opções. É precisamente o contrário.
Dedic chegou e agarrou o lugar. Mostrou velocidade, capacidade ofensiva e uma consistência defensiva acima do que muitos esperavam. Sem Bah, que apenas regressou da lesão quando a época já ia avançada, Banjaqui foi tendo oportunidades. E não desiludiu. Pelo contrário. Sempre que entrou deixou sinais claros de que o Benfica tem ali um jogador especial. Daqueles que não aparecem todos os anos.
O futuro da posição passa por ele.
Bah já mostrou no passado que tem qualidade para jogar no Benfica, mas não me parece fazer sentido iniciar uma época com três laterais-direitos de qualidade para uma única posição. Por muito que goste do jogador, se alguém tiver de sair, apostaria em Bah.
No lado esquerdo a realidade é bem diferente.
Se olhamos para José Neto com os mesmos olhos com que olhamos para Banjaqui, em Dahl a conversa muda de figura. Nunca me convenceu totalmente. Nem oferece um caudal ofensivo que compense as suas limitações, nem a sua maior contenção defensiva trouxe uma segurança que justificasse essa escolha.
Por isso, se há posição onde o Benfica deve investir para ter um titular indiscutível, é esta.
José Neto deve continuar a crescer, mas sem a pressão de ter de resolver já um problema que ainda não está preparado para resolver sozinho.
No centro da defesa estará provavelmente uma das maiores operações deste mercado.
A saída de Otamendi deixa um vazio que vai muito para além da qualidade dentro de campo. Sai liderança, experiência, personalidade e uma voz que durante anos comandou aquela linha defensiva.
António Silva e Tomás Araújo continuam a ser uma dupla com presente e futuro. São dois jogadores que gostaria muito de ver permanecer mais uma temporada, mas também sei que ambos têm mercado e que o futebol atual dificilmente permite fazer planos a longo prazo.
Mesmo que ambos permaneçam, acredito que o Benfica precisa de contratar dois centrais.
Não porque os titulares não cheguem. Mas porque a sucessão deve ser preparada com tempo. O Benfica não pode voltar a ser apanhado desprevenido quando chegar o dia em que um dos seus centrais mais valiosos sair.
No meio-campo a situação é diferente.
Talvez seja mesmo o setor onde o Benfica está mais bem servido.
Aursnes é daqueles jogadores que qualquer treinador gostaria de ter. Faz praticamente tudo bem. Percebe o jogo como poucos, toma quase sempre boas decisões e tem uma inteligência competitiva que muitas vezes passa despercebida.
Richard Ríos acrescenta intensidade, transporte e agressividade. Barreiro oferece trabalho, pressão e chegada à área. Barrenechea pode trazer critério e equilíbrio. Manu Silva surge como mais uma solução válida para um setor que já tem qualidade em abundância.
Mas o jogador que mais me intriga é Sudakov. Porque sinto que pode ser uma das grandes figuras da próxima época.
Tem talento, visão, último passe e capacidade de aparecer em zonas de finalização. Tem aquilo que tantas vezes faltou ao Benfica: capacidade para ligar o meio-campo ao ataque com naturalidade.
Mas também é um daqueles jogadores que dependem muito do contexto.
Se for apenas mais um elemento perdido entre linhas, corre o risco de desaparecer. Se Marco Silva conseguir construir a equipa à sua volta, pode tornar-se uma das referências do campeonato.
Nas alas encontro a principal fragilidade do plantel.
Lukebakio tem capacidade para decidir jogos, mas continua à procura da regularidade que separa os bons jogadores dos grandes jogadores. Schjelderup continua envolto em dúvidas sobre o seu futuro. Prestianni tem talento, mas ainda está numa fase de crescimento. Rafa, utilizado mais por dentro, pode ser solução para partir da esquerda, como já foi noutras épocas.
Mas falta qualquer coisa.
Falta aquele jogador que recebe a bola e faz imediatamente a bancada acreditar que alguma coisa vai acontecer.
Aquele extremo capaz de ganhar duelos individuais, de desmontar blocos baixos e de resolver jogos fechados.
E em Portugal, onde o Benfica passa grande parte da época a atacar equipas fechadas sobre a sua área, esse tipo de jogador vale ouro.
Na frente, Pavlidis deve continuar a ser a referência.
Nunca tive dúvidas sobre a sua qualidade.
O problema é que o avançado do Benfica vive permanentemente sob julgamento. Se marca um golo, devia ter marcado dois. Se marca dois, falhou uma oportunidade. Se passa um jogo sem marcar, surgem imediatamente dúvidas sobre a sua utilidade.
Ivanovic é um caso interessante. Oferece características diferentes, mais profundidade, mais agressividade e outra capacidade de atacar espaços. E Anísio Cabral pode muito bem ser uma das boas surpresas da próxima temporada.
Por isso, se fosse eu a decidir, não faria uma revolução.
Procuraria um lateral-esquerdo para entrar de imediato no onze, dois centrais que permitissem preparar o futuro e um extremo capaz de acrescentar aquilo que hoje falta à equipa.
O resto deixava para Marco Silva.
Porque o Benfica tem passado demasiados verões a tentar ganhar campeonatos no mercado.
E os campeonatos raramente se ganham apenas no mercado.
Não se ganham em comunicados à CMVM. Não se ganham em apresentações com milhares de visualizações. Não se ganham em fotografias com cachecóis ao alto.
Ganham-se quando existe uma equipa.
Uma equipa com hierarquia. Uma equipa com identidade. Uma equipa em que cada jogador conhece o seu papel e percebe exatamente o que o coletivo espera dele.
O Benfica não precisa de comprar um plantel novo.
Precisa de deixar de parecer um plantel comprado às peças.
E esse será o verdadeiro teste de Marco Silva.
Não pedir quinze jogadores.
Com o que existe, construir uma equipa.
Parece pouco.
Mas, olhando para os últimos anos, talvez seja precisamente isso que tem faltado.