Diogo Costa, mais que o dinheiro
Um dos sinais da industrialização do futebol tem-se refletido, de ano para ano, no mercado de transferências, que a cada verão bate recordes absolutos de volume e desde há muito inflacionado pela Premier League, uma espécie de Superliga que quase tudo abafa do ponto de vista financeiro e desportivo. Daí que seja estranho, mas igualmente agradável, ouvir palavras como as referidas ontem por Diogo Costa, quando admitiu poder fazer toda a sua carreira no FC Porto.
Até pode ser prematuro por agora pensar nesse cenário tendo em conta que o guardião titular dos dragões e da Seleção Nacional ainda só tem 26 anos e, portanto, um longo futuro pela frente. Mais a mais preso a uma cláusula de rescisão de 60 milhões de euros, valor relativamente baixo para o mercado de luxo e inferior ao que já custaram outros jogadores da sua posição e manifestamente com menores recursos e capacidades que ele. Não tenho dúvidas, sequer, que Diogo Costa será a opção número 1 ou 2 de Bayern e Real Madrid quando estes dois colossos decidirem encontrar um substituto para o longo prazo de Manuel Neuer e Thibaut Courtois, respetivamente.
Mas só a ideia por si, e anunciada de modo natural e desprendido, tem o mérito de devolver o futebol à sua origem, mesmo que o cliché do amor à camisola esteja obviamente protegido num contrato muito vantajoso para o contexto do futebol português. Mas não é, repito, habitual ouvir um jogador, mesmo que formado no clube, dizer o que disse Diogo Costa, o que só confirma tratar-se de um futebolista e, muito provavelmente, um homem de bem consigo mesmo. Para uns, isto significará pouca ambição, para outros pode ser vista como uma demonstração de maturidade daquele que poderá vir a ser o melhor guarda-redes português de todos os tempos e cujo ídolo (Vítor Baía) pode funcionar como exemplo - só foi verdadeiramente feliz com a camisola dos dragões, o seu clube de sempre, com um intervalo de três anos no Barcelona.
No dia que marca o regresso da Liga dos Campeões e tendo o FC Porto-Man. City como um dos pratos principais do menu, é refrescante pensar que numa competição que traduz o carrossel das transferências milionárias há um guarda-redes de topo mundial em contraciclo e poder, quem sabe, fazer parte do clube de Paolo Maldini, Francesco Totti ou Carles Puyol. Todos eles (entre outros) fizeram história por só terem jogado por um clube. É outra forma de garantir o estatuto de jogador eterno.