«Uma questão de gosto» e... «xadrez»: o que liga Farioli e Enzo Maresca?
Aos 37 anos e depois de se sagrar campeão português pelo FC Porto, Francesco Farioli estreia-se esta noite (20h00) na UEFA Champions League. Quinze anos depois de ter surpreendido o orientador, o professor Sergio Givone, com uma proposta inusitada de tese da licenciatura em Filosofia, que colocava o guarda-redes na pele de filósofo durante um jogo de futebol, o treinador dos dragões vai, agora, a... exame.
Pela frente, terá o Manchester City, orientado por Enzo Maresca. Quis o destino que fosse um compatriota a batizar Farioli na maior prova de clubes do planeta, mas a nacionalidade é apenas um de vários pontos de ligação entre os dois técnicos italianos.
Tanto um como outro veem no futebol e no treino mais do que um conjunto de práticas sistematizadas. Há uma linha de pensamento ou, se quisermos, uma filosofia por trás de cada decisão tomada a partir do banco e, dentro de campo, pelos jogadores. Essa forma académica de olhar para o desporto rei resultou na elaboração de duas teses de conclusão do curso UEFA Pro, no Centro Técnico de Coverciano (perto de Florença), conhecido informalmente como a 'Universidade do Futebol', que ficaram célebres entre os pares.
«Uma questão de gosto: o Futebol como vontade e representação» foi o título dado por Farioli ao documento que apresentou em 2023 e a que A BOLA teve acesso. Inspirado por uma palestra de Luciano Spalletti — «com força, energia e humildade arrebatadoras» —, o agora homem do leme portista idealizou «um relato de um sentir, um pensar, um acreditar, um escolher, um errar e de um questionar sobre coisas que nos fazem dormir pouco», defendendo que a forma como uma equipa joga não resulta apenas numa escolha tática, mas sim de uma «identidade estética e convicção filosófica» assumida pelo treinador.
Num dos capítulos da obra, ao longo da qual evoca ideais de Sócrates e Immanuel Kant e cita a Ilíada, de Homero, Farioli elege José Mourinho (entre outros) como «um dos treinadores» que o «fascina» e aponta «o City de Guardiola, Arsenal de Arteta e o Brighton de De Zerbi» como exemplos de «modelos vencedores».
O atual técnico do Tottenham é, como se sabe, uma das inspirações de Francesco, que foi o treinador de guarda-redes do Benevento e do Sassuolo de De Zerbi, mas não deixa de ser curioso que Guardiola, o grande mentor de Maresca, também surja apontado como referência.
Em 2021, dois anos antes de Farioli, era o técnico do Man. City que defendia, também em Coverciano, a respetiva tese — «Futebol e Xadrez» —, assente na ideia de que o futebol deve ser preparado com base no rigor analítico, comparando-o, como o nome indica, ao jogo de tabuleiro e lembrando que a movimentação dos jogadores deve obrigar as peças adversárias a saírem de posição, provocando o erro no bloco opositor antes de a bola chegar às zonas de finalização.
A descrição parece familiar ao leitor? Se a resposta é «sim», a justificação é simples: a filosofia de jogo defendida por Maresca na tese com que concluiu o curso UEFA Pro vai de encontro àquela que Farioli preconiza no FC Porto e já havia implementado nos outros clubes que orientou. Consiste na atração do adversário com circulação de bola em zonas recuadas, com participação ativa do guarda-redes, e pressão intensa no momento de defender. Em ataque organizado, os laterais têm tendência a atacar o espaço interior — Maresca até privilegia a colocação de um deles como uma espécie de box-to-box — e os dois médios interiores (Froholdt e Gabri Veiga, por norma, no caso do FC Porto) a atacarem o último terço.
Considerados dois dos mais brilhantes estudantes da nova vaga de treinadores italianos, que tem vindo a desafiar a visão instalada do catenaccio, Francesco Farioli e Enzo Maresca apresentam percursos paralelos, com vários pontos de contacto. Isto sem esquecer que ambos se emanciparam como técnicos principais longe da pátria-mãe: Farioli na Turquia, em França, Países Baixos e Portugal; Maresca em Inglaterra. Esta noite, o Estádio do Dragão prepara-se para um grande jogo de futebol e, em simultâneo, para um embate de filosofias com muitas semelhanças, onde a teoria é ponte para a parte prática.
O onze provável do FC Porto para o duelo com o Man. City
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